4. Roberto Setúbal – Presidente do Itaú, segundo maior banco brasileiro

O senhor costuma dizer que os efeitos da revolução da informação ainda serão vistos. A atual crise das empresas de tecnologia é passageira ou será que, por algum tempo, mantivemos falsas expectativas em relação a esse setor? Ainda veremos algo semelhante

A revolução da informação não terminou de forma alguma. Mas seu maior impacto provavelmente já ocorreu – foi o impacto na VISÃO e na IMAGINAÇÃO do mundo. Esse impacto foi, e ainda é, enorme. Mas o real motivo pelo qual as ponto-com desmoronaram é o fato de que a indústria da informação não é, e não será, uma indústria muito grande ou muito lucrativa. O paralelo é com o TELEFONE nos últimos anos do século 19 e no começo do século 20. Seu impacto foi tremendo, provavelmente tão grande quanto o da internet e o do comércio eletrônico. Mas em termos de emprego – e capital – a telefonia foi e continuou sendo uma indústria bastante pequena. E NENHUMA companhia telefônica em nenhum lugar do mundo conseguiu ser lucrativa, a menos que fosse um monopólio protegido – seja porque era estatal (e a maioria dos governos europeus encampou suas companhias telefônicas, pois elas estavam falindo), seja porque (como nos Estados Unidos e na maior parte da América Latina) as companhias telefônicas, embora fossem empresas privadas, eram um monopólio protegido pelo governo (regulamentado de forma a assegurar o lucro da empresa).

Já estamos começando a ver emergir algumas das grandes novas indústrias, boa parte delas concentrada na BIOLOGIA: biomecânica, bioeletrônica, biogenética e assim por diante. Muito maior talvez – embora se desenvolvendo de forma bastante desigual – é uma mudança fundamental em nossas atividades nos oceanos, de caçadores e coletores para pastores. Há dez ou 20 anos, não mais do que 10% ou 12% do suprimento de proteínas animais na Europa e na América do Norte vinham de animais aquáticos, principalmente, é claro, de peixes de água salgada (e mamíferos marinhos, como as baleias). Hoje, cerca de 20% – talvez até 25% – das proteínas animais consumidas nos Estados Unidos vêm de peixes, e não de animais terrestres, como bois, suínos ou carneiros (somente as aves tiveram crescimento). E cerca da metade desse suprimento de proteína animal aquática vem de “fazendas aquáticas”, e não da pesca. Em 40 anos, é possível que essa proporção alcance 60% – duas ou três vezes o que é hoje. Essa pode ser a mais importante das novas indústrias – certamente a mais revolucionária. Mas também podemos – eu digo podemos – vislumbrar uma indústria EDITORIAL bastante nova, que combine a velha tecnologia, ou seja, o papel, com a nova tecnologia, ou seja, a eletrônica. E a atividade tradicional mais afetada pela nova tecnologia será a EDUCAÇÃO. No mundo desenvolvido, a educação e a saúde serão provavelmente as indústrias de maior crescimento dos próximos 20 anos, nem que seja por causa da questão demográfica.