Aposentado diz que Herbalife lhe custou US$ 30 mil

Miguel Calderón diz que a companhia o enganou para que gastasse milhares de dólares comprando produtos que não pôde vender

Atlanta – Miguel Calderón é um operário da construção aposentado que estudou até a sexta série. Ele diz que um distribuidor da Herbalife o enganou para que desperdiçasse US$ 30.000 da poupança da sua vida em vitaminas para emagrecer.

Ao mesmo tempo, Calderón diz que ele assinou um acordo após ler uma parte muito pequena deste ou dos documentos de marketing que detalhavam as políticas e estrutura de pagamentos da Herbalife.

“Sempre houve uma pequena dúvida na minha mente”, disse Calderón em uma entrevista, falando em espanhol. “Mas como se tem o desejo de trabalhar e progredir, eu segui em frente”.

Calderón, 68, é um de pelo menos 16 latinos na área de Chicago que apresentaram reclamações como consumidores perante o procurador geral de Illinois, dizendo que Herbalife os enganou para que gastassem dezenas de milhares de dólares comprando produtos que não puderam vender.

A Herbalife, vendedora direta que depende de contratados independentes para distribuir seus produtos, disse que ela faz cumprir as regras internas sobre distribuidores, que investiga seriamente todas as reclamações e que dá as boas-vindas “à oportunidade de ajudar as pessoas mencionadas em esta matéria”.

Abrir uma empresa não garante o sucesso. Nem todos os empreendedores trabalham duramente, e os produtos têm altos e baixos de popularidade.

Cerca de metade das pequenas empresas vão à falência nos primeiros cinco anos, conforme a Administração de Pequenas Empresas.

Para os investigadores de Illinois, que podem apresentar cargos criminais ou um processo civil, a questão é se os demandantes foram vítimas de falsas promessas ou se não prosperaram porque não conseguiram seguir o plano de marketing da Herbalife.

Reclamações de Ackman

A Herbalife passou os últimos 19 meses defendendo-se das afirmações do gerente de hedge funds Bill Ackman de que se trata de um esquema ilegal de pirâmide financeira.

Na sua forma mais simples, estes esquemas tomam dinheiro de participantes novos para enriquecer aqueles no topo, independentemente de quaisquer vendas de produtos.

Ackman acusou a Herbalife de prosperar à custa de latinos com frequência não documentados, utilizando produtos como fachada para cobrar taxas ilegais de recrutamento.

Aqueles que sabem pouco de inglês e possuem uma educação básica são suscetíveis a fraudes, disse ele.

Em fevereiro, a Liga de Cidadãos Latino-Americanos Unidos (LULAC), o grupo de defesa de direitos civis de hispânicos mais antigo dos EUA, voou com Calderón a Washington para fazer lobby perante Edith Ramírez, presidente da Comissão Federal de Comércio (FTC).

No mês seguinte, a empresa confirmou que a FTC estava investigando seu negócio. Desde então a LULAC encaminhou algumas das reclamações feitas em Illinois para a FTC.

A Bloomberg News obteve cópias de nove das acusações.

Apresentadas entre dezembro e fevereiro, algumas datam de 2008, e incluem narrações simples, de aproximadamente um parágrafo de extensão, e documentos de apoio, como recibos de pedidos e registros bancários.

Em geral, os pleiteadores dizem que a Herbalife os enganou, defraudando-os de seu dinheiro, e que a empresa deveria ser fechada. Informações pessoais foram editadas.

Calderón e outro ex-distribuidor da Herbalife, chamado Martil Palma, concederam entrevistas, dizendo que eles apresentaram reclamações perante o procurador geral.

Os homens não quiseram fornecer versões não editadas dos documentos, dizendo que temiam pôr em perigo a investigação. César Caballero, o distribuidor da Herbalife de 49 anos que trabalhou com ambos os homens, também concordou em falar publicamente.

Calderón mora em Waukegan, uma cidade de operários a cerca de 64 quilômetros do centro de Chicago. Como costuma acontecer, ele soube da Herbalife por um amigo.

Em 2008, Calderón conheceu Caballero no seu clube de nutrição, uma fachada em que distribuidores da Herbalife entregam amostras, dão conselhos sobre nutrição e emagrecimento e encorajam clientes a pedirem produtos para uso regular ou se tornarem distribuidores.

