Após 161 anos, Le Bon Marché mantém símbolo da elegância

No coração do Bairro Latino, em um edifício de fachada modernista, as lojas mais antigas da capital francesa foram fiéis à premissa de "pouco, mas bom"

Paris – Localizada na fronteira entre o distrito 6 e 7 de Paris, a um passo da prestigiada Universidade da Sorbonne e da igreja de Saint-Germain-des-Près, a loja de departamento Le Bon Marché continua sendo ícone da elegância francesa, 161 anos após sua criação.

No coração do Bairro Latino, em um edifício de fachada modernista, as lojas mais antigas da capital francesa foram fiéis à premissa de “pouco, mas bom” desde seu primeiro dia de funcionamento.

Nenhuma das 1.400 marcas que hoje exibem seus produtos neste centro comercial foi selecionada por acaso.

Uma prática ensaiada há mais de 160 anos, quando na agitado Paris de meados do século 19, na qual tudo mudava ou se reinventava, Aristide Boucicaut fez prosperar a tradição nadando contra a corrente, transformando uma barraca de comércio na rua em um loja de departamento onde imperava a variedade e por onde se podia passear sem ser incomodado.

Sua astúcia comercial e sua psicologia do consumo lhe permitiu revolucionar um mercado no qual, a partir daquele momento, os artigos se apresentariam com rótulos que fixavam seu preço ou se ofereceria a possibilidade de mudar ou reembolsar um produto se este “deixava de convir” a seu comprador.

Técnicas que atualmente temos mais que assumidas e parecem indispensáveis, e inclusive banais, mas que em 1852 eram um desafio para o vendedor e uma tentação constante para o cliente.

O fundador de Le Bon Marché, segundo se vanglória essa instituição, instaurou também os primeiros descontos da história, quando lhe ocorreu reduzir o preço da roupa para se desfazer das reservas acumuladas.

A esta prática chamou de “O mês branco de janeiro” e devido ao seu sucesso, se arriscou também a estabelecer um calendário anual onde se sucedessem vendas, publicidade e descontos.


Em 1867, Boucicaut se revelou de novo como o inovador do marketing por excelência, dando a possibilidade a todos os franceses, parisienses ou não, de figurar entre seus clientes, com o envio de 500 mil catálogos com mostras de tecidos e inaugurando assim a venda por correspondência.

A mesma obstinação que possuía Boucicaut para vender o desejo a seus clientes tinha sua mulher Marguerite para melhorar as condições profissionais e pessoais de sua força de trabalho.

“Ela foi a responsável por uma obra social sem precedentes naquela época. Estabeleceu uma jornada de trabalho de 12 horas em vez de 16, aprovou as férias anuais e as permissões de maternidade e instaurou um plano de pensões”, declarou à Agência Efe o diretor artístico de Le Bon Marché, Frédéric Bodenes.

Em 1887, entre 15 mil e 18 mil mulheres, já que a clientela era essencialmente feminina, atravessavam as portas desta catedral do consumo, onde eram convidadas a entrar nas lojas e experimentar a mercadoria disposta deliberadamente sobre numerosas prateleiras.

Em 1984, o gigante do luxo francês LVMH comprou a loja de departamento mais antiga de Paris, acrescentou a seu nome o termo “Rive Gauche”, e tentou continuar a obra iniciada pelo casal Boucicault, que tinha assentado as bases do comércio e do consumo de massas.

Uma renovada gestão empresarial optou em 1988 por uma reestruturação dos 32 mil metros quadrados do local e que era totalmente inédita na França até o momento.

Os diferentes espaços passaram a ser concebidos como se fossem “formas de vida”, das quais surgiu um “cinema da beleza” dedicado aos cosméticos, um “apartamento de moda” para as roupas femininas, com mais de 30 mil produtos pensados para “todas as necessidades”.

A anotação final corre a cargo de uma cenografia na qual, segundo Bodenes, “a magia da composição tem como incumbência maravilhar crianças e adultos com uma encenação que propõe um acidente artístico, totalmente inesperado para o cliente”.