As oito tragédias do Uber

Carolina Oliveira e Thiago Lavado

A empresa de transportes Uber adicionou nesta terça-feira mais uma polêmica à extensa lista que assombra a companhia desde o início do ano. Segundo um funcionário da empresa contou à agência Bloomberg, o Uber demitiu mais de 20 funcionários como parte de uma investigação sobre assédio sexual e sexismo dentro da companhia.

Avaliado em 68 bilhões de dólares e com mais de 12.000 funcionários, o Uber havia contratado a firma de advogados Perkins Coie LLP para apurar 215 denúncias de assédio sexual. Em mais de 100 dessas acusações não serão tomadas quaisquer ações. É a primeira ação desde que o Uber iniciou investigações sobre a cultura no ambiente de trabalho da companhia, depois que a ex-engenheira de software Susan Fowler Rigetti acusou a empresa de ignorar deliberadamente múltiplas acusações de assédio contra superiores, tanto dela quanto de outras funcionárias. É esperado que o Uber emita algum tipo de pronunciamento sobre o caso nos próximos dias.

Em meio a esse turbilhão de escândalos, o Uber anunciou na última semana um prejuízo de 708 milhões de dólares no primeiro trimestre do ano. O valor é menor que os 991 milhões registrados no mesmo período do ano passado, e o faturamento, de 3,4 bilhões de dólares, cresceu 18%. Em nota, a empresa afirmou que a redução do prejuízo coloca o Uber “numa boa trajetória rumo à lucratividade”.

Para que essa trajetória prossiga, seria bom que a sucessão de escândalos desse um tempo. A empresa luta para reestruturar sua imagem depois de uma série de reveses que vão das acusações de assédio a espionagem industrial. Como se não bastassem as polêmicas na vida profissional, o presidente do Uber, Travis Kalanick, tem ainda de lidar com a perda da mãe, Bonnie, que morreu aos 71 anos em um acidente de barco na Califórnia, segundo anunciado pelo Uber na última sexta-feira 27. EXAME Hoje separou uma lista com as principais polêmicas que envolveram o Uber no ano.

#DeleteUber

Quando o presidente americano Donald Trump decretou, no final de janeiro, a primeira proibição para a entrada de pessoas de sete países de maioria muçulmana a mão da opinião pública pesou sobre o Uber. À época, os taxistas da cidade de Nova York, muitos imigrantes, se recusaram a atender corridas que iam e vinham do aeroporto internacional JFK, o maior da cidade, como forma de protesto ao decreto presidencial.

Em resposta, o movimento #DeleteUber atingiu a internet em cheio. Cerca de 500.000 usuários deletaram suas contas, segunda uma estimativa do jornal The New York Times, depois que a companhia passou a oferecer viagens ao aeroporto já que os taxistas estavam em greve.

Kalanick com Trump

Depois que o movimento #DeleteUber ganhou a internet, Kalanick foi acusado de não cooperar com os boicotes às ações de Donald Trump pois fazia parte do time de aconselhamento econômico do presidente. Com vários imigrantes dentro do Uber, Kalanick precisou se explicar até com os próprios funcionários. “Nós vamos nos unir com qualquer pessoa no mundo enquanto eles estiverem melhorando o transporte nas cidades, criando vagas de trabalho e tirar a poluição do ar e o tráfego das estradas”, escreveu em um comunicado interno, insistindo que a decisão de manter as operações no aeroporto JFK era apolítica.

Não pegou bem. Na mesma época, a rival do Uber nos Estados Unidos, Lyft, doou 1 milhão de dólares para a União de Liberdades Civis da América, que lutava contra o decreto presidencial de Trump. O Uber respondeu criando um fundo de 3 milhões de dólares para funcionários que fossem atingidos por qualquer ação vinculada à proibição de entrada no país. Os esforços foram em vão e, alguns dias depois, no início de fevereiro, Travis Kalanick pediu demissão do conselho consultivo presidencial.

Derrota para a Didi

Atraído por promessas de ganhos homéricos em um país que realiza cerca de 1,5 bilhão de corridas por ano, o Uber foi tentar a sorte na China em 2014. Mas a concorrência com a Didi, rival que dominava 85% do mercado até meados de 2016, se mostrou feroz. Estima-se que o Uber queimasse cerca de 1 bilhão de dólares todos os anos apenas para manter os subsídios em uma competição sanguinária com a Didi.

