A estratégia da construtora da Odebrecht para não se endividar

CNO, que recebeu grau de investimento da Fitch Ratings, reestrutura operações para manter baixo nível de endividamento

São Paulo – A Construtora Norberto Odebrecht (CNO), do Grupo Odebrecht, recebeu nesta semana o grau de investimento da Fitch Ratings. É a segunda agência de classificação de risco a elevar a nota da empresa – a primeira foi a Moody’s há sete meses. Para a CNO, isso só foi possível devido à reestruturação financeira adotada há alguns anos – e que culminou num baixo nível de dívida.

“A Fitch reconheceu a qualidade do crédito da empresa”, afirma Jayme Gomes da Fonseca Júnior, diretor financeiro da Odebrecht Engenharia e Construção, à qual a CNO se reporta. Segundo o executivo, a prioridade, agora, é manter o nível de endividamento sob controle – e abaixo do permitido pelo conselho de administração.

O board da CNO permite uma relação dívida líquida/ebitda de até 1,5 vez. “Hoje, essa relação é de 0,96 vez, e temos um compromisso de não nos endividar muito além disso”, diz Fonseca.

Reestruturação

Desde 2007, a CNO vem adotando uma série de medidas para controlar suas dívidas. A holding da Odebrecht costumava, até anos atrás, usar o caixa da CNO como garantia para empréstimos e investimentos de outras empresas do grupo. Agora, a prioridade é trazer parceiros para os projetos que também aportem capital e liberem o caixa da CNO.


Além disso, o grupo começou a utilizar outros modelos de gestão financeira, como o project finance – no qual o financiamento de um projeto é dimensionado e pago pelas receitas que gerará quando entrar em operação. É o caso, por exemplo, da Odebrecht Óleo e Gás. “No project finance, você só precisa aportar de 20% a 30% de capital, financiando o restante”, diz Fonseca.

A CNO conta, ainda, com uma linha de crédito stand by de 500 milhões de dólares, com vencimento em 2013. Essa linha foi contratada com um pool de oito bancos: Santander, Banco do Brasil, BNP Paribas, Calyon, Banco Espírito Santo, Banco Caixa Geral, HSBC e Societé Generale.

Corte de custos

Em junho deste ano, a CNO contava com 1,4 bilhão de dólares em caixa, ante 1,9 bilhão em dezembro do ano passado. A redução do caixa é outro ponto da reestruturação financeira da construtora. Ao contrário do que se pode pensar, nem sempre é bom ter muito dinheiro no caixa. “O custo de arbitragem pode ficar negativo”, afirma o executivo, referindo à diferença de custos para manter o dinheiro aplicado em títulos de curto prazo e o custo dos recursos que a empresa poderia captar no mercado.

Por isso, a empresa também busca um nível menor de caixa. “Um patamar confortável seria 1 bilhão de dólares”, diz. E, para isso, a linha de crédito stand by pode ser estratégica. “Podemos ter 500 milhões de dólares em caixa, e o restante sacado da linha.”


Com notas de investimento conferidas por duas das mais importantes agências de risco do mundo, a CNO entraria facilmente no radar dos investidores. Isso abre uma oportunidade para lançar papéis e captar recursos baratos. Mas, segundo Fonseca, não há planos de grandes emissões neste resto de ano. “Pode haver alguma rolagem de dívida, mas a Odebrecht não pretende voltar ao mercado em 2010”, diz.

Peso corporativo

Apetite para papéis de empresas brasileiras existe, segundo Fonseca. O grupo sentiu o interesse dos estrangeiros em setembro, quando lançou 500 milhões de dólares em notas perpétuas pela Odebrecht Finance Ltd (OFL), o braço financeiro da CNO. “O Brasil está na moda, e infraestrutura também”, diz.

Além dos asiáticos, que estão cada vez mais presentes nas captações, a surpresa ficou por conta dos investidores corporativos americanos e europeus – ou seja, empresas comprando papéis de dívida de outra empresa. “Eles representaram um terço da demanda”, afirma Fonseca.

É um sinal de que, diante dos problemas econômicos dessas regiões, o Brasil segue como uma boa aposta. Com a proximidade da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016 – nas quais a CNO pretende participar construindo estádios e outras obras de infraestrutura – as perspectivas brasileiras são atraentes para os estrangeiros. E manter as contas em dia é a estratégia da CNO para estimular o mercado.