Ameaça na Zona Franca de Manaus irrita rivais brasileiras

Quando uma pequena empresa como a Transire Eletrônicos sacode o mercado de US$ 350 mi de máquinas de cartão, é como se a China estivesse no Brasil

Rio de Janeiro – Atrás dessa porta, prometeu o executivo brasileiro, há uma visão da China.

A fábrica localizada no coração da Amazônia não lembra muito o país hipercompetitivo, com duas linhas de montagem que ocupam metade do espaço disponível. Parecia mais uma versão light da China. Mas isso não tem muita importância.

Quando uma pequena empresa como a Transire Eletrônicos sacode o mercado de US$ 350 milhões de máquinas de cartão de crédito dominado pela VeriFone Systems e pela Ingenico Group, é como se a China estivesse no Brasil.

A jovem empresa se distancia da reputação de preços exagerados e ineficiência do Brasil ao oferecer produtos a um preço muito mais baixo, disse Cristiano Porto, diretor de operações da companhia, que havia mostrado a fábrica.

As rivais não estão contentes.

Os custos da Transire são mais baixos devido a sua localização na Zona Franca de Manaus, única cidade do tipo no Brasil, encravada na floresta.

A empresa, que também tirou proveito do fato de a pior recessão da história do País estar forçando os clientes a procurar terminais mais baratos, intimida a concorrência em um país que o Fórum Econômico Mundial coloca no 128º lugar entre 138 em termos de eficiência do mercado de bens e na 135ª posição em termos de importações como porcentagem do PIB.

Aquelas que estão sendo superadas estão reclamando. A Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) alega que as importações da empresa podem estar excedendo o limite da zona franca. Porto diz que cerca de 75 por cento do material vem da China, fatia menor que o limite máximo.

“Isso aí é desespero de quem está perdendo mercado”, disse Porto. “Nós temos todos os laudos de Suframa que comprovam que, em toda existência da Transire, todos os requerimentos foram atendidos no seu plenitude.”

Brasileiros e chineses

Embora não seja tão chinesa assim, a Transire é parceira da PAX Global Technology, uma empresa de capital aberto em Hong Kong. A Transire vende terminais de cartões a processadoras de pagamentos brasileiras como a Cielo, a Redecard e a PagSeguro em um país onde milhões de pessoas ainda não têm acesso ao sistema bancário formal.

A disponibilidade de operários no polo industrial está ajudando Porto a acelerar a expansão. Recentemente a empresa contratou 40 pessoas em dois dias e precisaria de apenas duas semanas para adicionar 400 funcionários aos cerca de 900 que trabalham na fábrica atualmente se, como espera Porto, for necessário em breve. Em um dia em meados de julho, trabalhadores de uniforme azul-marinho e protetor auricular tiravam peças chinesas de uma correia transportadora que avançava lentamente e as fixavam, usavam pistolas de ar, e testavam os terminais terminados.

A Abinee, a associação que está protestando contra a Transire, informou que solicitou investigação sobre possíveis violações que possam criar uma concorrência desleal. A associação solicitou separadamente que três ministérios intensifiquem a supervisão das regras de produção local aplicadas à fabricação de máquinas de cartão de crédito.

Há muito em jogo para Ingenico, Verifone e suas produtoras locais — todas elas membros da Abinee, ao contrário da Transire. A Ingenico e a Verifone responderam por cerca de dois terços das vendas de terminais em valor total no ano passado, segundo a empresa de inteligência de mercado ABI Research. Suas fábricas estão localizadas em São Paulo e Minas Gerais, estados que dão o benefício de uma localização central, mas que oferecem pouco incentivo fiscal. A Ingenico afirmou que não comenta sobre concorrentes. A Verifone preferiu não comentar.

Vendas crescentes

A Transire espera aumentar as vendas neste ano, duplicando as do ano passado para chegar a 2 milhões, disse Porto. O número de terminais de cartões que as empresas enviaram a todo o País foi de 2,3 milhões em 2016, segundo a pesquisa da ABI. A Ingenico vendeu 800.000 terminais no Brasil no ano passado e 450.000 no primeiro semestre de 2017, segundo Eduardo Cataldi, vice-presidente de finanças da empresa para a América Latina. Darrin Peller, analista de pagamentos do Barclays, estima que a receita da Verifone na América Latina no ano fiscal de 2017 não vai variar muito em relação ao ano passado, quando somou US$ 248 milhões.

“No plano internacional, a empresa acaba de ficar mais competitiva que a PAX e outras fabricantes de terminais inteligentes”, disse Peller, que é um managing director do Barclays, por telefone. “O único ponto é que a PAX começa com uma base muito menor, por isso tem potencial para ganhar participação de mercado, mas em um mercado que possivelmente está encolhendo para o que eles têm para oferecer.”

O hardware legado, como os terminais, está perdendo terreno para os sistemas inteligentes, como a Square e provedores baseados em tablets, como a First Data Corp e a Poynt Corp, que às vezes simplesmente não requerem que o cartão seja passado. A Verifone e a Ingenico também começaram a oferecer sistemas baseados em tablets, disse Peller.

A Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) enviará resposta à Abinee assim que sua investigação estiver concluída, segundo comunicado de sua assessoria de imprensa. A Suframa afirmou que as inspeções de 2017 mostram que a Transire cumpriu toda a legislação.

Exportar as máquinas da Transire é “o próximo passo natural”, disse Porto. O mercado de terminais de cartões na América Latina foi de US$ 553 milhões em 2016, segundo a ABI Research.

Comentários

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  1. Jorge Lima Daou

    Alguém precisa avisar Ingenico e Verifone que, se não vierem para Manaus, vão quebrar – foi o que aconteceu com a Sony, que decidiu montar fábrica em Curitiba, Yamaha, que montou fábrica de motos em SP, e várias outras!
    A ABINEE é péssima conselheira, há 40 anos!