A euforia das construtoras endividadas

Letícia Toledo

Endividadas e com o aumento de distratos, 2017 será, certamente, um ano difícil para as construtoras, mas na bolsa as ações de empresas como Rossi e PDG vivem um momento de verdadeira euforia. Os papéis da Rossi subiram 281% e as da PDG, 193% só este ano. Com isso, a Rossi ganhou 127 milhões de reais em valor de mercado e a PDG, 112,9 milhões de reais.

“A movimentação vem muito em função de especulação, não há notícia que sustente tamanha alta dos papéis”, diz Luis Gustavo Pereira, estrategista da corretora Guide. O momento é de alta para todo o setor: as ações da Helbor subiram 88%, as da Gafisa 41% e as da Cyrela — a única do setor no Ibovespa — 30%.

O principal argumento para a alta é o corte da taxa Selic, atualmente em 13%, e a sinalização do Banco Central de que o corte de juros deve ser agressivo. Com o corte de juros, vem a expectativa de um retorno na demanda por imóveis. Além disso, a Selic mais baixa ajuda as companhias endividadas — justamente o caso da PDG e da Rossi.

A PDG tem um patrimônio negativo de 838 milhões de reais. No fim do terceiro trimestre, a companhia tinha dívida total de 5,4 bilhões de reais. A PDG é o verdadeiro símbolo da ascensão e queda do mercado imobiliário no país. Em 2010 e 2011, a PDG chegou a ser a maior construtora de capital aberto do país com lançamentos entre 7 e 9 bilhões de reais. Hoje, a empresa vive à beira da recuperação judicial. Alguns analistas e credores acreditam que o pedido de recuperação é inevitável diante da situação da empresa.

“Não há como saber se isso acontecerá. O mercado está esperando o balanço da empresa, que vem no fim de fevereiro, para entender se o pedido de recuperação é necessário“, diz Roberto Indech, analista-chefe da corretora Rico.

A recuperação judicial também é aventada no mercado como solução para a Rossi, mas a família Rossi parece ter outros planos para a empresa. Após 15 anos de gestão independente, a família voltou ao comando da empresa neste ano para repactuar uma dívida de 2 bilhões de reais. João Paulo Franco Rossi Cuppoloni, filho do fundador da incorporadora, João Rossi Cuppoloni, assumiu a presidência para negociar com os bancos credores — Bradesco, Banco do Brasil e Caixa Econômica. A companhia não lança nada há mais de dois anos e não consegue gerar caixa por conta dos distratos. De janeiro a setembro a companhia teve vendas de 68 milhões de reais enquanto os distratos somaram 500 milhões de reais.

Além da PDG e da Rossi, outras companhias do setor tentam se reerguer. Em setembro a incorporadora Viver entrou com pedido de recuperação judicial com dívidas que somam mais de 1 bilhão de reais. Na segunda-feira 13 a companhia apresentou 17 planos de recuperação judicial no valor total de 1,2 bilhão de reais que estima completar até 2019. A Tecnisa fez um aumento de capital de 124,69 milhões de reais, em agosto, no qual até mesmo a concorrente Cyrela entrou como acionista. Em novembro foi a vez da Helbor concluir um aumento de capital de 119,9 milhões de reais.

Uma notícia na segunda-feira, 6, ajudou ainda mais a alta das ações. O Governo Federal anunciou a ampliação do programa Minha Casa Minha Vida para famílias com renda de até 9.000 reais — o limite anterior era de 6.500 reais. O Ministério das Cidades estabeleceu como meta para 2017 a contratação de 610.000 novas unidades e elevou também o limite das faixas do programa para quem tem renda mais baixa. Na faixa 1,5 o limite passou de 2.350 para 2.600 reais. Na faixa 2 subiu de 3.600 para 4.000 reais. Há ainda a expectativa de que o governo eleve o teto de imóveis que podem ser financiados com recursos do fundo de garantia do trabalhador dos 800.000 ou 950.000 — dependendo do estado — para 1,5 milhão de reais.

Apesar da alta, o valor de mercado das construtoras ainda está muito distante dos tempos de fartura. A PDG, por exemplo, valia 12 bilhões de reais em 2010. Hoje são 171 milhões. A Rossi, que hoje tem valor de mercado de mercado de 172,5 milhões de reais, valia 4,8 bilhões de reais em 2010. “É importante lembrar que a variação percentual chama atenção, mas o valor nominal é degradado e está muito baixo”, diz Pereira, da Guide. Para voltar ao patamar dos bons anos, não há especulação que resolva.