As apostas e expectativas das empresas de Melhores e Maiores

Em 2017, as empresas em destaque foram as que investiram mesmo num contexto de crise, buscaram inovar e procuraram novos mercados.

São Paulo – O ano de 2017 ainda foi difícil para a economia brasileira, que continua lutando para sair da crise. Nesse contexto, as empresas que decidiram fazer investimentos num momento adverso conseguiram se destacar das demais.

A edição de Melhores e Maiores 2018 premiou nesta noite as 20 empresas entre as maiores do país que se destacaram por por esse motivo, além da Empresa do Ano e a destaque do Agronegócio.

“Em cenário ainda bastante adverso, as empresas de M&M provaram o que podem fazer as melhores empresas braseiras”, afirmou o diretor de redação de EXAME, André Lahóz Mendonça de Barros.

Com resultados invejáveis no setor de varejo, que passou por um período complicadíssimo durante a recessão, a Lojas Renner foi premiada como a Empresa do Ano. Com ou sem crise, o lucro da empresa cresce ano após ano há mais de uma década.

Em 2017, a varejista — dona também das bandeiras Camicado, de artigos para o ar, e Youcom, de moda jovem — teve um faturamento de 2.2 bilhão de dólares e um lucro líquido de 221 milhões, valor 14% superior ao do ano anterior.

Para José Galló, presidente da varejista de moda, “quem tem uma proposta de valor diferenciada, reconhecida pelo público, vai se sair melhor e pode até ganhar mercado”.

Outro destaque da premiação foi a Copersucar, premiada como melhor do setor de Agronegócio. Em 2017, o lucro líquido da Copersucar foi multiplicado por 13 na comparação com 2016, superando os 76 milhões de dólares, enquanto as 400 maiores empresas do agronegócio registraram uma alta de 41,4% no lucro no mesmo período, para um total combinado de 5,4 bilhões de dólares.

“Nosso resultado é fruto de investimentos que fizemos nos últimos anos. Agora colhemos os frutos”, afirmou Paulo Roberto de Souza, presidente da companhia. Para o futuro, a demanda por produtos do agronegócio não será problema, afirma. “O gargalo é a infraestrutura, que levará mais tempo para ser melhorar”, prevê.

Preparadas para a crise

A preparação para o momento de crise também impulsionou a farmacêutica Cristália. De acordo com o presidente Ogari de Castro Pacheco, “estávamos capitalizados e preparados para trabalhar”. Como os medicamentos genéricos não estavam dando o retorno esperado, a companhia se voltou aos nichos de mercado para lançar produtos com diferenciais competitivos.

A preparação para o cenário de crise também foi fundamental para a Oxiteno. De 2006 a 2011, a companhia investiu pesadamente em seu parque fabril, principalmente em suas plantas no Nordeste e em Mauá, SP. “Dessa forma, ganhamos escala em nossas unidades fabris, o que é essencial na indústria química e ajuda a diminuir o custo e aumentar a eficiência”, afirmou João Benjamin Parolin, presidente da química e petroquímica.

A TData, subsidiária da Vivo, é outra que comemora os investimentos feitos. Ela foi a premiada no setor de telecomunicações. “Fizemos investimentos pesados no último período e nossos resultados são efeito desses investimentos”, afirmou David Melcon, CFO da Vivo, que recebeu o prêmio em noma da TData. Melcon diz esperar um cenário positivo no próximo ano.

Para Roberto Argenta, presidente da Beira Rio, premiada no setor têxtil, o futuro também é promissor. “A crise está acabando”, atesta. Segundo ele, porém, o investimento em infraestrutura é fundamental.

“Tenho feito duas proposta aos presidenciáveis: criar um mercado comum da América Latina e investir 20% das reservas comerciais em infraestrutura”, afirmou. Segundo ele, o foco em mercados como a América do Sul foi fundamental para os resultados da companhia.

A exportação também foi um pilar importante para a Vale. De acordo com Fábio Schvartsman, presidente da mineradora, as principais commodities da empresa são voltadas para o mercado mundial, que está mais fértil e com uma estabilidade maior nos preços em relação aos anos anteriores.

