A crise da Saraiva é culpa do “mundo moderno”?

Com dívida milionária, maior rede de livrarias do país pediu recuperação judicial. Para sair das cordas, não basta torcer para o mercado editorial melhorar

Em seu pedido de recuperação judicial, protocolado nesta sexta-feira, a Livraria Saraiva traz uma reflexão sobre “o sentido que a vida e os valores vêm tomando no mundo moderno”. O documento traz, também, frases de grandes escritores sobre a importâncias dos livros, como a de Monteiro Lobato: “um país se faz de homens e livros”. A tragédia da maior rede de livrarias do país, afinal, se deve a conjunturas internas ou a uma sociedade que trocou os livros pelo Facebook?

O pedido da Saraiva vem um mês depois de sua principal concorrente, a Livraria Cultura, também entrar com pedido de recuperação judicial. No início de outubro, a Cultura já havia anunciado o fechamento de todas as lojas da Fnac, marca controlada por ela no país. No pedido, a Cultura também cita a crise do mercado editorial no país, que encolheu, segundo a empresa, 40% desde 2014.

Em seu pedido de recuperação judicial, a Saraiva afirma que “o setor de varejo, incluindo a indústria de comércio e edição de livros, sofreu com suscetíveis desacelerações econômicas, as quais levaram a uma diminuição nos gastos do consumidor, resultando, consequentemente, em um declínio no volume de vendas”.

Entre 2000 e 2017, afirma a Saraiva, o preço médio dos livros caiu 8%, enquanto a inflação subiu em torno de 50%. A Saraiva e outras editoras são defensora de um projeto de lei chamado de “Lei do Preço Fixo”, que defende um preço mínimo de venda ao consumidor final.

A empresa também afirma que o segmento de CDs e DVDs, que chegou a ser o segundo mais vendido na rede, sofre com a concorrência do streaming e hoje responde por menos de 10% da receita. Culpa ainda a Copa do Mundo e a greve dos caminhoneiros para um 2018 de vendas fracas. E afirma ter sido prejudicada por atrasos do Grupo Somos Educação desde o final de 2015.

O mercado editorial vem de fato encolhendo. De acordo com a pesquisa Painel das Vendas de Livros no Brasil, foram vendidos 354 milhões de livros em 2017, ante 383 milhões em 2016. A queda foi, portanto, de 7,43%, com uma queda também no faturamento, de 1,95% (5,17 bilhões de reais em 2017 ante 5,26 bilhões de reais em 2016).

Mas decisões internas das companhias, segundo executivos do setor, são tão responsáveis pela derrocada quanto a conjuntura. As duas empresas adotaram estratégias tidas como excessivamente agressivas. A Cultura, por exemplo, aceitou assumir a operação brasileira da Fnac de olho num pagamento de 130 milhões de reais da matriz francesa. Mas o novo ativo trouxe uma série de esqueletos no armário, que levaram a dívida com fornecedores a passar de 17 milhões de reais em 2017 para 92 milhões este ano. Ano passado, a Cultura teve prejuízo de 77 milhões de reais.

Nos primeiros nove meses deste ano a receita da Saraiva encolheu 1,6%, para 1,33 bilhão de reais, e a margem Ebitda caiu de -0,7% para – 4,4%. O prejuízo passou de 32 milhões de reais nos primeiros nove meses do ano passado para 100 milhões de reais.

Em 2008 a Saraiva deu o passo mais agressivo de sua história recente ao comprar a concorrente Siciliano, então com 56 lojas. A compra fez a receita da Livraria Saraiva pular de 490 milhões para 830 milhões de reais. O braço editorial faturou mais 352 milhões de reais. Em 2018 o negócio de livrarias e o e-commerce faturaram 1,9 bilhão de reais. Ou seja: faturamento tem, o difícil é ganhar dinheiro com as vendas.

A empresa passou a enfrentar dificuldades em 2013, causadas pela combinação de resultados em queda com dívida em alta. Em 2015, foi forçada a vender seu braço editorial para a Somos Educação, usando os 725 milhões de reais que recebeu para melhorar sua situação financeira. Ou seja: vendeu seu negócio mais estável para ficar com o mais complicado.

Em 2016 a empresa entrou na mira do investidor ativista coreano Mu Hak You, que tentou, mas não conseguiu, chacoalhar a gestão ainda a cargo da família Saraiva — ele criticava, por exemplo, a distribuição de dividendos mesmo com a empresa em crise. O investidor acabou deixando a empresa naquele mesmo ano.

Livrarias como a Martins Fontes e as redes Leitura, Livrarias Curitiba, Travessa e Vila estão conseguindo passar um pouco mais tranquilamente pela atual crise. Constantes atrasos no pagamento a editoras fizeram com que as duas maiores redes do país ficassem sem crédito justamente no momento mais importante do ano: semanas antes do natal e da compra de material escolar para o ano seguinte.

Em assembleia realizada na semana retrasada, no Sindicato Nacional de Editores de Livros, Saraiva e Cultura foram cobrados a oferecer garantias e novas condições às editoras. O Sindicato, em nota, afirmou que o pagamento antecipado virou uma condição para manter o fornecimento.

Nesta sexta-feira, em vez de se concentrar no maior dia de promoções do ano, a Black Friday, a Saraiva está às voltas com a recuperação judicial. Se perder também o Natal, fica difícil achar culpados apenas da porta da empresa para fora.

