A marca dos gurus de Abilio Diniz na gestão do Pão de Açúcar

Veja como as teorias de Raj Sisodia e Jim Collins permeiam o modo como os negócios da maior varejista do Brasil são tocados

São Paulo – Um é da Índia, outro é dos Estados Unidos. Mas Raj Sisodia e Jim Collins compartilham mais do que o status de gurus no mundo dos negócios. Ambos propõem sugestões para transformar uma empresa comum em uma companhia com valores e bons resultados, bem quista pelos acionistas mas também por legiões de consumidores. Para além disso, os livros escritos por esses  dois autores também estão na cabeceira de Abilio Diniz, o nome mais conhecido por trás do Grupo Pão de Açúcar, líder do varejo brasileiro. 

Vamos ao que ensinam. Collins é consultor de empresários de peso, como o brasileiro Jorge Paulo Lemann, da AB Inbev, e autor de best sellers como “Empresas feitas para vencer” e “Como as gigantes caem”. Das páginas destes livros, pulam características que, na opinião do guru, fariam algumas empresas manter um crescimento contínuo, passando incólumes por tormentas financeiras e momentos de caos na economia. 

Segundo Jim, muitas empresas são consideradas boas. Mas pouquíssimas são taxadas como excelentes. Ele advoga que a transição de uma categoria para outra requer a existência de uma forte cultura corporativa, hábito de reflexão por parte dos gestores, além de muito foco. Antes de pensar em si mesmo, o líder deve colocar a companhia e as pessoas em primeiro lugar. Para ele, os melhores CEOs combinariam humildade pessoal e profissional. E isso viria antes de currículos estrelados ou da adoção de tecnologias de ponta na empresa. 

Uma das suas analogias mais famosas para explicar a importância do comprometimento com um crescimento duradouro remonta a história de exploradores que competiam para chegar ao pólo sul, em 1911. Roald Amundsen estabeleceu uma meta de percorrer 32 quilômetros por dia, cumpridos com disciplina pela sua equipe. Robert Scott incentivou que os seus apressassem o passo para que pudessem chegar primeiro. No fim, a expedição de Amundsen foi pioneira em atingir o objetivo. A de Scott morreu no meio do caminho. 

Com paixão por escaladas, o ex-professor de Stanford caiu no gosto de Abilio Diniz, também obcecado pelos esportes com suas corridas de longa distância. Em 2010, 11 executivos seniores do Pão de Açúcar participaram de um workshop de dois dias com Collins no centro de pesquisas comandado pelo especialista em Colorado, nos Estados Unidos. 

Na época, um dos maiores conselhos de Jim foi que a empresa se certificasse que contava com as pessoas certas nos cargos-chave. O Pão de Açúcar levou a tarefa a sério. Depois de uma profunda reavaliação, uma verdadeira dança das cadeiras foi colocada em prática. O objetivo? Valorizar os valores e a personalidade dos executivos de alto escalão, realocando-os em áreas nas quais pudessem execer mais do que suas habilidades técnicas.


As crenças do guru americano também iriam criar raízes em camadas mais baixas da pirâmide hierárquica: ainda em 2010, Collins veio ao Brasil dar palestra para 400 funcionários do Pão de Açúcar. Suas teorias passaram a reger a promoção de todos os cargos de gerência da companhia. 

Em entrevista à revista da consultora internacional em gestão HSM, Abilio reconheceu que após a consultoria do americano, valores a que ele dava importância por convicções pessoais passaram a fazer parte do DNA do Grupo Pão de Açúcar.

Com afeto

Descoberto por Abilio Diniz há menos tempo e indicado pelo próprio Jim Collins, o guru indiano Raj Sisodia é sempre lembrado pelo executivo, inclusive nas redes sociais. Autor do livro “Os segredos das empresas mais queridas”, Raj prega que para uma empresa ser bem sucedida e admirada, ela deve ter um propósito maior, que perpassa a preocupação com os lucros. 

Com o slogan “Lugar de gente feliz” e propagandas que reforçam conceitos como saúde e qualidade de vida ao invés de ofertas imperdíveis, o Pão de Açúcar, aparentemente, se preocupa em seguir esse caminho. Em entrevistas, Abilio  já reconheceu que a empresa persegue a meta de ser “do bem”. Prova disso seria sua preocupação em organizar maratonas, promover programas em comunidades e trabalhar com programas de reciclagem e educação ambiental. 

Em setembro do ano passado, Raj também veio ao Brasil para falar com os executivos do Pão de Açúcar. Mais tarde, acabou convidando Abilio para ser um dos principais palestrantes do 4º Congresso Anual do Capitalismo Consciente. O evento aconteceu no último mês de maio, em Boston. 

Na visão de Claudio Felisoni, presidente do Programa de Varejo da Fundação Instituto de Administração (Provar), essa preocupação mais humana já pode ser classificada como uma tendência no setor. Isso porque diferentemente de uma indústria, que pode vender um parque fabril, máquinas e patentes caso vá a falência, as redes varejistas ficam com ativos mais baratos se perderem tudo: os produtos. Por isso, um de seus principais trunfos seria a boa relação travada com o consumidor, baseada na venda de mercadorias, mas também na percepção de que estariam preocupadas com o bem estar dos clientes. 

“Hoje o que diferencia uma empresa da outra é exatamente o fator humano. A tecnologia tem sido barateada. O principal ativo são os indivíduos”, disse. “O Pão de Açúcar caminha nessa direção. Em seu processo de expansão, o Magazine Luiza também fez isso”, finaliza.