A onda vegana chega aos sapatos

A quantidade cada vez maior de veganos vem transformando e inspirando fabricantes, que produzem roupas e sapatos com tecidos ecologicamente sustentáveis

Reportagem publicada originalmente em EXAME Hoje, app disponível na App Store e no Google Play.

Já faz algum tempo que os produtos veganos não se restringem mais aos alimentos sem nenhum traço de origem animal. Os veganos mais tradicionais, vamos dizer assim, querem animais fora de sua dieta, de seu guarda-roupas… e até de sua carteira. Nesta semana, o governo britânico provocou a ira de veganos e vegetarianos ao admitir que a nova nota de cinco libras — anunciada como mais resistente, segura e melhor para o meio-ambiente — contém traços de gordura animal. Indignados, veganos e vegetarianos disseram que não vão aceitar as notas e criaram uma petição online exigindo o fim do uso de gordura animal na moeda. O documento criado há três dias já reúne mais de 100.000 assinaturas.

Uma pesquisa do instituto de pesquisa Ipsos MORI mostrou que o número de veganos cresceu 360% no Reino Unido na última década, representando hoje cerca de 1% da população. Em levantamento do IBOPE de 2012, 15,2 milhões de brasileiros, ou 8% da população, se declararam vegetarianos — não há dados confiáveis da população vegana no Brasil (vegetarianos, em linhas gerais, não comem carne; veganos não comem produtos de origem animal).

A quantidade cada vez maior de vegetarianos e veganos vem transformando e inspirando fabricantes, que produzem roupas, sapatos e outros acessórios com tecidos ecologicamente sustentáveis. É um mercado de consumidores apaixonados, e dispostos a abrir a carteira. Um dos principais exemplos é a Insecta Shoes, do Rio Grande do Sul, que produz roupas, sapatos e outros acessórios com tecidos e outros materiais ecologicamente sustentáveis (as solas são feitas com a boa e velha borracha).

A Insecta produz o que eles mesmos conceituam como “ecosexy”: calçados e acessórios produzidos a partir de matéria-prima 100% vegana, com cores e estampas variadas. A empresa lançou seu site em 2014 e, desde então, abriu duas lojas físicas – uma em Porto Alegre, no bairro Cidade Baixa, e outra em São Paulo, na região de Pinheiros.

De acordo com Barbara Mattivy, sócio-fundadora da marca, a primeira unidade foi aberta com investimento de 30.000 reais, mas apenas para alocar o estoque. “Mesmo assim, os clientes começaram a nos procurar pessoalmente. Além disso, eles queriam experimentar os sapatos antes de comprar”, conta.

A grife nasceu da união de outras duas marcas. A MAG-P Shoes, que usava o material excedente da indústria calçadista para fabricar calçados ecológicos, e o brechó virtual Urban Vintagers, criado por Barbara e que cedeu peças estampadas para a criação dos primeiros sapatos, no final de 2013. Na ocasião, 20 pares foram fabricados para a venda no site do brechó. Em um único dia, tudo foi comercializado.

Com o sucesso, mais 100 pares, com investimento de cerca de 20.000 reais, foram desenvolvidos. Deu certo mais uma vez, e Barbara e sua antiga sócia resolveram dedicar os esforços à nova empresa em tempo integral. “Ambas tinham preocupações ecológicas. Resolvemos juntar um pouco de cada para criar um conceito mais inovador de produto ecológico, artesanal e exclusivo”, afirma Mattivy.

A marca pode ser encontrada ainda em revendedores no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Zurique, Nova York e Los Angeles, mas pelo menos 60% das vendas ainda são provenientes do comércio digital. Apesar da origem gaúcha, o estado de São Paulo é o principal comprador, com 25 a 30% da receita. “Os paulistas procuram mais pelos produtos veganos, e o poder aquisitivo maior também ajuda a alavancar as vendas”, ressalta Barbara. Em média, cada par de sapato vegano custa 270 reais, nos modelos masculino e feminino.

Veio para ficar?

A Insecta é parte de um fenômeno que reúne pelo menos outras dez marcas brasileiras, como a carioca Svetlana e a paulistana King 55. É a última novidade num esforço da indústria para ser menos agressiva, e mais sustentável. Grandes marcas mundo afora, como a Armani, a Calvin Klein e a Forever 21 pararam de usar peles de animais. Marcas de cosméticos como Natura, Boticário e Contém 1g não testam seus produtos em animais.

Os produtos vegano não formam, evidentemente, um mercado de massa, tampouco permitem uma operação em larga escala. No fechamento de 2016, a Insecta deve atingir um faturamento de 1,7 milhão de reais, um crescimento de 70% em relação ao ano passado. Pelo menos 300 pares são vendidos a cada mês. Barbara revela que o aporte inicial, na época do lançamento, foi o necessário para colocar o site de pé e implantar um sistema de vendas on-line.

O principal desafio está em encontrar fornecedores. Atualmente, não há uma rede de fornecedores que ofereçam tecidos e outros insumos livres de proteína animal. A solução veio da experiência de Barbara, que antes de criar a Insecta, administrava um brechó on-line. “Os brechós têm uma grande variedade de roupas e tecidos, por isso temos uma equipe que literalmente se joga no meio das pilhas de roupas para procurar novas estampas”, revela. Um vestido recolhido em uma dessas lojas tem material suficiente para fabricar até seis pares de sapato.

Além disso, recentemente a empresa investiu na utilização de garrafas pet para a fabricação de novas peças. “Uma empresa de Novo Hamburgo faz a separação e transforma o plástico em tecido”, diz Barbara. A empresa conta com o aumento da conscientização ambiental e crescimento do mercado voltado para veganos e vegetarianos para o surgimento de novas soluções.

A ideia é desenvolver produtos em parcerias com outras empresas ecologicamente responsáveis. Nessas colaborações, uma linha de mochilas que reaproveita o material de cintos de segurança e de guarda-chuvas foi lançada em 2015. Recentemente, a Insecta lançou uma parceria com a designer Flavia Aranha para a criação de novos sapatos. Os tingimentos naturais usam chá preto, acácia negra e catuaba. Pode parecer pura excentricidade, mas é um caminho sem volta.

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