Durantes três manhãs, disse Calderón, ele tomou amostras de vitaminas, chás herbáceos e preparações de aloé. No terceiro dia, disse ele, Caballero lhe perguntou se ele estava pronto para começar um negócio.

Calderón decidiu abrir seu próprio clube de nutrição.

Conforme as regras da Herbalife, os distribuidores obtêm um desconto de até 50 por cento sobre produtos como o pó de proteína Formula 1, os tabletes para dissolver em bebidas energéticas Liftoff e as pílulas herbáceas Cell-U-Loss.

Vendendo-os ao preço completo de varejo, os distribuidores têm o potencial de dobrarem o dinheiro investido.

Calderón disse que a princípio ele pagou US$ 1.300, a maior parte por pó de proteína, bem como um pacote de amostras e um DVD de marketing. Desde então, ele pagou à Herbalife US$ 7.000 mais US$ 1.500 por mês durante aproximadamente um ano, disse ele.

Ele também fez um curso para aprender a recrutar outras pessoas para o negócio. As poucas pessoas de que ele se aproximou não quiseram escutá-lo, portanto ele se concentrou nas vendas de varejo, disse ele.

Caro demais

À medida que ele investia dinheiro na Herbalife, recipientes de pó de proteína se acumulavam no clube de nutrição, disse Calderón.

Os clientes vinham em números pequenos ou testavam amostras diariamente sem pedir nenhuma para uso doméstico, dizendo que eram caras demais, lembrou-se ele.

Calderón disse que as perdas de US$ 30.000 antes de sair do negócio após cerca de um ano e meio de trabalho incluíram o aluguel e os suprimentos para a modesta loja.

Calderón diz que ele nunca questionou o que lhe era dito e que assinou seu contrato como distribuidor da Herbalife principalmente com base na explicação de Caballero.

“Era difícil entendê-las com atenção sem problemas, portanto eu acreditei no que ele disse”, disse Calderón sobre os documentos, publicados em inglês e espanhol. “Eu li as partes que achei que tivessem mais a ver comigo”.

Palma, o segundo pleiteador que concordou em falar publicamente, disse que ele perdeu US$ 16.000. Palma disse que assistiu a uma reunião de vendas em um hotel de luxo no centro de Chicago, onde pelo menos um dos oradores se gabou de ter voado até o evento em helicóptero.

“Eu pensei: ‘essa gente toda não pode estar errada’”, disse Palma em espanhol. “Eu estava muito impressionado em ver tantas pessoas”.

Em uma entrevista, Caballero disse que Palma e Calderón não conseguiram seguir os métodos de vendas da Herbalife apesar de terem assistido ao curso.

Ele falou principalmente em espanhol, traduzido pelo seu filho adulto, que também vende produtos da Herbalife e dá aulas de ginástica. Caballero disse que ele duvida que Calderón tenha perdido US$ 30.000.

“É impossível”, disse Caballero. “Há duas histórias para tudo”.

Caballero vende produtos da Herbalife há cerca de sete anos e faz parte da Equipe de Milionários da Herbalife, o que significa que sua rede de distribuidores gerou essa cifra em vendas de varejo.

Dentro do seu clube de nutrição em Waukegan, uma televisão de tela grande passa vídeos da Herbalife. Fotos mostram Caballero, sua mulher e seus filhos em viagens da Herbalife a destinos exóticos como o Havaí.

Tipo de evidência

Provar que a Herbalife fez algo errado não será fácil, disse Joel Winston, ex-advogado do FTC que atualmente trabalha na Hudson Cook em Washington.

“Não fica claro que responsabilidade a Herbalife teria pelo que seus distribuidores diriam”, disse ele.

“O assunto realmente se resume ao tipo de evidência que houver além de consumidores individuais que dizem ‘um distribuidor me disse tal e tal coisa’. Eles podem mostrar um padrão? Eles podem mostrar que isso aconteceu rotineiramente?”.

Hoje, o clube de nutrição de Calderón está fechado. Ele deu e vendeu parte da mercadoria restante da Herbalife a centavos por cada dólar pago, e disse que perdeu sua casa.

“Sentimos que isso foi um tipo de fraude que chegou até nós”, disse Calderón.