O risco da debandada

Os britânicos vão às urnas hoje definir em referendo se aprovam o desembarque da União Europeia, o Brexit. O resultado é incerto, já que os principais institutos de pesquisas apontam empate técnico e a definição deve ficar na mão dos 9% de indecisos entre os 46 milhões de eleitores. De qualquer forma, a votação já teve um efeito prático – e potencialmente explosivo para o continente.

A força que os argumentos a favor do Brexit ganharam no Reino Unido só engrossou o ceticismo dos europeus. O Reino Unido é a terceira maior economia e a 2ª maior força militar do bloco, e, apesar de 70% dos europeus reconhecerem que a saída do Reino Unido será ruim, 51% apoiam a separação. O marasmo econômico do bloco e a crise de refugiados tem azedado as relações no continente e a chance de novos referendos surgirem é real.

Populações d países como Grécia, França e Espanha já são mais desfavoráveis do que favoráveis à existência do bloco. A estratégia do bloco, neste caso, é desencorajar os aventureiros. “A União Europeia está deixando claro que, caso o Reino Unido decida mesmo sair, vai dificultar ao máximo as negociações comerciais futuras – que podem se arrastar por anos. Essa rigidez pode ser fundamental para evitar que outros países queiram romper com o bloco”, diz o cientista político Kai Lehmann, phD em União Europeia da USP.

Se de um lado a campanha do Brexit elevou as exigências e as pressões por melhorias, do outro ela aumentou a resistência. “Países onde há governos mais conservadores, como a Hungria e a Polônia, já manifestam suas vontades de sair do bloco”, diz Lehmann. “No ano que vem, há eleições presidenciais na França e, certamente, esse assunto será central nas campanhas, especialmente na voz de Marine Le Pen.”

Seja qual for a decisão dos britânicos no referendo desta quinta-feira, as discussões em Bruxelas devem caminhar para promover políticas mais democráticas e com maior transferência de poder para os 28 países do bloco. Isso a discussão do Brexit já conseguiu.