A cachaça de onde menos se espera

Jardel Sebba

Em 2009, o engenheiro agrônomo Luiz Manteiga Álvares de Campos Filho precisou da nobreza que seu pomposo nome sugere para se recompor de um desastre. Sua propriedade rural em Campo Alegre de Goiás, no sul do estado, foi inundada pela Usina Hidrelétrica Serra do Facão, o que o obrigou a recomeçar seu negócio praticamente do zero. Ao todo, ele gastou 3,6 milhões de reais que ainda vão levar pelo menos mais uns cinco anos para, com sorte, serem recuperados.

O que para outro empreendedor poderia ser a ruína definitiva, para Campos Filho, que apesar do belo nome só é conhecido pelo apelido de Goteira, foi mais um capítulo numa saga familiar de fé – e prejuízo – estabelecida naquela terra desde 1948. Naquele ano, seu avô Sebastião trouxe a Cachaça Castelo Branco de Minas Gerais e encontrou no Vale do Ribeirão Pirapitinga, no estado vizinho, as condições ideais para manter a produção com a qualidade desejada. O pai, de quem Campos Filho herdou o nome, o apelido e o trabalho, seguiu com a produção, que hoje está, com ele, na terceira geração. Mas tem cachaça boa em Goiás?

Campos Filho, ou Goteira, é um exemplo de uma nova geração de produtores de cachaça que vem consolidando regiões menos famosas da produção da bebida e buscando equilibrar a qualidade com a busca por mercados. Ele produz quatro rótulos, mas o carro-chefe é a Castelo Branco, autointitulada a primeira cachaça registrada de Goiás, envelhecida dois anos em barris de amendoim e seis meses em barris de carvalho. Ela ficou merecidamente em terceiro lugar na categoria “madeiras brasileiras” na Expocachaça deste ano. Branca, forte, com álcool pronunciado entre 44% e 45%, a Castelo Branco vai tão bem pura quanto em drinques e tem o módico preço final de 20 reais.

Cansado de batalhar sozinho, em 2013 Goteira convocou outros produtores locais com o mesmo espírito e com eles fundou a Associação Goiana dos Produtores de Cachaça de Alambique (AGOPCAL), que preside. A associação nasceu com treze produtores e espera chegar a 35 na próxima reunião, em janeiro de 2017. Mais do que a Castelo Branco, a bandeira de Goteira virou a cachaça goiana, uma produção que está hoje entre modestos 350.000 e 400.000 litros por ano.

“Eu produzo 90.000 litros de cachaça por ano. Poderia sozinho, e sem perder qualidade, produzir esses 350.000 litros, mas para quem eu iria vender?”, pergunta o produtor. “Não temos como escoar uma produção maior porque focamos nos mercados de Goiás e Brasília, pouca gente conhece a nossa cachaça e esse é o nosso dever de casa”, explica. Goteira já foi a feiras, embaixadas, Sebrae e onde mais convidarem com sua Castelo Branco embaixo do braço. “Não há uma característica única na cachaça goiana. O requisito principal é sermos apaixonados pelos rótulos que produzimos”, conclui.

Em se plantando cana, tudo dá cachaça

Além dele, há mais gente lutando para divulgar a qualidade de cachaças produzidas em regiões ainda pouco conhecida dos apreciadores da bebida. São rótulos com alguma tradição mas sem a fama das regiões que ostentam a Indicação de Procedência (IP) do Ministério da Agricultura – Paraty, no Rio, Salinas, em Minas Gerais, e, mais recentemente, a microrregião baiana de Abaíra. Um movimento que os especialistas acompanham de perto, mas que ainda falta chegar a um público maior.

“Vejo cachaças boas na Paraíba, onde eu destacaria a Serra Limpa e a Serra Preta, esta segunda a melhor do país para fazer caipirinha”, indica Rick Anson, professor e consultor, que também cita a paranaense Porto Morretes e a catarinense Armazém Vieira como destaques. A Porto Morretes ajudou a jogar luz sobre eixos geográficos menos conhecidos ao vencer este ano o 2.º Ranking da Cúpula da Cachaça. “A vitória de uma cachaça paranaense foi uma grata surpresa”, diz Cesar Adames, professor e especialista em bebidas, que enxerga neste quadro também uma certa acomodação dos produtores de Salinas. “Enquanto em Minas há uma postura mais sossegada, tem gente vendo a cachaça como negócio”, pontua Adames. “Um cara como o Evandro Weber, por exemplo, é um rato de feira, vai em todos os eventos, está sempre em busca de oportunidades”, exemplifica.

Evandro Weber é dono da cachaça Weber Haus, produzida em Ivoti, no Rio Grande do Sul, uma das mais citadas como exemplo de excelência fora do roteiro mais conhecido – ao lado da Porto Morretes e da Armazém Vieira. “No Rio Grande do Sul, que já há algum tempo destaca-se na produção de cachaças de alambique, temos a Weber Haus, a Velho Pescador e a 30 Luas, de Ivoti, a Cachaça Bento Albino, de Maquiné, a Casa Bucco, de Bento Gonçalves, Velho Alambique, Locomotiva e Cenário, de Santa Tereza e a Flor do Vale, de Canelas”, completa Mauricio Maia, especialista em cachaças e autor do blog O Cachacier, referência no meio.

