A volta do bruxo

Em seu primeiro "grande livro" desde 1998, Tom Peters volta a exibir seu discurso inflamado. Desta vez, ele propõe nada menos que a revolução total -- a reinvenção completa da sua empresa

É época de fazer feno na fazenda de Tom Peters. São 1 400 acres de terra na área rural de West Tinmouth, no estado de Vermont. Enquanto os colonos vão empilhando os fardos de feno em um dia claro de verão, o calor do sol se derrama pela janela do estúdio despojado que o autor mantém no campo, iluminando as prateleiras repletas de exemplares de livros dele traduzidos para vários idiomas, do russo ao japonês. Há uma brisa suave no ar. O perfume das flores silvestres se espalha levado pelo vento. Ouve-se o canto dos pássaros. Deve haver, com certeza, um riacho rumorejando em algum lugar. Em suma, é um dia de idílio perfeito na vida perfeita e maravilhosa de um dos mais conhecidos pensadores da ciência da administração de todo o mundo.

“Que sujeito estúpido!”, diz Peters, num rompante de fúria. O sujeito em questão é Peter Olson, executivo-chefe da Random House, cujo estilo maquiavélico de administração foi retratado recentemente na revista do New York Times. “É incrível como alguém pode sentir tanto prazer em mandar os outros para a rua!” Menos de dez minutos depois desse primeiro acesso de ira, Peters se enfurece novamente ao comentar o desapontamento que lhe causou a série de três livros por ele lançada há alguns anos. Não foram as vendas que o aborreceram — segundo ele, cerca de 350 000 exemplares –, e sim o modo como a série foi recebida. “Para mim, foi um fracasso completo”, diz. “O impacto foi nulo.” Essa falta de impacto para quem é, entre outras coisas, co-autor de um dos livros de negócios mais populares já escritos (In Search of Excellence, traduzido no Brasil como Vencendo a Crise) seria, sem sombra de dúvida, uma experiência devastadora. Para um homem cujas palavras sempre têm o peso da urgência — até mesmo em uma solicitação corriqueira como “passe o sal, por favor” — um episódio como esse é mais do que suficiente para despertar-lhe a ira.

Hoje, aos 60 anos, multimilionário, ninguém poderia acusar Peters de nada se ele resolvesse apenas boiar preguiçosamente no lago natural de sua propriedade e passar o resto de seus dias ao lado de ovelhas, cabras e alpacas à sombra das duas montanhas magníficas que se avistam da janela do escritório. Na verdade, Tom Peters não tem muito do que se queixar, mas não há como fugir do seu estilo: não é preciso muito para deixá-lo irado. Esse é o seu jeito, e é assim que ele resolve tudo o que aparece pela frente. Ele é agressivo até mesmo na maneira como dita as primeiras minutas de seus livros. “Estou por aqui com a vida”, diz. “Aliás, acredito que só quem se sente assim pode mudar o mundo, mesmo que seja só um pouco.”

Embora aja como se não se importasse com nada, mudar o mundo é exatamente o que ele pretende com seu 11o livro, Re-imagine! Business Excellence in a Disruptive Age (algo como: Re-imagine! Excelência nos negócios numa era de transformações). É o primeiro “grande livro” do autor desde O Círculo da Inovação (Harbra, 1998). Ao longo de 352 páginas, Peters discorre livremente sobre qualquer assunto que tenha relação com os negócios, seja do ponto de vista de liderança, marcas ou tecnologia. Parte de sua pregação já é conhecida: idéias como a marca chamada “voc” e a transformação total do mundo pela tecnologia da informação não são totalmente novas. Mas agora há o arrojo na bela edição do livro e o desejo do autor de avaliar a organização de um novo ângulo. Esse livro, que aparece num momento em que muitos dos princípios da Nova Economia associados ao autor foram totalmente descartados, chega também em um momento crítico para Tom Peters. Será que suas idéias continuam válidas em uma nova era muito mais cínica?

Uma das respostas a isso é o epitáfio que o autor vislumbra para si:

Thomas J. Peters

1942 – ?

Homem de ação

“Em outras palavras”, prossegue, “não terei sido uma pessoa que se acomodou à margem dos acontecimentos, vendo o mundo passar enquanto mudanças profundas alteravam as premissas básicas dos últimos séculos (para não dizer milênios).” Aí temos, sem dúvida, um puro estilo Tom Peters, no que esse pensador tem de melhor: a marca inconfundível da grandiosidade e do entusiasmo que sempre o caracterizaram; além, é claro, dos malditos parênteses e pontos de exclamação dos quais ele nunca abre mão! Quer o consideremos um pensador brilhante que insiste em nos empurrar em direção ao futuro ou um sujeito que deu sorte com o primeiro livro e resolveu levar suas idéias até o limite do absurdo, o epitáfio é verdadeiro: Tom Peters foi, e é, um homem de ação.