Mais do que lançar os itens certos, a Vale também se voltou para dentro para se fortalecer. “Investimos em governança e saímos dessa crise de maneira muito positiva, com boa percepção do mercado”, falou o executivo.

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Mudança de modelo

Em um cenário mais digital, a Natura precisou se reinventar para se manter relevante na venda direta. Além de lançar lojas físicas, a companhia de cosméticos também investiu em canais digitais de venda.

“O ano passado foi muito especial para a empresa. Nós revitalizamos e modernizamos o modelo de vendas diretas”, afirmou João Paulo Ferreira, CEO. “Nos tornamos uma empresa digital”, disse.

Diversificar os segmentos em que atua foi o ponto chave para o crescimento da MRS Logística, empresa que gere malhas ferroviárias. Para Guilherme Segalla de Mello, CEO, 2017 foi um ano bastante desafiador, “mas tivemos criatividade, entramos em novos segmentos e modais e buscamos diferenciais”. A empresa tem investido em automação e renovação da frota.

Aproveitar as oportunidades

Com a crise econômica e a desaceleração de muitas indústrias, o consumo de energia no país também caiu. A Focus Energia percebeu essa dificuldade como uma oportunidade. Como o governo criou mecanismos para a distribuição de energia não vendida, a Focus entrou para mediar essas transações como uma revendedora de energia no mercado livre.

“A Focus aproveitou a oportunidade para viabilizar a revenda de energia”, afirmou Alan Zelazo, sócio-diretor. Dessa forma, a receita da companhia cresceu cinco vezes no ano passado. Ela se tornou o principal player no segmento de energia renovável e uma das cinco maiores revendedoras de energia do país.

A companhia, criada há apenas dois anos e com 25 funcionários, entrou em um segmento dominado por empresas grandes e já bem consolidadas. Para se diferenciar, o diretor diz que a empresa “precisou ser criativa nas soluções e ter um relacionamento próximo com o governo”.

Qualidade e bons preços

Para Irlau Machado Filho, presidente da Notredame Intermédica, a força da companhia está em seu compromisso com a qualidade e com preços acessíveis.

Segundo ele, o segmento de planos de saúde é bastante impactado pela inflação médica, que bateu mais de 20% nos últimos quatro anos. No entanto, com clínicas e hospitais próprios, a empresa consegue reduzir o custo e manter seu produto acessível. Dessa forma, enquanto muitas empresas de planos de saúde perdem clientes, a Notredame Intermédica dobrou de tamanho nos últimos três anos.

A escolha acertada dos itens vendidos, ao lado de preços adequados, foram o grande diferencial da Multilaser, que vende de computadores a churrasqueiras. Para Renato Feder, presidente, “temos muitas novidades, que são esperadas pelo consumidor brasileiro, com preços acessíveis”.

Além disso, Feder também menciona a equipe da companhia como fundamental para seu desempenho. “Temos gente muito boa, um time acima da média”.

A escolha acertada dos produtos comercializados foi citada por Cristiano Cardoso Teixeira, presidente da Klabin, como diferencial para seu crescimento, mesmo durante a crise. “Com muitas embalagens voltadas para alimentação, a empresa manteve sua resiliência durante a crise”, afirmou ele.

O portfólio também é o grande ponto forte da Mahle, fabricante de peças automotivas. “Nosso portfólio está dividido entre produtos para exportação e mercadorias para o mercado automotivo interno. Sem uma exportação forte, não conseguiríamos esse resultado”, afirmou Sergio Pancini de Sá, diretor presidente.

Saindo do sufoco

Um setor que tem sofrido muito com a crise é o de construção civil. Mesmo assim, há oportunidades no futuro, na visão de Eduardo Fischer, presidente da MRV, premiada no segmento de indústria da construção. “Sofremos imensamente na crise, mas ainda há muito potencial no setor, especialmente no segmento de baixa renda”, afirma.

