Artigo – Futebol brasileiro: segunda divisão em gestão empresarial

Em minhas aulas e palestras sobre estratégia e empreendedorismo, tenho utilizado dois ótimos livros: Feitas para Durar (Rocco, 1996) e Empresas Feitas para Vencer (Campus, 2002). As obras resumem longas e qualificadas pesquisas de Jim Collins, ex-professor da Universidade de Stanford. Investigam como as empresas são capazes de sustentar posições de liderança e excelência por décadas, com resultados financeiros acima da média.

Na qualidade de torcedor e analista diletante do futebol, comemoro as façanhas do país pentacampeão dentro de campo. Produzimos consecutivas safras de jogadores talentosos e conquistamos importantes títulos de seleções e clubes. O Brasil da bola, contudo, não foi capaz de estabelecer uma vantagem competitiva fora das quatro linhas. A um estrategista da área de negócios parece um absurdo, pois temos um dos maiores mercados consumidores do mundo para produtos derivados do futebol. É o sonho de muitos investidores. No entanto, o torcedor tem progressivamente abandonado os estádios e a televisão, incapaz de compreender regulamentos mutantes e sem sentido.

O recente rebaixamento do Palmeiras para a Segunda Divisão serve de modelo à análise. Traduz o resultado da aplicação prolongada e contrária dos princípios básicos de qualquer manual de administração. Essa vitoriosa e consagrada marca do futebol brasileiro foi vítima do descaso e de graves equívocos de gerenciamento. O episódio constitui-se, no entanto, em rara oportunidade para se mostrar como a gestão profissional pode recuperar tanto a marca quanto a instituição.

Ao traçar um paralelo entre as empresas bem sucedidas dos livros de Collins e o futebol brasileiro, noto que nossa completa falta de organização repousa sobre dois pilares:

1) Carecemos de regulamentação e fiscalização da atividade, o que inviabiliza o crescimento saudável de qualquer indústria;

2) Não existe aqui vestígio de aplicação das melhores práticas gerenciais e estratégicas, de modo que clubes e federações navegam nas águas da aleatoriedade e arbitrariedade. Seria como obrigar o nosso bravo Amyr Klink, competente planejador, a atravessar o Atlântico numa jangada cearense, sem instrumentos adequados e abastecido com um saco de biscoitos e uma garrafa de Ki-Suco.

O processo disciplinado de construção de longo prazo das empresas feitas para vencer passa por três amplos estágios associados a conceitos-chave:

1) pessoas – com liderança de alta qualidade e equipes formadas pelas pessoas certas, 2) pensamentos – centrados nos seus valores e propósitos estratégicos e conceitos simples de transmitir e 3) ações – voltadas para ética empreendedora sem burocracia e utilização de tecnologia específica e bem selecionada.

Esse processo não é instantâneo nem é resultado de formulações mágicas. É produto de análise, reflexão, implementação e avaliação, sucessiva e permanentemente. Poucos clubes e federações têm seguido minimamente as proposições desse receituário. Existe uma distância abissal entre a realidade das diversas empresas estudadas e o esporte brasileiro.

Porém, se pensarmos em termos globais, encontraremos exemplos de rápida adequação e desenvolvimento. Basta rever a transformação que ocorreu na Alemanha, Inglaterra, Itália e Espanha. Há trinta anos, o ambiente não era substancialmente diferente do nosso. Hoje, esses países são as referências mundiais em organização e resultados no futebol.

Aqui mesmo na América Latina, há iniciativas que merecem atenção e estudo. É o caso do futebol mexicano, que implantou recentemente o modelo das franquias americanas de basquete e beisebol. Apesar de não ser 100% aplicável ao Brasil, certamente indica muitas alternativas de reorganização.

Enfim, podemos ao menos afirmar que os escândalos administrativos e a derrocada de grandes clubes têm motivado políticos, investidores, imprensa, atletas, cartolas e torcedores a rediscutir os padrões éticos e organizacionais da gestão do futebol brasileiro. A recente promulgação da MP do futebol, por exemplo, deve produzir importantes mudanças estruturais no esporte. As experiências de Atlético-MG, Atlético-PR, São Caetano e as propostas da nova diretoria do Botafogo-RJ também indicam uma transformação de mentalidade. Existe mesmo alguma luz no fim do túnel dos vestiários.

Eduardo Bom Angelo, presidente da Cigna Previdência e Investimentos, Coordenador do Centro de Empreendedorismo das Faculdades Ibmec/SP e palmeirense.