Artigo: A economia tem salvação?

Não podemos censurar você pela pergunta. Vivemos dias mais do que difíceis. Não há precedentes para os tempos atuais— até mesmo para o Jack, que esteve à frente de uma empresa durante três recessões (1973-75, 1980-82 e 1990-91). Em cada uma delas, em qualquer dia que fosse de fevereiro, mesmo com a economia em queda, ainda era possível contabilizar antecipadamente em alguns pontos percentuais as vendas de abril. Hoje, é como se uma névoa espessa tivesse se estendido sobre o comércio: a visibilidade é praticamente nula. Não é de espantar que os gerentes estejam apavorados com a sobrevivência de suas empresas fazendo das tripas coração para reduzir custos.

Mas então a economia não tem salvação? Claro que sim. Há muitas pessoas inteligentes e dedicadas tratando do assunto. O que realmente ninguém sabe é com que rapidez a economia vai começar a se recuperar, e com que rapidez ela vai se estabilizar a partir do momento em que a recuperação começar. Isso, em nossa opinião, depende da capacidade dos estrategistas de saber lidar com três fatos controversos, porém inexoráveis.

Fato no. 1: De nada adianta se preocupar com os detalhes do pacote de estímulo à economia sem antes de pôr em ordem o sistema.

Os bancos saudáveis são para a economia o que um coração saudável é para qualquer pessoa. O coração nos mantém vivos com o “sangue” do crédito. Neste momento, porém, em que o paciente está tendo um infarto, os estrategistas do governo estão ocupados tentando descobrir quanto devem gastar no terno que o paciente vai usar no ano que vem.

O Programa de alívio para ativos problemáticos e outras iniciativas postas em prática bem cedo parecem ter estabilizado os mercados, mas só isso não basta, por mais intragáveis que tais medidas tenham se tornado para a população já saturada dos pacotes de socorro do governo. A queda dos preços das casas continua a preocupar, e o governo ainda não pôs em prática nenhum programa sério de controle das execuções de hipotecas. É preciso também retirar os ativos tóxicos dos balanços patrimoniais que continuam contaminados por eles. Em 1989, a estratégia de “banco bom/banco ruim” da Resolution Trust Corporation funcionou muito bem, mas o socorro recente ao Citigroup mostrou que outra opção possível seria a garantia dos ativos pelo governo.

Nossa intenção aqui, entretanto, não é nos demorarmos nos detalhes, e sim deixar claro que os estrategistas do governo estarão simplesmente desperdiçando seu capital político discutindo o pacote de estímulo se antes não investirem suas energias no resgate do sistema financeiro.

Fato no. 2: O pacote de estímulo está se transformando em uma enorme barafunda opaca de potencial questionável para criação de empregos.

O pacote passou pela Câmara dos Representantes na semana passada, mas isso não significa que a maior parte das pessoas confie nele ou acredite que ele possa representar o que de melhor o governo pode oferecer. Fazemos coro com aqueles que esperam que o debate no Senado contribua para a transparência e o bom senso do projeto de lei.

Todavia, acreditamos que isso só deva acontecer no momento em que os estrategistas do governo começarem a falar do pacote de estímulo à economia da maneira adequada, especificando o teor de três conjuntos distintos de propostas. O primeiro deles compreende todos os planos destinados a estimular o emprego, e cujos gastos devem remeter a projeções detalhadas do número e do tipo de empregos criados. O segundo conjunto deverá conter todas as propostas de gastos destinados a ajudar as pessoas prejudicadas pelo colapso econômico. O terceiro conjunto deverá conter todas as medidas propostas pelo pacote, já que os políticos lançarão mão delas na hora de distribuir favores e de prestar solidariedade ao partido.

Esse terceiro conjunto, naturalmente, é deplorável, mas política é isso. Seria ingênuo negar sua existência. Contudo, seria pior ainda para os estrategistas do governo continuar a discutir o pacote como se fosse um bloco único de projetos. O pacote vai restituir a confiança tão necessária, portanto o debate em torno dele será muito mais produtivo se levar em conta o que realmente importa: criação de emprego e ajuda a quem o perdeu.

Fato no. 3: O desejo de vingança é tentador, mas não é uma estratégia vitoriosa. A lista de pessoas que poderia ter evitado ou atenuado o desastre econômico é longa. Informações recentes sobre os bilhões em bônus pagos a funcionários da Merrill Lynch serviram apenas para reforçar ainda mais a ideia de que alguém deveria ser responsabilizado por esse desvario do capitalismo.

Contudo, os estrategistas do pacote precisam se dar conta de que hoje somos todos investidores (isto é, nós contribuintes) em empresas às quais o governo está ajudando. Dentro de certos limites, devemos permitir que essas empresas façam o que tiverem de fazer para prosperar em um mundo competitivo de escala global, inclusive recompensando o bom desempenho e cortejando os clientes com liquidações. Caso contrário, nossos investimentos se reduzirão a carcaças sem valor.

Não queremos minimizar o desafio que temos pela frente, e você deixou claro a magnitude dele na maneira como formulou sua pergunta. No entanto, se concordarmos que o sistema bancário deve ter prioridade, se estivermos de acordo em relação ao verdadeiro conteúdo do pacote, e se entendermos o custo autodestrutivo da vingança, encontraremos juntos uma saída.