Outra empresa que passou por um inferno astral foi a Usiminas. Premiada no segmento de siderurgia, a companhia comemora bons resultados após chegar perto da falência. “Saímos de um período muito difícil, com risco de falir, e hoje estamos aqui. Isso é fruto do trabalho da nossa equipe”, disse o presidente Sérgio Leite de Andrade. Andrade também lamentou o acidente ocorrido numa usina da companhia em Ipatinga (MG), que deixou 34 feridos.

O investimento em mais transparência e a busca por recursos no mercado foram os fatores que ajudaram a Cedae, companhia de saneamento do Rio de Janeiro, a ter bons resultados num cenário adverso, na visão de seu presidente Jorge Luiz Ferreira Briard. “O cenário para o ano que vem ainda é apertado, mas a empresa conseguirá se destacar novamente”, afirma.

O ano também foi de superação para a Dataprev, estatal responsável pela gestão de dados do governo, que venceu na categoria indústria digital. Para o presidente da companhia, André Leandro Magalhães, a crise é “um momento de oportunidades”. “Em 2017, nós evoluímos na tecnologia e entregamos novos produtos, com mais benefícios para a sociedade. A crise não acabou, mas isso não nos impede de entregar mais”, disse.

Outra empresa que se destacou foi a BR Distribuidora, premiada na categoria atacado. O foco da companhia no último período foi a aproximação com o cliente. “Temos focado na aproximação com o cliente e na otimização de nossa entrega para ser mais competitivos”, disse o presidente Ivan de Sá.

Eleições

Para Alan Zelazo, sócio-diretor da Focus Energia, os anos seguintes irão depender dos escolhidos na eleição. “Se sairmos dos extremos e colocarmos um líder que coloque em prática as reformas necessárias e que mantenha uma taxa de juros adequada, a economia irá voltar a crescer”.

Já Irlau Machado Filho, presidente da Notredame Intermédica, diz que “o país está saindo muito lentamente da crise, mas temos boas perspectivas para o futuro”. Como o negócio de planos de saúde está calcado na geração de emprego, a companhia irá depender da melhora da economia para continuar com seu ritmo acelerado.

Para os anos que vêm, Cristiano Cardoso Teixeira, presidente da Klabin, diz ter uma perspectiva muito boa. “Esperamos a reforma fiscal e a revisão dos gastos públicos. Assim, a tendência de médio e longo prazo para a economia brasileira é boa”, afirmou.

“O ano de 2017 foi desafiador”, afirma Sergio Pancini de Sá, diretor presidente da Mahle, fabricante de peças automotivas, “mas o Brasil é isso, passa por altos e baixos”. Ele acredita que o mercado automotivo deverá crescer em linha com o PIB este ano.

Os anos seguintes dependem do resultado da eleição, diz José Galló, presidente da Renner. Para ele, “se o presidente do Brasil foi um gestor, reformista e com projeto para o Brasil, os próximos anos serão muito bons”. Caso contrário, ele garante que a economia continuará a se reerguer, ainda que mais lentamente. “O Brasil não vai acabar, mas teremos muitos desafios pela frente”, disse.

A Oxiteno também espera que o próximo presidente do país invista em reformas estruturais. “A perspectiva é que, dessa forma, a economia volte a crescer, com investimento em infraestrutura”, disse João Benjamin Parolin, presidente da química e petroquímica.

Nem todas as empresas devem ser impactadas pelas eleições e novo cenário político. Como a Vale está principalmente voltada ao mercado externo, são as movimentações globais que ocupam a cabeça de seus diretores. “Estamos observando a confusão externa, a guerra de tarifas entre os Estados Unidos e a China”, afirmou Fábio Schvartsman, presidente da Vale. “Mas, ao que tudo indica, teremos um 2019 bastante positivo”, disse ele.

A Natura também não se preocupa com os próximos anos, independentemente do resultado das eleições. “Estamos em um setor que prospera em qualquer ambiente. Acreditamos que, com a digitalização da companhia, iremos acelerar nosso crescimento”, afirmou João Paulo Ferreira, CEO.

O plano da Multilaser, vendedora de eletrônicos, não irá mudar, independentemente das incertezas políticas. “Esperamos crescer e apresentar muitos lançamentos de produtos”, afirmou Renato Feder, presidente.