A Warner Bros. cresce em silêncio

Brooks Barnes
© 2016 New York Times News Service

Burbank, Califórnia – Atrás dos muros bege que circundam a Warner Bros., Kevin Tsujihara pensa sobre a noção de percepção x realidade, tema clássico de Hollywood na tela, mas que o estúdio está experimentando agora na vida real.

Tsujihara, executivo-chefe da Warner Bros., está prestes a conseguir um lucro operacional recorde este ano, tendo o cinema como carro-chefe. Recentemente, a Time Warner disse que sua divisão – responsável por Batman, Clint Eastwood, Pernalonga, “Uma Família Perdida no Meio do Nada” e TMZ.com – rendeu 433 milhões de dólares, um aumento de 12 por cento em relação ao ano anterior. Sua parceira corporativa, a HBO, em comparação, com 530 milhões de dólares em lucro, cresceu 2 por cento.

Muitas pessoas ainda consideram a Warner Bros. uma operação conturbada, ideia que Tsujihara acredita estar enraizada na pouca apreciação dos negócios abrangentes do estúdio e no efeito prolongado dos problemas de produção e distribuição de filmes, que já foram superados. “Estamos tendo um ano incrível, mas discreto. A narrativa, em geral, não reflete esse fato”, disse ele.

A Warner Bros. fica à sombra da HBO, queridinha da mídia e de Wall Street. Quando a AT&T concordou em comprar a Time Warner por 85 bilhões de dólares, não faz muito tempo, a Warner Bros. foi basicamente uma nota de rodapé na análise resultante – mesmo que o estúdio, entre outras coisas, tenha serviços de streaming promissores em desenvolvimento, envolvendo Harry Potter e Batman, que poderiam ser supervalorizados pela empresa de telecomunicações. Então, como é que Tsujihara corrigiu essa narrativa?

A maneira mais segura é produzir um grande sucesso e a divisão de filmes da Warner pode ter um deles em “Animais Fantásticos e Onde Habitam”. O filme de 180 milhões de dólares (não incluindo estimativas de 150 milhões de dólares em custos de marketing global) expande o universo de Harry Potter de J.K. Rowling. A autora, que escreveu o roteiro de “Animais Fantásticos”, anunciou recentemente quatro continuações, notícia que deixou os fãs exultantes.

Mais sucessos podem estar por vir. No ano que vem, a Warner Bros. irá lançar “Mulher Maravilha”, “Kong: a Ilha da Caveira”, “Liga da Justiça”, o épico de guerra de Christopher Nolan, “Dunkirk”, e dois filmes animados da Lego. Entre esses gigantes há exemplares de baixo custo da unidade New Line Cinema da Warner, como o filme de terror “Annabelle 2”.

Quando se trata de reformular a Warner como a máquina gigante bem azeitada que acredita ser, Tsujihara também sabe que o estúdio precisa se esforçar mais para contar sua própria história. Os executivos tendem a se entrincheirar por trás dos muros bege, o que permite que outros em Hollywood – especialmente aqueles que deixaram o estúdio em circunstâncias infelizes – falem por eles, às vezes contribuindo para uma cobertura negativa da mídia.

Este ano, por exemplo, alguns jornalistas e blogueiros se deliciaram com as críticas ruins a “Batman vs Superman: A Origem da Justiça” e “Esquadrão Suicida”. Para Tsujihara e outros membros de sua equipe executiva, perdido em meio às críticas está o sucesso financeiro dos filmes: os dois juntos arrecadaram 1,6 bilhão de dólares em todo o mundo.

Some-se a isso o sucesso de bilheteria de “Sully: O Herói do Rio Hudson” e de várias produções com orçamento modesto, habilmente comercializadas pela New Line este ano, incluindo “Um Espião e Meio”, “Quando as Luzes se Apagam” e “Invocação do Mal 2”, e o estúdio está a caminho de conseguir um de seus anos mais rentáveis. Em uma época em que rivais menores como a Paramount Pictures e a Sony Pictures Entertainment passam por momentos difíceis, a Warner Bros. se sente frustrada com o fato de que seu sucesso financeiro não tenha chamado mais atenção. “As pessoas não enxergam nossa consistência”, disse Tsujihara.

