Veto de candidaturas no Irã abre caminho para conservadores

O presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, contestou nesta quarta-feira a exclusão de um de seus aliados da corrida presidencial por um órgão conservador

Teerã – O presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, contestou nesta quarta-feira a exclusão de um de seus aliados da corrida presidencial por um órgão conservador que também descartou o moderado Akbar Hashemi Rafsanjani, abrindo caminho para os ultraconservadores do regime.

Ahmadinejad afirmou que pretende recorrer ao Guia Supremo da República Islâmica para levar Esfandiar Rahim Mashaie, um de seus colaboradores mais próximos, de volta à disputa pela presidência. Apenas o aiatolá Ali Khamenei pode pedir ao Conselho dos Guardiães da Constituição, instância responsável por validar as candidaturas, a reavaliar o caso.

A invalidação na terça-feira das candidaturas de Rafsanjani e Mashaie, pedra no sapato dos ultraconservadores, à eleição presidencial iraniana de 14 de junho deixa o caminho aberto para os leais ao regime, na ausência dos principais candidatos moderados e reformistas.

“Eu considero Rahim Mashaie como um bom fiel, qualificado e útil para o país e eu o apresentei como candidato para isso, mas ele foi vítima de uma injustiça”, disse Ahmadinejad, segundo o site da presidência.

“Vou seguir com esta questão, levando meu apelo ao Guia Supremo”, acrescentou.

O presidente, que não pode concorrer a um terceiro mandato sucessivo, não entrará, no entanto, em confronto com o órgão. Ele pediu a seus seguidores para serem “pacientes”, afirmando que com “a presença do Guia Supremo, não haverá problemas no país”.

Em 2005, o aiatolá Khamenei atuou para retirar o veto a dois candidatos reformistas.


O ex-presidente moderado Akbar Hashemi Rafsanjani (1989-1997), ao contrário, afirmou que não pretende contestar a decisão dos “Sábios”.

“Rafsanjani não irá protestar contra sua desqualificação”, declarou o diretor de campanha, Es-Hagh Jahanguiri.

Aos 78 anos, o atual presidente do Conselho de Discernimento, a principal autoridade de arbitragem política, “é um dos pilares do regime e continuará a ser, se Deus quiser”, explicou Jahanguiri, citado pela agência Isna.

A ala linha-dura do regime criticou o apoio de Rafsanjani aos protestos após a polêmica reeleição de Mahmud Ahmadinejad em junho de 2009.

O Conselho dos Guardiães da Constituição não justificou a sua decisão, mas, segundo seu porta-voz, Abbas Ali Kadkhodaïe, a condição física dos candidatos foi levada em consideração, uma clara referência a Rafsanjani.

O veto a Rafsanjani “vai criar divisões nos círculos religiosos e políticos”, comentou o analista Mohammad Sedghian.

Oito pessoas, incluindo cinco conservadores, dois moderados e um reformista, foram autorizadas a participar nas eleições presidenciais.

Entre os conservadores, as chances do atual negociador da questão nuclear iraniana, Saeed Jalili, parecem maiores.


“A maré está virando a seu favor”, acredita o analista político, próximo dos conservadores, Amir Mohebian, citado nesta quarta-feira pela imprensa.

“Ele é mais conservador do que outros, acredita nos valores revolucionários e está ligado aos tomadores de decisão dentro do governo”, acrescentou Mohammad Sedghian.

Jalili reuniu-se na terça-feira com vários clérigos na cidade sagrada de Qom, centro importante do xiismo iraniano.

“Na política externa, se teve algum sucesso, foi graças à resistência (contra as potências ocidentais) e não à política de compromisso”, declarou, em referência aos reformistas e moderados ex-presidentes Rafsanjani e Mohammad Khatami (1997-2005).

Também deve-se considerar a candidatura de Mohammad Bagher Ghalibaf, que pode se gabar de seus resultados como prefeito de Teerã desde 2005 e como ex-chefe de polícia e comandante militar.

Ante os conservadores, os moderados e reformistas não são páreos. O mais conhecido, Hassan Rohani, é um religioso próximo de Rafsanjani e foi líder das negociações nucleares no início de 2000. O reformista Mohammad Reza Aref, ex-vice-presidente no governo de Mohammad Khatami, nunca brilhou na cena política.