A crise da Saraiva é culpa do “mundo moderno”?

Com dívidas de 674 milhões de reais, maior rede de livrarias do Brasil pediu recuperação judicial nesta sexta-feira. Para sair das cordas, não basta torcer para o mercado editorial melhorar

Em seu pedido de recuperação judicial, protocolado nesta sexta-feira, a Livraria Saraiva traz uma reflexão sobre “o sentido que a vida e os valores vêm tomando no mundo moderno”. O documento traz, também, frases de grandes escritores sobre a importâncias dos livros, como a de Monteiro Lobato: “um país se faz de homens e livros”. A tragédia da maior rede de livrarias do país, afinal, se deve a conjunturas internas ou a uma sociedade que trocou os livros pelo Facebook?

O pedido da Saraiva vem um mês depois de sua principal concorrente, a Livraria Cultura, também entrar com pedido de recuperação judicial. No início de outubro, a Cultura já havia anunciado o fechamento de todas as lojas da Fnac, marca controlada por ela no país. No pedido, a Cultura também cita a crise do mercado editorial no país, que encolheu, segundo a empresa, 40% desde 2014.

Em seu pedido de recuperação judicial, a Saraiva afirma que “o setor de varejo, incluindo a indústria de comércio e edição de livros, sofreu com suscetíveis desacelerações econômicas, as quais levaram a uma diminuição nos gastos do consumidor, resultando, consequentemente, em um declínio no volume de vendas”.

Entre 2000 e 2017, afirma a Saraiva, o preço médio dos livros caiu 8%, enquanto a inflação subiu em torno de 50%. A Saraiva e outras editoras são defensora de um projeto de lei chamado de “Lei do Preço Fixo”, que defende um preço mínimo de venda ao consumidor final.

A empresa também afirma que o segmento de CDs e DVDs, que chegou a ser o segundo mais vendido na rede, sofre com a concorrência do streaming e hoje responde por menos de 10% da receita. Culpa ainda a Copa do Mundo e a greve dos caminhoneiros para um 2018 de vendas fracas. E afirma ter sido prejudicada por atrasos do Grupo Somos Educação desde o final de 2015.

O mercado editorial vem de fato encolhendo. De acordo com a pesquisa Painel das Vendas de Livros no Brasil, foram vendidos 354 milhões de livros em 2017, ante 383 milhões em 2016. A queda foi, portanto, de 7,43%, com uma queda também no faturamento, de 1,95% (5,17 bilhões de reais em 2017 ante 5,26 bilhões de reais em 2016).

Mas decisões internas das companhias, segundo executivos do setor, são tão responsáveis pela derrocada quanto a conjuntura. As duas empresas adotaram estratégias tidas como excessivamente agressivas. A Cultura, por exemplo, aceitou assumir a operação brasileira da Fnac de olho num pagamento de 130 milhões de reais da matriz francesa. Mas o novo ativo trouxe uma série de esqueletos no armário, que levaram a dívida com fornecedores a passar de 17 milhões de reais em 2017 para 92 milhões este ano. Ano passado, a Cultura teve prejuízo de 77 milhões de reais.

Nos primeiros nove meses deste ano a receita da Saraiva encolheu 1,6%, para 1,33 bilhão de reais, e a margem Ebitda caiu de -0,7% para – 4,4%. O prejuízo passou de 32 milhões de reais nos primeiros nove meses do ano passado para 100 milhões de reais.

Em 2008 a Saraiva deu o passo mais agressivo de sua história recente ao comprar a concorrente Siciliano, então com 56 lojas. A compra fez a receita da Livraria Saraiva pular de 490 milhões para 830 milhões de reais. O braço editorial faturou mais 352 milhões de reais. Em 2018 o negócio de livrarias e o e-commerce faturaram 1,9 bilhão de reais. Ou seja: faturamento tem, o difícil é ganhar dinheiro com as vendas.

A empresa passou a enfrentar dificuldades em 2013, causadas pela combinação de resultados em queda com dívida em alta. Em 2015, foi forçada a vender seu braço editorial para a Somos Educação, usando os 725 milhões de reais que recebeu para melhorar sua situação financeira. Ou seja: vendeu seu negócio mais estável para ficar com o mais complicado.

Em 2016 a empresa entrou na mira do investidor ativista coreano Mu Hak You, que tentou, mas não conseguiu, chacoalhar a gestão ainda a cargo da família Saraiva — ele criticava, por exemplo, a distribuição de dividendos mesmo com a empresa em crise. O investidor acabou deixando a empresa naquele mesmo ano.

Livrarias como a Martins Fontes e as redes Leitura, Livrarias Curitiba, Travessa e Vila estão conseguindo passar um pouco mais tranquilamente pela atual crise. Constantes atrasos no pagamento a editoras fizeram com que as duas maiores redes do país ficassem sem crédito justamente no momento mais importante do ano: semanas antes do natal e da compra de material escolar para o ano seguinte.

Em assembleia realizada na semana retrasada, no Sindicato Nacional de Editores de Livros, Saraiva e Cultura foram cobrados a oferecer garantias e novas condições às editoras. O Sindicato, em nota, afirmou que o pagamento antecipado virou uma condição para manter o fornecimento.

Nesta sexta-feira, em vez de se concentrar no maior dia de promoções do ano, a Black Friday, a Saraiva está às voltas com a recuperação judicial. Se perder também o Natal, fica difícil achar culpados apenas da porta da empresa para fora.