A Amazônia à venda

Do verde da selva ao verde dos dólares

Até três anos atrás, o empresário amazonense Daniel Israel do Amaral era apenas fornecedor de extrato de guaraná para o Kuat, da Coca-Cola. Uma viagem à Europa mudou tudo. Em visita a feiras de cosméticos na Itália e na Alemanha, percebeu que não só expositores brasileiros mas também franceses faziam questão de divulgar suas linhas de cosméticos e fragrâncias de origem amazônica. “A partir daí, não tive dúvida de que era preciso caminhar com a tendência”, diz Amaral, de 42 anos, membro da quarta geração de uma família de imigrantes judeus que chegou ao Amazonas em 1812, vinda do Marrocos, e se dedicou à exploração de juta, castanha, borracha e pau-rosa, a preciosa madeira responsável por um dos componentes aromáticos do Chanel No 5. Comandado pelo tio-avô Isaac Sabbá, um dos ramos da família fundou a primeira refinaria de petróleo da Amazônia e hoje comanda, em parceria com a Shell, uma rede de postos de combustível.

Sentado em seu escritório nas novíssimas instalações da Magama, indústria de extração de óleos essenciais, óleos fixos, extratos vegetais e resinas que inaugurou há poucos meses em Manaus, no meio de um bosque de 60 hectares perto do distrito industrial da cidade, Amaral sonha em dar uma boa sacudida no modelo de exploração da biodiversidade da Amazônia. “Os fabricantes de cosméticos costumam empregar em suas linhas de produtos uma quantidade ínfima de bioativos da região”, diz ele, cercado de sementes, frutos, pedaços de madeira e amostras de óleos extraídos no prédio de 10 000 metros quadrados onde investiu 2,8 milhões de reais. Pelas janelas envidraçadas, é possível distinguir a 1 quilômetro e meio dali o encontro das águas escuras do rio Negro com as águas amareladas do rio Solimões. “A Amazônia tem um apelo cada vez mais forte, mas estamos correndo o risco de matar essa galinha dos ovos de ouro”, diz.

Seu receio é que o consumidor se dê conta de que está tendo acesso apenas limitado às propriedades naturais dos produtos de origem florestal alardeadas no varejo. “Isso não é ruim só para o consumidor, mas também para as comunidades ribeirinhas que vivem do extrativismo”, diz Amaral. O primeiro passo, a seu ver, para resolver o problema é garantir à indústria final o suprimento regular de matérias-primas de boa qualidade. “Só assim será possível criar um verdadeiro mercado para os produtos amazônicos”, afirma.

Por enquanto, o mercado mundial para bioativos da Amazônia anda por volta dos 500 milhões de dólares ao ano. A ambição de Amaral é que daqui a cinco anos a Magama, que hoje vende 2 milhões de reais, passe a faturar 25 milhões de dólares anuais. Amaral aposta numa parceria com a Cognis, gigante internacional da área oleoquímica, para remover um dos entraves técnicos que impedem o emprego de um teor maior de óleos amazônicos: a Cognis vem desenvolvendo produtos que tornam os óleos amazônicos passíveis de ser misturados aos cosméticos, geralmente fabricados em base aquosa. Há poucos dias, a Magama entregou à empresa as primeiras 5 toneladas de óleo de andiroba — um repelente de insetos natural.