A contabilidade não funciona

Os princípios que norteiam a atuação dos contadores não servem para avaliar as perspectivas de uma empresa e evitar fraudes

Os escândalos de grandes nomes do mundo corporativo, como Enron e WorldCom, minaram a confiança dos investidores americanos no mercado acionário. Os casos de manipulação e fraudes contábeis motivaram a promulgação de leis severas, como a Sarbannes-Oxley, na expectativa de coibir os abusos. Será? Para o americano Benett Stewart, um dos fundadores da consultoria Stern Stewart — que desenvolveu o método de avaliação de resultado chamado economic value added (EVA) –, não. Segundo Stewart, as mudanças introduzidas pela Sox, como é mais conhecida a lei, ainda que positivas, são insuficientes para tornar o sistema à prova de falhas. Para ele, o que é preciso agora é uma ampla e aprofundada discussão, que foque não apenas os eventuais desvios mas as próprias práticas contábeis vigentes. “A Sarbannes-Oxley aumenta a responsabilidade dos executivos e torna o processo mais rígido”, diz Stewart. “Mas não toca nos procedimentos atuais, que são imprecisos e não refletem a situação real das empresas.” Em sua recente e rápida passagem por São Paulo, ele falou com exclusividade a EXAME.

Por que o senhor diz que a contabilidade não funciona?

Há dois motivos principais. O primeiro é que os contadores partem de princípios que foram adotados há muito tempo, quando os ativos intangíveis de uma empresa — como marcas, desenvolvimento de tecnologia e aperfeiçoamentos do processo produtivo — não eram muito significativos. Hoje eles são mais importantes do que os ativos físicos.

O segundo motivo é que a contabilidade é pensada do ponto de vista de quem empresta dinheiro, e não dos investidores. Há certa lógica nisso se pensarmos que essas práticas surgiram quando o mercado acionário não era muito importante como fonte de financiamento das empresas, e a principal fonte de capital eram os bancos.

Como assim?

Os banqueiros emprestam dinheiro e querem garantias de que vão receber algo se a empresa quebrar. Assim, a empresa precisa informar em que está gastando dinheiro para que o banco possa saber se terá algo para cobrar. O melhor exemplo são os investimentos em pesquisa e desenvolvimento, que são contabilizados como despesa. Fazer isso só é lógico do ponto de vista do banco. A empresa está gastando para desenvolver tecnologia, mas não há nenhuma garantia de que esse dinheiro vá dar retorno. Contabilmente é uma despesa. Só que, quando uma empresa anuncia que está investindo em pesquisa, suas ações sobem, pois os investidores imaginam que esse dinheiro vá retornar no longo prazo sob a forma de aumentos de produtividades e novos produtos, o que vai aumentar os lucros. Se o mercado pensasse apenas contabilmente, as ações deveriam cair.

Como explicar a diferença entre a visão contábil e a dos investidores?

Vamos olhar para a história recente. Nos anos 80, as empresas que tinham ações baratas na bolsa foram compradas pelos concorrentes. Isso ensinou aos executivos da maneira mais dura que eles tinham de prestar atenção nas cotações. Hoje a situação é inversa. As empresas prestam mais atenção no preço das ações do que no desenvolvimento do negócio em si. Só que a contabilidade continua presa a conceitos do tempo da Era Industrial. E a bolha da internet e das ações de tecnologia no fim dos anos 90 só ampliou essa contradição entre contadores e investidores.

Por quê?

No fim dos anos 90, as pessoas pensavam que haveria uma Nova Economia, da mesma forma que havia uma nova tecnologia. Os presidentes de empresas foram seduzidos pela idéia de quem chegasse antes ao mercado levaria tudo. Não era preciso ter lucro, mas sim conquistar mercado a qualquer preço. O melhor exemplo é a Microsoft, que de fato conseguiu estabelecer o padrão dominante e tornar-se um monopólio. Todos quiseram imitá-la.

A partir daí, os executivos fariam qualquer coisa para aparentar sucesso diante dos investidores, pois a mera ilusão de sucesso os tornaria bem-sucedidos. E o sucesso era medido pelo crescimento contínuo das cotações e dos lucros por ação. Não interessava se eles eram consistentes ou não, mas sim se cresciam trimestre após trimestre.

Buscar a aparência de sucesso a qualquer preço incluiu fraudes, como no caso da Enron?