Mas o que dizer sobre as críticas ruins aos super-heróis? Os analistas temem que o impacto de um filme não tão bom quanto “A Origem da Justiça” possa ser sentido mais para frente, talvez quando os consumidores começarem a pensar se vale a pena pagar para ver “Liga da Justiça”.

Tsujihara disse estar confiante que as mudanças que fez na gestão (colocar dois executivos, Geoff Johns e Jon Berg, a cargo de filmes de super-heróis, por exemplo) deixarão os fãs mais satisfeitos. Com um pouco de sorte, até mesmo um crítico ou dois podem mudar de opinião. “O que realmente me deixa confiante é que já vi ‘Mulher Maravilha’, e ele é ótimo”, disse Tsujihara.

Anthony DiClemente, analista de mídia da consultoria Nomura, recentemente elevou suas estimativas financeiras do quarto trimestre da Warner Bros, mas observou que a Time Warner não respondeu nenhuma pergunta dos analistas sobre ganhos recentes de seu estúdio e manteve a atenção voltada para os canais a cabo da Turner e a HBO.

A Warner Bros. provavelmente diria que os investidores não estavam vendo sua operação como um todo. Os filmes são os mais chamativos, mas na verdade compõem uma pequena parte do negócio global da Warner.

O estúdio produz cerca de 80 séries de televisão, incluindo “Westworld” para a HBO e “The Big Bang Theory” para a CBS. A Warner tem 10 programas no ar nesta temporada baseados em personagens da DC Comics; eles, sozinhos, geram mais de 1 bilhão de dólares por ano em receitas.

A Warner Bros. também é um dos maiores fabricantes de videogames do mundo, produzindo títulos que incluem “Mortal Kombat” e “Lego Dimensions”. Enquanto a maioria de seus rivais – a Disney em particular – tem dificuldades para desenvolver um negócio de games duradouro, a Warner Bros. Interactive Entertainment é agora grande o suficiente para aguentar o tranco quando outras divisões não vão tão bem, como aconteceu no ano passado, quando filmes da Warner como “Peter Pan” e “O Destino de Júpiter” foram um fiasco.

O estúdio é uma força digital crescente, formando uma nova divisão em junho dedicada à gestão de investimentos em redes on-line como a Machinima (dedicada aos jogos) e a Uninterrupted (atletas profissionais), ao mesmo tempo em que acelera a implantação de serviços no estilo Netflix, dedicados a super-heróis e, talvez, a Harry Potter. “Junto com a AT&T poderemos ir direto ao consumidor ainda mais rápido com marcas como a DC”, disse Tsujihara.

Por fim, ele começou a reforçar a divisão de brinquedos e vestuário do estúdio, contratando uma antiga executiva da Disney, Pam Lifford, para refazer a Warner Bros. Consumer Products. Todos os filmes da série “Animais Fantásticos” serão o destaque do trabalho de Pam, pois uma distribuição de conteúdo consistente é crucial para os consumidores do varejo; além disso, há planos de revitalização em torno de outras marcas da Warner, incluindo os desenhos animados da Looney Tunes.

Tsujihara diz que vê os produtos ao consumidor como “um motor de crescimento real”. Será que essas atitudes ajudarão a Warner a convencer quem está de fora a vê-la mais holisticamente? Ainda não dá para dizer, mas pelo menos o chefe de Tsujihara já percebeu.

Jeffrey L. Bewkes, executivo-chefe da Time Warner, disse por e-mail: “Kevin entende muito bem como o comportamento do consumidor se altera com rapidez e como a empresa está mudando para atender a essas expectativas. O que realmente me impressionou é como ele rompe barreiras e estimula uma maior colaboração entre as empresas, o que nos ajuda a produzir os tipos certos de conteúdo, para as plataformas certas, na hora certa”.