A Kroton mira o nicho e a massa no ensino básico

A compra da Somos mostra que o maior grupo de ensino do planeta tem uma estratégia de mão dupla para crescer

São Paulo – O grupo de ensino Kroton é uma máquina de fazer aquisições. Foram mais de 20 em sua caminhada para se transformar na maior empresa de educação do planeta. A lógica que predominou por uma década de crescimento alucinante era mais ou menos essa: comprar redes em mercados estratégicos, implementar os processos da Kroton, melhorar as margens, partir para a próxima.

A escalada parou, como se sabe, quando o Cade, o conselho de defesa da concorrência, vetou ano passado a compra da Estácio, o segundo maior grupo de ensino do país. Desde então, a Kroton voltou as atenções para o mercado de educação básica. Para crescer no mercado de escolas, a empresa continuou comprando, mas mudou a estratégia. Se antes a ordem era escala, escala e escala, agora a Kroton adotou uma via de mão dupla.

Isso ficou claro na manhã desta segunda-feira, quando a Kroton anunciou a compra da Somos Educação, dona do sistema de ensino Anglo e de editoras de livros didáticos como a Ática, por 4,5 bilhões de reais. O anúncio fez as ações da Somos subirem 49% até as 17h.

Há duas semanas, a Kroton havia anunciado sua primeira compra no ensino básico: o Centro Educacional Leonardo da Vinci, em Vitória (ES), o qual atua no setor de alta renda. O valor do negócio não foi divulgado, mas no mercado estima-se que tenha ficado em cerca de 120 milhões de reais. À época, Rodrigo Galindo, presidente da Kroton, disse que o objetivo da empresa é adquirir escolas de prestígio Brasil afora e, com a mesma marca e metodologia, abrir novas unidades em regiões próximas. Cada escola comprada ganharia cerca de cinco novas unidades numa mesma região – a Kroton avalia que há espaço para 13 aquisições pelo país. Cada uma dessas regiões manteria sua própria marca e metodologia. Ou seja, sai a escala, entra o sob medida. Sai a classe BC e entra a AB.

Com a Somos, a Kroton mostra que, em paralelo com o crescimento região a região, vai apostar também na escala no ensino básico. Além de fornecer material didático e sistemas de ensino, a Somos também administra marcas que oferecem cursos no chamado contra-turno do horário escolar tradicional, como os de idiomas. E aí não entram as diferenças regionais: curso de idiomas é igual do Rio Grande do Sul ao Amapá.

“O negócio surpreendeu o mercado, que estava esperando aquisições menores por parte da Kroton. Mas foi uma surpresa positiva, porque a Kroton escolheu justamente uma das maiores empresas desse segmento, que tem marcas fortes não só em escolas mas em livros didáticos, material de apoio para o sistema público de ensino. É um ativo que estava barato na bolsa”, diz Felipe Silveira, analista da corretora Coinvalores. “O segmento de educação básica, que ainda é muito fragmentado no país, está passando mesmo por um momento de consolidação, com diversos grandes players de olho em escolas para comprar.”

A aquisição da Somos é o primeiro grande negócio da Kroton após o Cade barrar a aquisição da rede de universidades Estácio, em junho do ano passado. “Desde esse revés no Cade, o discurso da Kroton era o de que a empresa focaria no crescimento orgânico. Mesmo a compra do Leonardo se encaixava nesse tipo de estratégia, porque não há espaço no segmento premium do ensino básico para tantos negócios assim”, diz Eduardo Guimarães, especialista em ações da consultoria de investimentos Levante. “Mas essa transação com a Somos lembra o velho estilo da Kroton, agressivo em aquisições. É uma volta desse DNA. E parece natural que siga nesse caminho, já que tem bastante dinheiro em caixa.”

A aquisição da Estácio estava estimada em 5,5 bilhões de reais. A Kroton vai pagar 4,6 bilhões de reais pela Somos, sendo 4,1 bilhões de reais à vista, uma quantia quase 60% acima do valor de mercado da empresa. O grupo ainda terá que desembolsar um montante extra para comprar as ações detidas pelos minoritários da Somos em uma OPA (Oferta Pública de Aquisição), segundo as regras do mercado de capitais brasileiro.

Somando com a quantia a ser paga aos minoritários, o valor do negócio sobe para 6,6 bilhões de reais. Desse montante, 5,5 bilhões de reais serão captados no mercado, liberando caixa para que a Kroton continue fazendo aquisições menores em educação básica. No final de 2017, a companhia tinha 1,7 bilhão de reais (na teoria, mesmo depois da compra da Somos sobra caixa para novas aquisições).

Como a Somos tinha um volume de negociações pequeno – enquanto a gestora Tarpon Investimentos possuía uma fatia de 74,8% na empresa e o GIC, fundo soberano de Singapura, controlava outros 18,5%, somente cerca de 6% das ações da companhia estavam nas mãos de minoritários –, a expectativa dos especialistas é de que a Kroton feche o capital da sua nova subsidiária, deslistando-a da B3, a bolsa de valores brasileira.

O passo seguinte da nova gestão da Somos, segundo o modelo utilizado pela Kroton nas suas aquisições, é fazer uma forte reforma financeira na casa nova, enxugando despesas e melhorando a margem de lucro da companhia comprada. Em 2017, a margem Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) da Somos foi de 30%. Os resultados da sua nova controladora em aumentar tal percentual podem justificar para os seus investidores, no médio e no longo prazo, o preço considerado salgado dessa compra. Levando em conta o histórico da Kroton nesse tipo de transação, os acionistas da empresa parecem confiantes no sucesso: no meio da tarde desta segunda-feira, a ação do grupo de ensino subia 5,11% – ou mais de 1 bilhão de reais.