Pessoalmente, o autor é mais divertido, menos politicamente correto, mais irreverente e simpático do que deixa transparecer seu jeito de escrever e de se dirigir ao público. Ele ainda se irrita facilmente, mas é possível até flagrá-lo numa sonora gargalhada quando trazemos à tona alguns de seus exageros. De moletom verde de manga curta, bermudas sujas e botas de trekking, o autor, de óculos de aro metálico ligeiramente oblíquo, parece mais alguém que passou a tarde arrancando o mato do quintal com o cortador de grama do que um sujeito que, na vida, se destacou como “o mais influente pensador do mundo dos negócios de todos os tempos”, conforme o rótulo que parte da imprensa lhe atribuiu, e o segundo intelectual mais importante da área de negócios de todo o mundo (depois de Michael Porter), segundo levantamento da consultoria Accenture. O melhor de Tom Peters é que, embora suas palavras sejam de um idealista, não deixam de ser reais.

E ele não está aí para admitir derrotas. Mesmo que o belo futuro que promete acabe sumindo no espelho retrovisor, como uma cidade que jamais tivemos a oportunidade de visitar, Peters combate tenazmente seus críticos — entusiasmado, diz ele, de estar novamente na oposição. “E daí que 98% das empresas ponto-com faliram? Nem todas faliram”, diz. “Creio que a Nova Economia é real. A mudança tecnológica está apenas na infância.” Embora admita que o tipo de livre empresa por ele defendido tenha se tornado hoje uma surpresa desagradável, e não aquela opção libertadora imaginada, a idéia de que o indivíduo, e só ele, é responsável pelo sucesso de sua carreira continua mais importante do que nunca. “A cada duas semanas, ou menos, empresas como a IBM ou a GE, ou outra qualquer, exportam mais de 100 000 dólares — e não 30 000 — em empregos”, observa. “Portanto, a marca chamada você é algo literalmente darwiniano — o cada um por si tornou-se imperativo. Não dá para ser indiferente. Só há uma solução, e pouco importa se chegaremos lá por livre e espontânea vontade ou não.”

Muito bem, mas será que as pessoas se disporão a ler um tratado interessante e motivacional se a única razão pela qual são hoje agentes livres é porque foram demitidas? Esse é o desafio do novo livro de Peters, lançado nos Estados Unidos em 15 de outubro e ainda sem tradução para o português. É decididamente uma obra da Nova Economia, com uma crença inabalável de que as mudanças da década passada transformaram para sempre o mundo do trabalho e um otimismo a toda prova de que as coisas podem e vão melhorar. Os que acusam Peters de falta de pertinência e rigor continuarão a atacá-lo. O deslumbramento das obras anteriores não é tão onipresente, mas ainda está lá, no uso extremado de maiúsculas e pontos de exclamação e na pregação de que agir é muito melhor do que ficar pensando na ação. No mundo de Tom Peters, vale mais quem tenta dar um salto de anjo e acaba mergulhando de barriga do que quem salta timidamente do trampolim com a mão no nariz. Todos os capítulos começam sempre com uma advertência “contundente” de que “não estamos preparados” para mudanças em grande escala — seja para a “fantástica” aventura tecnológica da informação que breve virá ou para o fato de que o design será num futuro muito próximo a nova “morada da alma”. Segue-se a visão de Peters sobre o tema, seja ele um novo enfoque à educação ou o funcionamento de um departamento financeiro cujos funcionários seriam todos poetas e músicos.

Em contraste com esse tipo de visão mais abrangente, os esforços mais recentes de Peters resumem-se a assuntos mais limitados. Em 1993, por exemplo, o autor publicou The Professional Service Firm 50, um livro que tinha por objetivo instilar ânimo nos contadores e advogados do mundo todo. Na verdade, o plano original do autor consistia na publicação de uma série de livros enxutos, mas a editora (Dorling Kindersley) insistiu em iniciar o projeto com um primeiro livro de idéias “solenes”, que seria seguido por outros 24 títulos. Esse é o motivo por que o novo livro de Peters saiu tão grande e volumoso. Seu propósito é unir os vários elementos do pensamento do autor, tais como o poder econômico das mulheres — algo profundamente desprezado –, a que Peters dedica dois capítulos apaixonados, além do fato fundamental de que sem uma interação humana decente nenhuma de sua idéias, por mais inspiradora que seja, jamais funcionará. O pensamento do autor pode ser sintetizado na seguinte frase: temos de pôr literalmente abaixo todas as nossas organizações empresariais e reimaginá-las, que é exatamente o que Donald Rumsfeld vem tentando fazer com as Forças Armadas americanas, para que sejam capazes de responder aos imperativos tecnológicos e sociais de nossa época. Caso contrário, diz Peters, será o nosso fim. É isso, pura e simplesmente.