Maia traça um panorama abrangente da diversidade de produção de cachaça hoje no país. “Temos cachaças excelentes no Centro-Oeste com destaque para a Do Ministro e a Cambéba (de Alexânia, em Goiás) e da Authoral (de Brasília). Temos também uma nova safra de produtores no estado de São Paulo, como a Engenho Pequeno, a Patrimônio e a Sapucaia, de Pirassununga, a Cachaça da Tulha, de Mococa, a Barra Grande e a Santo Grau, em Itirapuã, a Middas, de Adamantina e a Catarina, de Dracena”, conclui.

Mais que uma boa ideia, um bom negócio

A indústria da cachaça tem fôlego para ir mais longe. A maior prova disso é o interesse recente das multinacionais de bebida nos rótulos nacionais. A gigante Diageo comprou, em 2012, a cearense Ypióca por 900 milhões de reais, e nos primeiros seis meses do ano seguinte a bebida brasileira somou venda de cerca de 250 milhões e lucro operacional de cerca de 13 milhões reais. Em 2011, a Campari comprou a marca Sagatiba por 26 milhões de dólares, e, em 2014, a Bacardi, que era acionista minoritária da cachaça Leblon, abocanhou 100% da bebida (por valor não revelado).

“O positivo no setor hoje é justamente ter cachaça de qualidade sendo produzida em todo o país”, registra Carlos Lima, diretor executivo do Instituto Brasileiro da Cachaça (Ibrac). “Seria uma afirmação leviana dizer que um ou outro estado produz uma cachaça melhor”, garante ele. Para Lima, a identificação geográfica é um instrumento importante para proteger a produção de regiões determinadas, mas não é um atestado exclusivo de tradição. “A cachaça por si só já é uma identificação geográfica do Brasil. Mas, em termos de tradição, Pernambuco, por exemplo, é considerado por alguns historiadores como um dos possíveis berços da produção de cachaça no país”, lembra o diretor do Ibrac, que trabalha em associação com a Agência de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) na divulgação da cachaça no mercado internacional, com um investimento estimado em R$ 1,3 milhão nos últimos dois anos. “Nossos três mercados prioritários hoje são Alemanha, Estados Unidos e Reino Unido, e um mercado secundário, mas não menos importante, é o México”, diz Lima.

Ano passado, 7,72 milhões de litros de cachaça foram exportados para sessenta e um países, o que resultou numa receita de 13,32 milhões de dólares. O maior pedaço desse dinheiro veio da Alemanha, responsável por 18,52% da receita, seguida de perto pela França e pelos Estados Unidos. Ainda é pouco, menos de um por cento da produção nacional, estimada em 800 milhões de litros. Para título de comparação, ano passado o México exportou 180 milhões de litros de tequila para 120 países.

Não custa lembrar que os números tímidos de exportação também estão relacionados a burocracias históricas. Só a partir de 2013, depois de uma década de negociação, que a cachaça passou a ser uma bebida que ousa dizer seu nome no mercado dos Estados Unidos. Até a aprovação do Alcohol and Tobacco Tax Bureau (TTB) da cachaça como marca de uso exclusivo da bebida brasileira, nossos rótulos atravessavam o continente como “brazilian rum”, o que atrasou em algumas décadas o trabalho de imagem internacional da bebida.

Parece, mas não é

Um problema que atrapalha todo mundo, mas especialmente os produtores menores, é a cachaça produzida sem registro, na clandestinidade. “O Ibrac trabalha com um número de cerca de 1.500 produtores registrados no Ministério da Agricultura versus o total de 11.124 produtores identificados pelo Censo Agropecuário do IBGE de 2006. Ou seja, em número de produtores, a porcentagem da informalidade está em torno de 85%”, revela Carlos Lima, confirmando o motivo de preocupação dos produtores. Lima também sublinha a alta tributação como outro vilão do mercado. “Há estudos hoje que indicam que, no preço final de uma garrafa de cachaça, 81,82% do valor sejam tributos”, diz o diretor do Ibrac, que estima que, em função de tudo isso, o mercado da cachaça deve encolher cerca de 4% em 2016.

Mas o grande inimigo, segundo os produtores, é mesmo o produto ilegal. “Isso é um problema de saúde pública”, enfatiza Goteira. “O produto de qualidade não encontra mercado principalmente por causa da cachaça clandestina, o ‘pingão’, que denigre a imagem da produção da região, não arrecada imposto, promove uma competitividade desleal e é diretamente responsável pela nossa falta de capacidade técnica para mover o negócio”, conclui.

A diversificação das regiões produtoras de cachaça, diante de tantos desafios, ainda representa um número pequeno no grande quadro, mas indica um movimento que ajuda a reforçar a qualidade da cachaça brasileira e traz uma visão capitalista mais moderna para o negócio. “Regiões como Paraty e Salinas têm história, o que ajuda a criar um parâmetro. As outras ainda estão em busca de suas respectivas identidades, mas mostram um objeto claro de ganhar dinheiro com a produção”, resume Cesar Adames, em tom elogioso.

“Estamos no início do caminho, fazendo degustações, abrindo pontos de venda, buscando o mercado estrangeiro”, explica Goteira. “Não fazemos questão de aparecer em revista como case de sucesso. Case de sucesso para nós é venda, é dinheiro no bolso”, diz o produtor, resumindo o espírito dos novos tempos. Em resumo: sabe aquela visão do senhor de idade debruçado sobre o alambique no interior de Minas produzindo uma bebida de extrema qualidade? Pode ficar só com essa última parte.