A Kroton mira o nicho e a massa no ensino básico

A compra da Somos Educação mostra que o maior grupo de ensino do planeta tem uma estratégia de mão dupla pra crescer no mercado de educação básica

O grupo de ensino Kroton é uma máquina de fazer aquisições. Foram mais de 20 em sua caminhada para se transformar na maior empresa de educação do planeta. A lógica que predominou por uma década de crescimento alucinante era mais ou menos essa: comprar redes em mercados estratégicos, implementar os processos da Kroton, melhorar as margens, partir para a próxima.

A escalada parou, como se sabe, quando o Cade, o conselho de defesa da concorrência, vetou ano passado a compra da Estácio, o segundo maior grupo de ensino do país. Desde então, a Kroton voltou as atenções para o mercado de educação básica. Para crescer no mercado de escolas, a empresa continuou comprando, mas mudou a estratégia. Se antes a ordem era escala, escala e escala, agora a Kroton adotou uma via de mão dupla.

Isso ficou claro na manhã desta segunda-feira, quando a Kroton anunciou a compra da Somos Educação, dona do sistema de ensino Anglo e de editoras de livros didáticos como a Ática, por 4,5 bilhões de reais. O anúncio fez as ações da Somos subirem 49% até as 17h.

Há duas semanas, a Kroton havia anunciado sua primeira compra no ensino básico: o Centro Educacional Leonardo da Vinci, em Vitória (ES), o qual atua no setor de alta renda. O valor do negócio não foi divulgado, mas no mercado estima-se que tenha ficado em cerca de 120 milhões de reais. À época, Rodrigo Galindo, presidente da Kroton, disse que o objetivo da empresa é adquirir escolas de prestígio Brasil afora e, com a mesma marca e metodologia, abrir novas unidades em regiões próximas. Cada escola comprada ganharia cerca de cinco novas unidades numa mesma região – a Kroton avalia que há espaço para 13 aquisições pelo país. Cada uma dessas regiões manteria sua própria marca e metodologia. Ou seja, sai a escala, entra o sob medida. Sai a classe BC e entra a AB.

Com a Somos, a Kroton mostra que, em paralelo com o crescimento região a região, vai apostar também na escala no ensino básico. Além de fornecer material didático e sistemas de ensino, a Somos também administra marcas que oferecem cursos no chamado contra-turno do horário escolar tradicional, como os de idiomas. E aí não entram as diferenças regionais: curso de idiomas é igual do Rio Grande do Sul ao Amapá.

“O negócio surpreendeu o mercado, que estava esperando aquisições menores por parte da Kroton. Mas foi uma surpresa positiva, porque a Kroton escolheu justamente uma das maiores empresas desse segmento, que tem marcas fortes não só em escolas mas em livros didáticos, material de apoio para o sistema público de ensino. É um ativo que estava barato na bolsa”, diz Felipe Silveira, analista da corretora Coinvalores. “O segmento de educação básica, que ainda é muito fragmentado no país, está passando mesmo por um momento de consolidação, com diversos grandes players de olho em escolas para comprar.”

A aquisição da Somos é o primeiro grande negócio da Kroton após o Cade barrar a aquisição da rede de universidades Estácio, em junho do ano passado. “Desde esse revés no Cade, o discurso da Kroton era o de que a empresa focaria no crescimento orgânico. Mesmo a compra do Leonardo se encaixava nesse tipo de estratégia, porque não há espaço no segmento premium do ensino básico para tantos negócios assim”, diz Eduardo Guimarães, especialista em ações da consultoria de investimentos Levante. “Mas essa transação com a Somos lembra o velho estilo da Kroton, agressivo em aquisições. É uma volta desse DNA. E parece natural que siga nesse caminho, já que tem bastante dinheiro em caixa.”

A aquisição da Estácio estava estimada em 5,5 bilhões de reais. A Kroton vai pagar 4,6 bilhões de reais pela Somos, sendo 4,1 bilhões de reais à vista, uma quantia quase 60% acima do valor de mercado da empresa. O grupo ainda terá que desembolsar um montante extra para comprar as ações detidas pelos minoritários da Somos em uma OPA (Oferta Pública de Aquisição), segundo as regras do mercado de capitais brasileiro.

Somando com a quantia a ser paga aos minoritários, o valor do negócio sobe para 6,6 bilhões de reais. Desse montante, 5,5 bilhões de reais serão captados no mercado, liberando caixa para que a Kroton continue fazendo aquisições menores em educação básica. No final de 2017, a companhia tinha 1,7 bilhão de reais (na teoria, mesmo depois da compra da Somos sobra caixa para novas aquisições).

Como a Somos tinha um volume de negociações pequeno – enquanto a gestora Tarpon Investimentos possuía uma fatia de 74,8% na empresa e o GIC, fundo soberano de Singapura, controlava outros 18,5%, somente cerca de 6% das ações da companhia estavam nas mãos de minoritários –, a expectativa dos especialistas é de que a Kroton feche o capital da sua nova subsidiária, deslistando-a da B3, a bolsa de valores brasileira.

O passo seguinte da nova gestão da Somos, segundo o modelo utilizado pela Kroton nas suas aquisições, é fazer uma forte reforma financeira na casa nova, enxugando despesas e melhorando a margem de lucro da companhia comprada. Em 2017, a margem Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) da Somos foi de 30%. Os resultados da sua nova controladora em aumentar tal percentual podem justificar para os seus investidores, no médio e no longo prazo, o preço considerado salgado dessa compra. Levando em conta o histórico da Kroton nesse tipo de transação, os acionistas da empresa parecem confiantes no sucesso: no meio da tarde desta segunda-feira, a ação do grupo de ensino subia 5,11% – ou mais de 1 bilhão de reais.