A vitória da simplicidade

Para estar entre os grandes, o São Caetano apostou no básico: líder e equipe entrosados em campo e administração bem planejada do lado de fora

Embora tenha apenas 12 anos de vida, o time do São Caetano já está comemorando a chegada à maioridade. Seu maior motivo para fazer festa é ter confirmado presença entre os grandes e centenários times brasileiros. A equipe da pequena cidade do ABC paulista (são apenas 150 mil habitantes) enfrentou um segundo tempo durante o qual toda a estratégia adotada no primeiro foi colocada à prova. A rapidez com que subiu, chegando à elite do Campeonato Paulista e à Copa Libertadores da América, e a bela campanha no Brasileirão deste ano são uma façanha jamais registrada por muitas equipes tradicionais. É claro que a trajetória precoce de sucesso é resultado de um futebol destemido e da liderança enérgica do técnico Jair Picerni (veja quadro na pág. 71), mas é também fruto de uma tática administrativa afinada com os tempos modernos.

Desde sua fundação, a Associação Desportiva São Caetano já havia definido o conceito de focar suas metas. “Naquele momento, o projeto era estar na primeira divisão em dez anos”, lembra Nairo Ferreira de Souza, atual presidente do clube, economista formado pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, à época diretor de futebol. O objetivo foi alcançado em 2000, ainda que com um ano de atraso. Foi quando o time se tornou conhecido nacionalmente, entrando desabusado nas finais da Copa João Havelange e conquistando o coração das torcidas país afora. Uma mãozinha do juiz e outra do poder público sempre são bem-vindas por clubes de futebol. Com o São Caetano não foi diferente, e a ajuda da prefeitura também pode ser apontada como decisiva para o seu rápido sucesso. Desde sua fundação, o time usa, sem custos, o estádio municipal, além de ter permissão para comercializar os espaços lá existentes para publicidade. O prefeito Luiz Tortorello, que também é presidente de honra do clube, aliás, foi quem teve a idéia de fundar um time que levasse o nome da cidade, artifício que, na opinião dele, seduziria os moradores a torcer pela equipe. Outra idéia bem-sucedida do prefeito foi oferecer descontos nos ingressos para os aposentados da cidade, o que passou a atrair uma ruidosa (na medida do possível) torcida, hoje conhecida como “Bengala Azul”.

Uma conquista de cada vez
Para chegar ao topo, no entanto, a administração do clube traçou objetivos menores. Um deles, por exemplo, foi transformar em lei a máxima econômica “quem ganha dez só gasta nove”. Resultado: hoje a equipe não deve nada ao INSS, fato raro no mundo do futebol. A estratégia do passo-a-passo começou a dar resultado já no primeiro ano de vida do São Caetano. Em 1990, o time disputou a terceira divisão do Campeonato Paulista e subiu para a segunda, da qual foi campeão no ano seguinte. Em 1992, chegou à então chamada divisão intermediária e foi vice-campeão, o que lhe deu acesso à recém-criada série
A-2. Em 1995, gol contra: o time cai para a A-3, onde ficaria até ser novamente campeão, em 1998, e voltar à segundona. Durante todo esse tempo, as diferentes equipes foram formadas por jogadores veteranos, famosos ou que nunca haviam alcançado o estrelato, e jovens talentos. É um princípio ao qual o São Caetano se mantém fiel até hoje.

Em 2000, depois de muitos tornozelos quebrados, brigas de torcida, impedimentos justos e injustos, e quilômetros sem fim pelas estradas de São Paulo, o São Caetano foi campeão da série A-2 e ganhou o direito de ingressar neste ano na aristocracia do torneio estadual. O que veio a seguir costuma acontecer com quem chega a lugares privilegiados a que não pertencia. A simpatia irrestrita de todas as torcidas deu lugar a um certo ceticismo. A semente da desconfiança surgiu após a direção do time ter aceitado, sem luta, a decisão por uma terceira partida na final da Copa João Havelange, o campeonato nacional. Para não entrar em choque com os grandes, diante da ameaça do Clube dos 13 de impedir-lhe o ingresso na Libertadores da América, a equipe aceitou o veredicto e o risco iminente de ser vice. “Eu era um lambari no meio de tubarões”, resume o presidente do clube. Depois, alguns sofríveis empates em seu próprio estádio e derrotas no exterior. Imprensa especializada e torcedores apontavam a perda da força ofensiva como o principal obstáculo à repetição das grandes exibições.

O segredo é o ponto de equilíbrio
Em público, isso parecia não abalar o técnico Picerni. Ele repetia que era uma questão de reencontrar o ponto de equilíbrio. Eis o seu segredo como líder: confiança — na própria capacidade e na da equipe. E o São Caetano reagiu. “Quando o assunto é motivação, eu e minha comissão somos quase perfeitos”, afirma o técnico. Naquele momento, o principal objetivo da equipe era estar entre os primeiros colocados do Campeonato Paulista. O pequeno gigante quase atingiu plenamente o objetivo. Ficou em quinto, mas a desconfiança do público foi vencida. O capítulo seguinte dessa história, todo mundo conhece. Líder disparado no campeonato brasileiro de 2001, o time, que já fez mais de 100 jogos sob o comando de Picerni, mantém o fôlego e a média de dois gols por partida. No final de novembro, foi eleito um dos 10 melhores do mundo pela TV americana CNN. Se depender da estratégia ofensiva do técnico, da administração bem planejada da diretoria e da extrema confiança do time na própria competência, as goleadas ainda vão longe.

LIDERANÇA OFENSIVA

Tarde chuvosa de novembro. É dia de treino tático no estádio Anacleto Campanella, quando titulares e reservas, em ritmo de partida, simulam situações ideais de jogo. Na quase totalidade do tempo, só metade do campo é utilizada. O técnico Jair Picerni faz assim com a intenção de não deixar a bola voltar. Se um titular faz um passe defeituoso o bastante para permitir o contra-ataque, ele apita e manda repetir a jogada, sempre explicando como a coisa deve ser feita. Não é raro ouvir sua voz de comando contrariada: “Isso não é passe que se faça. Volta aqui”. Ter sucesso no ataque é quase uma obsessão para o técnico. “Em uma semana, dedico um dia de treinamento à defesa e quatro ao ataque”, diz Picerni. Para o veterano meia-atacante Aílton, essa filosofia de trabalho é animadora. “Aqui você tem liberdade para trabalhar. Não tememos atacar e tomar gols”, diz. “Brilhamos porque cada um sabe que a fama individual vai surgir se o grupo inteiro confirmar sua competência”, acredita. Trata-se, portanto, da famosa união do grupo? “Pode apostar que sim. Em matéria de querer, esse é o melhor grupo que eu já conheci”, confirma Picerni. A união do time, manifesta na ausência de brigas entre jogadores que disputam posições, é reforçada também por multas aplicadas sobre os atletas. Atrasos, entradas maldosas ou mesmo um simples bate-boca são penalizados. É tudo decidido em assembléia pelos próprios jogadores. O dinheiro vai para uma caixinha e é usado, entre outras coisas, para a compra de cestas básicas ou brinquedos para instituições de caridade. Outra hipótese para a integração que a equipe do São Caetano mostra em campo, e fora dele, é sua folha de pagamento. Oficialmente de R$ 400 mil, equivale em alguns times ao salário de dois ou três jogadores apenas. Para acreditar na modesta folha de pagamento do time, basta dar uma espiada no estacionamento do estádio em dia de treino. Das dezenas de automóveis, só há cinco importados. E nem nessas horas a união do grupo arrefece: muitos jogadores vão para casa juntos, de carona.