Vale do Panjshir vive momentos de expectativas sobre transição de segurança

No local, há bases militares dos Estados Unidos e helicópteros americanos realizando exercícios, mesmo com forças afegãs no comando

Panjshir – Berço do emblemático líder da resistência afegã Ahmad Shah Massoud (1953-2001), a província setentrional de Panjshir é uma das regiões onde as forças do Afeganistão começam neste mês a assumir o controle da segurança.

Ao longo do vale que lhe dá nome, ainda é possível ver bases militares dos Estados Unidos e helicópteros americanos realizando exercícios, mas nas estradas e povoados de Panjshir são a Polícia e as Forças Armadas do Afeganistão que parecem já ter o comando.

A partir desta quinta-feira, os agentes afegãos assumem plenamente a competência da segurança nesta província e em outras seis áreas do país, em teoria as menos problemáticas, no calor do início da retirada gradual das tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

“Aqui estamos bem. Se não fosse assim, não estaria passeando tão tranquilamente. Nunca gostamos dos talibãs, eles não têm nosso apoio”, declarou à Agência Efe o morador Azimullah, que visitava o mausoléu de Ahmad Shah Massoud na companhia de amigos.

O túmulo do ex-líder mujahedin fica em uma colina junto a Bazarak – sua localidade natal -, rodeada de carcaças de tanques e canhões soviéticos, que sofreram em Panjshir seu golpe final durante a fracassada invasão da União Soviética na década de 1980.

“Para nós, é como um pai. Não haverá alguém igual”, disse Azimullah, pouco antes de o atual vice-presidente afegão e antigo aliado de Massoud, Mohammed Fahim, visitar a área protegido e acompanhado por membros do Exército do Afeganistão.

O carismático embora controverso Massoud, chamado “Leão do Panjshir” e assassinado pela rede terrorista Al Qaeda dois dias antes do 11 de Setembro, é ainda hoje um dos principais ícones no Afeganistão adverso à influência talibã, especialmente entre sua etnia, a tajik.

Centenas de fiéis se aproximam diariamente ao túmulo de Massoud para rezar, ele que foi ministro da Defesa ao término da ocupação soviética e depois liderou a Aliança do Norte.

Esta coalizão resistiu no final da década de 1990 aos talibãs, enquanto os fundamentalistas da etnia pastun ostentaram o poder após saírem vitoriosos de uma sangrenta guerra civil durante a qual conquistaram quase todo o território afegão, mas não Panjshir.

Panjshir tem apenas 200 mil habitantes e 3,6 mil quilômetros quadrados de extensão. A sucessão de montanhas áridas só é rompida pela vegetação à margem do rio que dá nome ao vale e região, um destino habitual para o piquenique das famílias locais.


Grupos de adultos comem kebabs e pães sírios em restaurantes à margem do Panjshir, enquanto as crianças brincam nas águas do rio de um dos enclaves mais tranquilos do Afeganistão, a cerca de duas horas de carro da capital, Cabul.

O rosto de Massoud ilustra desde adesivos e bandeiras nas onipresentes caminhonetes Toyota até calendários, cartazes e quadros em casas e estabelecimentos comerciais de Panjshir.

“Não acho que os talibãs consigam impor sua força por aqui. Não é seu terreno e não são bem recebidos”, opinou à Efe o taxista Humayun, da etnia tajik.

Mas outros aldeões admitiram ter dúvidas sobre a capacidade real das forças afegãs para assumirem a segurança local e previram um aumento das tensões étnicas após a conclusão da retirada das tropas estrangeiras, programada para 2014.

Enquanto a situação é relativamente estável nas partes norte e oeste do Afeganistão povoadas por uzbeques, tajiks e hazaras, a violência é constante no sul e no leste, onde predomina a etnia pashtun, majoritária entre os talibãs.

Dali, a insurgência levou o conflito a seu momento mais sangrento desde a invasão dos Estados Unidos há quase uma década.

Embora Panjshir seja uma região bastante pacata em comparação com o sudeste, dois soldados da Otan e um guarda afegão lá morreram em um tiroteio no último dia 9, no mais recente dos confrontos que semeiam dúvidas ao processo de transição de segurança.

Muitos questionam o êxito da reconstrução impulsionada no país pela comunidade internacional, já que, na tentativa de isolar os talibãs, acabou enriquecendo “senhores da guerra”, como Mohammed Fahim, que permanece como referência política no país.