Votar na terça-feira: por quê?

Thiago Lavado

Além de todos os compromissos de um dia normal, quem diabos pensou que terça-feira seria um ótimo dia para sair de casa e ir votar? Esta terça-feira, mais uma vez, dezenas de milhões de americanos irão às urnas escolher um novo presidente, além de votar em senadores e em referendos estaduais. Muitos deles já se preparam para um dia de longas filas, perda de trabalho e uma programação voltada para o cumprimento do dever cívico.

A origem da eleição na terça-feira remonta a 1845 — muito antes de qualquer uma das típicas obrigações de uma terça-feira cotidiana existirem. Naquela época, os Estados Unidos eram uma sociedade vastamente agrária, onde o voto era exclusivo para uma população de homens brancos, principalmente fazendeiros.

Neste cenário, os legisladores da época pensaram em uma logística para que o típico eleitor pudesse se deslocar até um condado próximo, onde haveria uma urna. Novembro foi o mês escolhido, pois, na maior parte do país, é um mês de temperatura ainda amena para viagens. Além disso, a colheita do outono já teria terminado — naquela época, plantava-se na primavera, trabalhava-se no solo durante o verão e a colheita era feita durante o mês de outubro.

Mas por que uma terça-feira? Para evitar o conflito com a ida à igreja aos domingos. Na visão dos legisladores do século XIX, a terça-feira também seria mais adequada que a segunda-feira, uma vez que alguns cidadãos teriam que começar a viagem para votação ainda no final de semana, o que, mais uma vez, conflitaria com as obrigações religiosas.

E por que a primeira terça-feira depois da primeira segunda-feira? Essa questão é também fundamental. A data escolhida é necessariamente sempre na primeira terça-feira após a primeira segunda-feira de novembro. Os legisladores queriam evitar que as eleições caíssem no 1º de novembro, Dia de Todos os Santos, uma data importante para os católicos.

O problema é que a data, muito confortável para o típico eleitor de meados do século XIX, é bastante fortuita para o eleitor moderno. Desde 1845, os Estados Unidos, e o mundo, mudaram radicalmente, com a Revolução Industrial, o sufrágio universal, a abolição da escravidão, o direito de voto aos negros e, mais recentemente, a internet. Nesse ínterim, o número de fazendeiros foi de 60% para menos de 2% da população norte-americana.

As mudanças que aconteceram nos últimos 171 anos impactaram diretamente não só onde as pessoas votam, mas quando podem votar. Dada a rotina típica de um dia útil, votar em uma terça-feira, em horário comercial, deixou de ser um dia apropriado.

Como os estados são federados nos Estados Unidos, eles podem alterar algumas normas relativas à eleição. Pensando nisso, 34 deles têm o sistema de early voting, que permite ao eleitor votar antecipadamente, a partir de uma determinada data. Apesar disso, seis desses estados exigem uma justificava para antecipação e vários deles só mantém os escritórios abertos em horário comercial durante a semana. Sete não têm qualquer tipo de alternativa, e os outros três só permitem votos pelo correio.

O problema depõe contra o sistema eleitoral americano, que ainda é atrasado em diversos aspectos — como votos em cédulas de papel preenchidas à mão e cartões perfuráveis. Por causa disso, as taxas de abstenção são bastante altas: somente 53,6% das pessoas em idade hábil vota e mesmo entre os registrados a taxa de abstenção é de 16%. Há movimentos que pedem uma mudança da data, ou a transformação do dia em feriado nacional. Enquanto nada disso acontece, milhões de pessoas ainda precisarão encontrar uma brecha na agenda para escolher entre Hillary Clinton e Donald Trump nesta terça-feira.