Embora a obra de Tom Peters tenha inúmeras contradições, a maior parte das quais ele reconhece sem dificuldade, o fio que une todo o seu pensamento atende pelo nome de paixão. Diferentemente de muitos de seus concorrentes, cujas idéias se mostram mais abstratas quando o assunto é administração, para ele tudo se resume a uma única coisa: gente. “Gosto muito de pegar idéias as mais diversas e ver como funcionam no plano prático”, diz. “Esse pessoal que tanto fala de estratégia — Porter, [Clayton] Christensen — tem idéias maravilhosas, mas deixa de lado aquela parte extremamente tediosa chamada gente.”

Todos os líderes, sobretudo os mais ousados, que prosperam no “paradoxo” e no “caos”, escreve Peters, são mais do que vitais em um mundo pós-11 de setembro, em que a organização virtual passou do jargão terminológico dos consultores para uma realidade calcada em um bando de terroristas da Al-Qaeda armados de estiletes. Isso é exatamente o oposto do que pensa o arqui-rival de Peters, Jim Collins, cujo livro mais recente, Empresas Feitas para Vencer (Editora Campus, 2002), acertou em cheio no tom próprio de uma era avessa ao risco. “É um exercício de tranqüilidade”, diz Peters, ao criticar asperamente os “líderes estóicos, serenos e pacíficos” de Collins. “Você não gostaria que um líder muito ponderado o guiasse até a terra prometida? Para mim, isso não passa de uma grande bobagem, porque hoje vivemos uma época caótica.”

A característica mais inovadora e empolgante desse novo livro é o design. Cansado dos projetos da Knopf, Peters passou a impressão para a Dorling Kindersley, unidade londrina da Pearson, mais conhecida pelos atraentes livros de viagens e jardinagem. “Nossa idéia era que o meio fosse tão interessante quanto a mensagem. Não dá para falar sobre coisas espetaculares na era do tecnicolor sem recorrer ao apelo visual”, diz.

Quem passa um tempo ao lado de Peters compreende sem dificuldade sua visão tecnicolor das coisas. A casa de campo que o autor divide com a esposa, a designer Susan Sargent, é uma alegre explosão cacofônica de cores. A sensibilidade de Susan se manifesta nas sensações que nos acometem diante das combinações de cores as mais improváveis. No lar dos Peters, tons verde-amarelados se mesclam a um laranja cor de sangue que, por sua vez, se funde em um azul cor do ovo de tordo. Esse mesmo choque de matizes surpreendentes marca sua estréia no mundo dos negócios no novo livro de Tom Peters. Na verdade, foi sua esposa quem primeiro sugeriu a ele trabalhar com a Dorling Kindersley.

O mais interessante é que esse livro, cujo autor é sinônimo de “agente de transformação”, parece evitar a idéia de transformação pessoal. As organizações, diz Peters, só mudarão se forem capazes de descobrir aqueles indivíduos à margem da empresa, pouco notados, que estão sempre em busca de algo novo. Essas pessoas devem ser estimuladas. “DESCUBRA ONDE ESTÃO ESSES SUJEITOS MALUCOS! CONTRATE-OS! TORNE-OS SÓCIOS DE SUA EMPRESA! DEIXE QUE ELES O AJUDEM A FAZER A REVOLUÇÃO!”, escreve Peters. Contudo, diz agora o autor, não se pode mudar as pessoas. “Não, não e não! Nunca!”, diz, cada vez mais enfático. Não deixa de ser uma afirmação estranha vinda de alguém que profere cerca de 70 palestras por ano — cobrando até 65 000 dólares. “Não se pode mudar as pessoas. É preciso muita sorte, aproveitar o momento certo, só assim elas prestarão atenção. Mas a verdade é que aquilo que elas traziam dentro de si quando entraram pela porta é o que levarão quando saírem.”