Em agosto do ano passado, o bolso apertou. O Uber decidiu vender suas operações chinesas para a Didi. Em nota, a Didi informou que não iria dissolver as operações do Uber, mas que manteria os negócios e a marca independente, para garantir a estabilidade de passageiros e motoristas. Detalhes do acordo não foram divulgados, mas a Didi disse que pela troca dos ativos do Uber iria ceder uma parcela de 17,7% de suas operações para os americanos. A Didi também passou a ser uma acionista minoritária do Uber.

Cultura de assédio

O Uber anunciou a seus funcionários nesta terça-feira que uma investigação interna levou à demissão de 20 pessoas acusadas de assédio sexual. A investigação começou em fevereiro, depois que a engenheira Susan Fowler denunciou em seu blog pessoal que ela e outras colegas foram assediadas por um diretor — e que o RH da empresa nada fez sobre isso. O relato da engenheira diz ainda que há uma cultura de machismo e competitividade na empresa tão tóxico que acabava por atrapalhar projetos, numa “guerra política no estilo Game of Thrones”, como Fowler descreve. O caso fez Kalanick pedir desculpas públicas dias depois, afirmando em um comunicado que o que Fowler descreve “é repugnante e se opõe a tudo o que o Uber defende e acredita”. Em uma reunião para prestar esclarecimentos aos funcionários no dia 21 de fevereiro, Kalanick apareceu com “lágrimas nos olhos” e prometeu investigar as acusações e aumentar a diversidade no Uber.

Chuva de demissões

A sucessão de problemas no Uber vem sendo seguida pela saída de um executivo atrás do outro. No alto escalão, pelo menos nove executivos já deixaram a empresa neste ano. Um dos principais nomes é o ex-chefe operacional, Jeff Jones, considerado uma espécie de número 2 de Kalanick. Ao se demitir, em março, ele afirmou que as crenças que guiaram sua carreira são “inconsistentes com o que viu e experimentou no Uber”. Outro grande nome foi o diretor de Finanças, Gautam Gupta, ex-Goldman Sachs e que vai agora trabalhar em uma startup — 0 Uberprocura um nome para preencher o cargo.

Uber x Apple

As práticas polêmicas da gestão de Kalanick não envolvem só o criticado ambiente de trabalho do Uber. Em 2015, a empresa quase foi expulsa da Apple Store, loja de aplicativos da Apple, depois que descobriu-se que o Uber coletava dados dos usuários de iPhones mesmo quando o app era desinstalado. A Apple, que proíbe essa prática em sua loja, já havia descoberto a ilegalidade antes, mas seu primeiro alerta não foi suficiente. Até que o presidente da empresa, Tim Cook, convocou Kalanick para uma reunião em 2015 e ameaçou banir o Uber dos iPhones. “Então, eu ouvi dizer que vocês estão quebrando algumas de nossas regras”, disse Cook na ocasião. O caso só foi tornado público neste ano, pelo jornal The New York Times.

Uber x Waymo

A Waymo, braço de veículos autônomos da Alphabet, do Google, processou o Uber na Justiça de São Francisco em fevereiro pelo que chama de “roubo planejado” de sua tecnologia de automação. No centro da intriga está Anthony Levandowski, ex-funcionário do Google que teria baixado 14.000 arquivos da Waymo quando trabalhava na empresa. Segundo a Waymo, Levandowski usou os dados para desenvolver sua startup Otto — comprada pelo Uber em agosto de 2016 por 680 milhões de dólares. A Justiça havia ordenado ao Uber que entregasse todos os documentos envolvidos na questão até 31 de maio, e Lewandovski foi demitido na última terça-feira 30 ao se recusar a cooperar com a defesa.

Acidentes

Além da disputa com a Waymo, os veículos autônomos do Uber também deram dor de cabeça à empresa em março, quando um deles se se envolveu em um acidente de trânsito na cidade de Tempe, no Arizona, após ter supostamente cruzado um sinal vermelho. O caso levantou questionamentos sobre a capacidade de carros autônomos em reagir rapidamente a situações de risco. Hoje, os carros autônomos do Uber estão disponíveis para alguns usuários premium nas cidades de São Francisco e Pittsburgh. O Uber aposta nos veículos autônomos para diminuir a dependência dos motoristas, responsáveis por outra das maiores dores de cabeça da empresa: a relação trabalhista. Enquanto o Uber afirma ser apenas uma plataforma que liga usuários a motoristas, governos e sindicatos mundo afora alegam que a empresa deve tratar seus motoristas como funcionários. Uma das maiores disputas trabalhistas ocorre na Europa, onde o Uber é processado em cidades como Paris e Londres. Na Dinamarca, a empresa foi forçada a encerrar as operações.