Sem dúvida. A necessidade de conquistar mercado gerou enorme pressão para que muitas empresas fabricassem crescimento e lucros por ação a qualquer preço. Os executivos passaram a geri-las como se estivessem numa esteira rolante: corriam sem parar, apenas para confirmar e superar as expectativas de crescimento dos acionistas. A pressão era tão grande que os levou a cometer o pecado mortal de administrar apenas de olho nos lucros por ação, sem se preocupar com a solidez do negócio e se ele, de fato, estava gerando valor para o acionista. Isso levou a investimentos e alavancagem em excesso. Para manter os lucros crescendo, os executivos compraram tudo o que aparecia pela frente, nos Estados Unidos ou no exterior. No caso da Enron, as compras foram não só de empresas de energia mas também de companhias telefônicas e de transmissão de dados por banda larga. Com isso, a Enron afastou-se do que sabia fazer bem, que era comprar e vender nos mercados de energia. Claro que o resultado foi um movimento de esticar os números para garantir que o lucro fosse bom. As fraudes foram só uma decorrência.

Onde a contabilidade falhou no caso da Enron?

A Enron preferiu usar dívida e não ações para financiar as aquisições porque mais ações em circulação diminuiriam os lucros por ação. O problema foi que seus executivos financeiros colocaram só uma parte da dívida no balanço. Boa parte da dívida ficou fora dos livros, em empresas de propósito específico e subsidiárias em paraísos fiscais. A contabilidade não detectou que eles na prática mascararam a situação da empresa. Quando admitiram os números reais, eles faliram. As histórias da MCI e da Tyco foram semelhantes. Como a contabilidade olha apenas para o balanço, e não para o valor econômico que o negócio está gerando, fica fácil esconder as notícias ruins nas notas de rodapé.

Como impedir que isso se repita?

É difícil detectar a próxima fraude, pois só o que sabemos é que ela será diferente da fraude passada. Há cerca de um ano fomos procurados pelo Institutional Shareholder Services, que é a principal organização americana de assessoria aos investidores institucionais, como fundos de pensão e seguradoras. Eles nos pediram para desenvolver métodos para detectar quem seriam as novas Enron e Tyco antes que os escândalos ocorressem. Eles queriam ferramentas para orientar os fundos de pensão como votar quando as empresas sugerissem mudanças em seus planos de compensação de executivos com ações, planos de bônus e outros fatores que podem prejudicar os investidores. Nós estamos desenvolvendo um sistema de “alerta contábil” que coloca uma bandeira vermelha em companhias onde há sinais e indicações de que elas podem ser as novas fraudes. Essa nova metodologia deverá ser divulgada no fim do ano.

O que indica que uma companhia pode estar tentando manipular os números?

Há vários sinais. Uma das chaves para saber se uma companhia pode ter problemas futuros é se ela está crescendo depressa demais por meio de aquisições num mercado que está parado ou encolhendo. Isso é um sinal de alerta, pois uma aquisição abre muitas oportunidades para inflar os lucros por ação. Como as empresas que se fundem têm relações preço/lucro (relação que mostra em quantos anos o lucro da empresa vai devolver o total investido ao acionista, e que é um dos indicadores se uma ação está cara ou barata) diferentes, é fácil misturar os números para inflar o resultado final.

Outro sinal surge quando a relação entre dívidas e ativos da companhia é alta, e essas dívidas são garantidas por receitas futuras ou valorização das ações. Quando isso ocorre, há grande pressão para que a empresa seja muito flexível e excessivamente otimista em estimar seus resultados futuros. Uma companhia que deve demais fica tentada a usar recursos contábeis para aumentar o valor de suas ações e assim poder se endividar mais ainda. Ela pode exibir mais lucros, vender mais ações e fazer mais dívida, num círculo vicioso.

É importante lembrar que nem todas as aquisições são ruins. A MCI WorldCom foi construída por Bernard Ebbers por meio de diversas aquisições, assim como a General Electric. Só que a MCI é sinônimo de escândalo, e ninguém fala de um escândalo na GE. Qual a diferença? A GE não se endividou além de sua capacidade de pagar. Quando veio a crise, ela tinha condições de suportar a baixa dos negócios.

Há mais indícios de fraude?

Sim. Uma companhia que passa a financiar-se apenas com operações de leasing, que ficam fora do balanço, pode estar fabricando lucros pela ocultação de dívidas.

Outro problema, esse mais comum nos Estados Unidos, é contar demais com os resultados dos fundos de pensão dos empregados da empresa. Se os ativos do fundo crescerem mais depressa do que as despesas previstas, a empresa precisará gastar menos para financiar as aposentadorias de seus empregados. Isso aparece como lucro, mas é apenas um movimento do mercado. Foi o que aconteceu nos anos 90, quando as ações em carteira subiram tanto que as empresas ganharam dinheiro com seus fundos de pensão. É uma receita, mas não dá para contar com ela porque tudo depende do mercado de ações. Se a bolsa cai, esse dinheiro desaparece. Esse foi o caso da General Motors, que teve de cobrir o rombo do fundo de pensão, estimado em 14 bilhões de dólares. Todos esses números estavam disponíveis, só que enterrados em algum canto das notas de rodapé dos balanços.