A ironia disso tudo é que Tom Peters hoje anda à busca da própria transformação. Ele acaba de voltar de uma visita a Canyon Ranch — um spa que, na verdade, é um culto à transformação pessoal. Durante o tempo que passou ali, fez uma reavaliação completa da vida, e o veredicto foi tão vexatório quanto o que costuma apresentar às empresas: mudança JÁ.

Mudar sua atitude compulsiva em relação ao trabalho, porém, é outra história. Nem é preciso dizer que seu estado de revolta permanente não faz parte da lista de atividades antiestresse de Canyon Ranch. “A presença contínua de doses volumosas de adrenalina em circulação constante pelo sistema nervoso não é nada saudável”, reconhece. “Preciso relaxar.” O autor agora acha tempo para exercícios de respiração profunda, que realiza com o auxílio do computador, e planeja trocar os polichinelos que faz antes de cada apresentação por exercícios de controle respiratório. Mas ele continua a provocar acessos de fúria em seus assistentes ao mudar no último minuto tudo o que fora planejado. “A verdade tem o seu momento, geralmente entre 2 e 3 da manh”, diz. Esse momento se materializa quando ele se vê diante de 3 000 rostos de donos de lojas de ferragens diversas ou de sócios da Deloitte & Touche, por exemplo. “Percebo então que tenho de mudar tudo o que eu havia preparado.”

Quando lhe pergunto o que faria se tivesse de viver a vida como uma vírgula, e não um ponto de exclamação — se pudesse começar tudo outra vez –, ele tem um momento de reflexão. “Não tenho a mínima idéia”, diz. “Sempre invejei Franklin Roosevelt e sua coleção de selos. Churchill pintava. Sinceramente, não sei o que faria.” Portanto, a missão continua: descubra as pessoas especiais. Tenha prazer no trabalho. Aja. E fique louco da vida.

UMA AMOSTRA DOS TEMAS MAIS IMPORTANTES DO NOVO LIVRO DE TOM PETERS:
1 – DESTRUA PARA CRIAR

Esqueça aquela história de Feitas para Durar. Toda e qualquer empresa, diz
Peters, está fadada ao fracasso. Melhor destruir completamente sua empresa
de dentro para fora e reerguê-la de maneira inovadora, ousada e criativa
do que travar antigas batalhas com idéias ultrapassadas para depois cair
no esquecimento.

2 – A FORÇA DAS MULHERES

Elas são a força mais importante de nossa economia. São elas que gastam
e que ganham a maior parte do dinheiro. Delas partem as decisões financeiras
mais importantes. E mesmo assim nós as desprezamos, nunca planejamos as
coisas pensando nelas, jamais as consultamos. Nós as ignoramos pura e simplesmente.
A Nova Economia obedece a princípios a que as mulheres estão mais habituadas
colaboração, em vez de comando e controle, só para citar um exemplo
e, a menos que os homens se dêem conta disso e mudem de enfoque, estarão
fadados ao fracasso.

3 – O MUNDO É UM NÓ DE RELAÇÕES

Quem toma decisões precisa comunicar-se de maneira honesta e transparente,
do contrário nada funcionará. Jamais chegaremos a parte alguma sem o fator
humano. Por isso, é melhor abraçar a política e pôr fim à burocracia. Só
então poderemos nos ocupar daquelas metas que efetivamente mudarão a empresa.

4 – A FORÇA DO SONHO

Empresas bem-sucedidas, como a Harley-Davidson e a Starbucks, só deram certo
porque vendem um estilo de vida, ou uma imagem, e não simplesmente um produto.
Empresas de sucesso devem oferecer uma experiência cintilante para se
distinguir em um contexto em que a maior parte da concorrência já oferece
um produto decente.

5 – SEJA ESTRANHO

A única maneira de mudar de verdade o local de trabalho, diz Peters, consiste
em convocar os tipos mais anticonvencionais para que se unam à sua empresa
e à sua causa. Descubra onde estão esses malucos, banque os projetos com
os quais eles vêm sonhando há tempos; depois, faça com que o ajudem a levar
adiante as idéias revolucionárias de mudança que há tempos você persegue.

6 – O DESIGN, A FRONTEIRA FINAL

No mundo de Tom Peters, o design é tão importante que deveria fazer parte
da lista de prioridades das reuniões de todos os departamentos (juntamente
com a contratação de um profissional da área). O design, tal como o estilo
de vida, é um dos poucos fatores que realmente fazem a diferença; portanto,
não prosperarão as empresas que ignorarem o poder do design elegante e funcional.