1. EXAME

O senhor esteve pela primeira vez no Brasil no início da década de 50, quando a economia do país era eminentemente agrária. Como o senhor vê o Brasil hoje, dentro de um conturbado cenário mundial? Quais são, em sua opinião, as fraquezas e as forças da eco

Para mim, o acontecimento central no Brasil dos últimos 50 anos – e único no gênero – é o fato de que o país se tornou uma nação. Quando eu o visitei pela primeira vez – na metade da década de 50 -, o Brasil era um PAÍS, mas ainda não era uma NAÇÃO. Naquela primeira viagem, estive em quatro cidades: Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro e Recife. Todos os seus habitantes falavam a mesma língua e tinham a mesma nacionalidade. Mas as cidades ainda eram diferentes e separadas. (Até mesmo Santos e São Paulo pareciam pertencer a culturas totalmente diferentes.) E todas tinham os olhos voltados para o Atlântico, para a Europa (e, num grau muito menor, para os Estados Unidos), bem mais do que para o próprio país. Viagens à Europa eram rotina para a elite. Já viajar para outras partes do Brasil era considerado uma aventura.

De fato, o país era muito parecido com os Estados Unidos antes da Guerra de Secessão – uma estreita faixa de povoamento ao longo da costa, mais próxima dos seus mercados (na maioria europeus, e consumindo principalmente produtos agrícolas, como açúcar no norte e café no centro) do que de qualquer outra parte do país. Nesse sentido, o acontecimento mais importante dos últimos 50 anos – pelo menos na minha opinião – foi a decisão do presidente Juscelino Kubitschek de mudar a capital para Brasília. Quando visitei o Brasil pela primeira vez, a medida acabava de ser anunciada e o terreno estava sendo aplainado em Brasília para os primeiros edifícios. Foi realmente uma decisão muito polêmica. Ainda me lembro com clareza de que quase todas as pessoas que encontrei – incluindo funcionários de altos escalões do governo – consideravam aquilo tudo uma loucura e previam que o plano seria um fracasso total.

Não morro de amores por Brasília – confesso que não é exatamente um lugar onde eu gostaria de viver. Mas aquela decisão criou um Brasil diferente, fez todo o país olhar para o interior, para si mesmo. Logo, não concordo com a crença comum de que o Brasil fracassou em se desenvolver. Conheço os tremendos problemas existentes. Sei que grande parte do país – o Centro-Oeste e a Amazônia, e também grande parte do Nordeste – ainda é uma “fronteira”. Mas houve enormes progressos, tanto sociais como econômicos. E, sobretudo, psicológicos – provavelmente tanto quanto em qualquer outro lugar do mundo.