A ascensão da Morena Rosa

O paulista Marco Franzato trabalhou em fazendas até a adolescência. Com o dinheiro de um Monza usado fez a Morena Rosa, uma das marcas de roupas femininas que mais crescem no país

A inglesa Naomi Campbell e o paulista Marco Franzato sempre habitaram universos opostos. Nos anos 80, enquanto a modelo iniciava carreira no glamouroso universo das passarelas europeias, Franzato trabalhava como boia-fria em fazendas de café em Cianorte, no interior do Paraná. Na década seguinte, Naomi deslanchou na carreira, tornandose uma das tops mais bem pagas do mundo, ao lado de Cindy Crawford e Linda Evangelista. À sua maneira, Franzato também prosperou – começou a trabalhar na área de contabilidade de uma pequena fabricante local de balas e doces. Até que, sem perspectivas de subir na carreira, resolveu abrir a própria empresa ao lado da mulher e de dois cunhados (todos com a mesma participação acionária). Em 1993, com o dinheiro da venda de um Monza usado e apenas quatro máquinas de costura, começou a produzir as primeiras peças com a etiqueta Morena Rosa. Passados 17 anos, finalmente os caminhos de Naomi e Franzato se cruzaram em janeiro deste ano – mais precisamente num galpão da Vila Leopoldina, bairro da zona oeste de São Paulo. A modelo estava lá para fotografar a nova campanha da Morena Rosa, após três árduos anos de negociações e em troca de um cachê estimado em 1 milhão de reais. “Ter uma grande top como a Naomi para representar nossa marca era questão de honra”, diz Franzato, de 51 anos. “Precisávamos mostrar que competimos de igual para igual com marcas mais tradicionais.”

A contratação de Naomi, rosto de grifes como Yves Saint-Laurent e Dolce & Gabbana, é a medida mais simbólica da ascensão da Morena Rosa. Hoje, a empresa que começou de maneira quase caseira no interior do Paraná fabrica 1,6 milhão de peças de roupas por ano – entre elas vestidos que chegam a custar 1 200 reais no varejo. A divulgação maciça em revistas de moda e uma distribuição eficiente fizeram dela a sétima marca mais lembrada entre 21 grifes femininas nacionais numa pesquisa do instituto Datafolha de 2009, deixando para trás nomes como TNG, Carmim e Maria Bonita. Em 2009, seu faturamento alcançou 200 milhões de reais, 25% mais do que no ano anterior. É uma taxa muito superior à média do setor, que cresceu 4% no mesmo período.


Franzato é exemplo de uma geração de empreendedores que, nos últimos anos, conseguiram dar corpo a pequenos negócios e passaram a chamar a atenção de investidores. Caçula de três filhos de uma família humilde de Catanduva, no interior de São Paulo, só se alfabetizou aos 15 anos de idade, quando pôde pagar um curso supletivo e já havia se mudado com os parentes para o Paraná. Em seguida, buscou formação técnica como contador. Sua decisão de abandonar a carreira foi intempestiva. Estimulado pela cunhada, que trabalhava como costureira e via as encomendas crescerem, resolveu investir suas economias e dedicar-se integralmente ao novo negócio (a cunhada até hoje participa da produção das peças). “Nem estudamos o mercado por muito tempo. Vendi o carro que tinha na época por algo equivalente a 8 000 dólares e começamos a produzir”, diz ele. No início, a pequena confecção, instalada no bairro comercial de Cianorte, fabricava apenas camisetas básicas e moletons. Foi por sugestão da mulher de Franzato, Valdete, que até então trabalhava como professora de matemática em uma escola municipal, que a família decidiu migrar para a moda feminina, no final dos anos 90. “Não havia ninguém que oferecesse ‘modinha’ na região”, diz Valdete, de 45 anos de idade e hoje responsável pela concepção das coleções. A marca regional com ligeira pegada fashion logo passou a atrair a atenção de lojas multimarcas de todo o país.

Como a maior parte dos empreendedores sem formação acadêmica, Franzato é um intuitivo que se vale do bom senso para conduzir os negócios. “Não sei nada de moda, mas entendo muito bem de números”, diz. “Por isso, não abro mão de lucratividade por glamour nenhum.” Esse perfil de gestão diferencia a companhia de alguns de seus concorrentes. A Morena Rosa não participa das já tradicionais semanas de moda. Na avaliação de Franzato, esses são eventos caros, que não trazem retorno proporcional ao investimento. Nova York e Paris nunca inspiraram suas coleções. Aí entra a “intuição” de Valdete – ela mesma prova todas as 180 peças que formam cada uma das seis coleções anuais da marca. “A brasileira gosta de valorizar o corpo e nossa roupa tem de ajudá-la nisso”, diz Valdete. “Se não gosto do que vejo quando provo uma peça, a produção não sai.” O portal inglês WGSN, um dos maiores sites de pesquisa de tendências da indústria da moda, foi uma das poucas fontes de inspiração tradicionais que passaram a fazer parte do processo de criação da empresa nos últimos anos. “Empresas como a Morena Rosa assumiram seu DNA brasileiro ao fazer uma moda extremamente sexy e feminina”, diz a consultora de moda e sócia da tecelagem Santa Constancia, Costanza Pascolato. O grande desafio de Franzato daqui para a frente é fazer com que esse DNA o ajude a dar o próximo passo – aquele que transforma empresas emergentes em negócios realmente grandes.