Uma parada para Trump chamar de sua

Trump quer montar um desfile militar inspirado por franceses e norte-coreanos, mas o capricho sairia caro, e não agradaria a todos

Donald Trump não gosta de lutar pessoalmente em guerras. Pelo menos quando a oportunidade surgiu, ele declinou. Nas cinco vezes em que foi convocado para a Guerra do Vietnã, em 1968, o atlético rapaz, então com 22 anos, apresentou atestado médico alegando que sofria de esporões nos calcanhares. Que não o impediam de praticar futebol americano, tênis e golfe.

Já desfiles militares, Trump adora. Foi um dos motivos que o levaram a visitar a França no dia 14 de julho, aniversário da Queda da Bastilha. Enquanto os outros espectadores, incluindo o presidente Emmanuel Macron, aplaudiam de forma casual o tradicional desfile militar na Avenida dos Champs-Elysées, Trump se mantinha perfilado, batendo continência, como um militar.

Depois do espetáculo, o presidente americano declarou: “Foi um dos maiores desfiles que já assisti. Foram duas horas completas de poderio militar. Acho algo tremendo para o espírito da França. Vamos ter que superá-los”. Quando se encontrou com Macron em setembro, durante a Assembleia Geral da ONU, em Nova York, Trump lembrou o desfile. Aquilo realmente não saiu de sua cabeça.

Na verdade, o presidente já pensava nisso antes de tomar posse, quando declarou, em entrevista ao Post: “Vamos mostrar às pessoas, à medida em que aumentamos nosso poderio militar. Os militares poderão marchar na Avenida Pennsylvania, sobrevoar Nova York e Washington, em desfiles. Vamos mostrar nossas Forças Armadas”.

No dia 18 de janeiro, Trump se reuniu com os principais comandantes militares no chamado “tanque”, uma sala secreta de reuniões do Pentágono. Em vez de acertar os detalhes de uma importante operação militar, como costuma ocorrer naquela sala, o tema foi como será a parada militar sonhada pelo presidente.

“As ordens foram: quero um desfile como o da França”, contou ao jornal The Washington Post um oficial que pediu para não ser identificado. “Isso está sendo preparado nos mais altos níveis das Forças Armadas.” O chefe de gabinete da Casa Branca, general John F. Kelly, participa do planejamento.

Desfiles militares não são algo comum nos Estados Unidos. O último foi realizado pelo presidente George Bush pai, em 1991, para celebrar a vitória contra as forças iraquianas, expulsas do Kuwait por uma coalizão de 30 países liderada pelos EUA.

A data ainda não está definida. O presidente quer que seja, naturalmente, num feriado patriótico. O Pentágono, Departamento de Defesa americano, está propondo 11 de novembro, o Dia dos Veteranos. Este ano coincidirá com o centenário da 1.ª Guerra Mundial e assim ficaria menos associado à figura de Trump, segundo fontes ouvidas pelo Post.

“O presidente Trump apoia incrivelmente os grandes soldados que arriscam a vida todos os dias para manter nosso país seguro”, justificou a porta-voz da Casa Branca, Sarah Huckabee Sanders. “Ele pediu para o Departamento de Defesa estudar uma celebração, na qual todos os americanos possam demonstrar seu apreço.”

Se a inspiração foi a França, Trump provavelmente recebeu um novo incentivo na quinta-feira 8. Na véspera da abertura oficial dos Jogos de Inverno na Coreia do Sul, o regime norte-coreano promoveu um grande desfile militar (o que é bastante frequente) em Pyongyang, com seus soldados fazendo o imponente passo do ganso prussiano (com as pernas exageradamente esticadas), celebrizado pelos nazistas.

Foi como dar uma no cravo e outra na ferradura: o ditador Kim Jong-un enviou uma delegação, chefiada por ninguém menos que sua irmã, Yo-Jong, primeira-vice-presidente do Comitê Central do Partido dos Trabalhadores, como um gesto sem precedentes de desejo de reconciliação. Para que não pensem que ele está fraquejando, melhor exibir uns mísseis e tanques.

Kim Jong-un sempre faz dessas. Em seu discurso de ano novo, ao anunciar sua disposição de iniciar um diálogo com a Coreia do Sul, ele se vangloriou de que tinha um botão nuclear na sua mesa e estava disposto a usá-lo contra os EUA. Ao que Trump respondeu pelo Twitter que o “seu” botão nuclear era “muito maior e mais poderoso”.

E aí é que está o problema, para muitos americanos. Além de a população não demonstrar interesse por esse tipo de exibição — no de 1991 era esperado um milhão de pessoas, mas só compareceram 200.000 —, ele está associado a regimes autoritários. Foi para deixar de se comparar com a União Soviética que os governos americanos abandonaram gradualmente a prática.

Nesse sentido, a França, como uma sólida democracia, é mais uma exceção do que um modelo a ser imitado. “É preciso entender que o desfile militar da Bastilha é uma antiga tradição, que remonta a 1880”, escreveu Sylvie Kauffmann, diretora de opinião do jornal francês Le Monde. “Sua longevidade e popularidade têm muitas razões históricas. Provavelmente diferentes das motivações de Trump.”

A pergunta que muitos observadores fora da Europa se fazem é: por que os americanos querem começar uma tradição dessas agora?

“Não acredito que haja uma falta de amor e respeito por nossas Forças Armadas”, atesta Douglas Brinkley, especialista em história presidencial da Universidade Rice (em Houston, Texas). “O que eles vão fazer? Parar em frente a Donald Trump enquanto ele acena para eles? É o tipo de coisa que se vê em países totalitários, a menos que haja uma razão genuína e séria para fazer isso.”

Politicamente, o desfile pode acabar sendo um tiro no pé. Os militares andam reclamando da falta de verbas para suas operações. Usar dinheiro do orçamento de defesa para isso pode não pegar muito bem, nesse contexto. O desfile de Bush pai em 1991 custou 12 milhões de dólares na época — equivalentes a 20 milhões hoje. Não há sequer dotação orçamentária para isso.

Além disso, atitudes muito ufanistas não pegam bem entre os militares americanos. Todos se lembram da gafe cometida por George Bush filho, que em 2003 aterrissou no Iraque com um avião com os dizeres “Missão cumprida”. A guerra continuaria por mais uma década, contra insurgentes pró-Saddam Hussein que se reagruparam.

“Desfile militar é caca terceiro-mundista”, tuitou Robert O’Neill, membro dos Seals, grupo de elite da Marinha, que afirma ter sido o autor dos disparos contra Osama bin Laden na operação que o matou em 2011 no Paquistão. “Nós nos preparamos. Nós dissuadimos. Nós lutamos. Parem com essa conversa.”

O’Neill não é — ou não era até esse tuíte — um desafeto de Trump. Ele jantou com o presidente na Casa Branca no ano passado.

Claro, nem todos os militares rejeitam a ideia. Charlie Dunlap, um brigadeiro da reserva, que serviu por 34 anos na Força Aérea e hoje dirige um instituto na Universidade Duke (em Durham, Carolina do Norte), defendeu-a em um artigo no site da revista The Atlantic.

Ele argumentou: “As Forças Armadas americanas têm estado constantemente em guerra desde o 11 de setembro (de 2001). Mesmo assim, há mais de 26 anos que tivemos um desfile militar para honrar os que servem nelas, embora essa seja uma antiga tradição americana”.

Dunlap prosseguiu: “Ironicamente, num país no qual milhões de pessoas cotidianamente comparecem em enormes desfiles esportivos, vários comentaristas já estão reclamando por causa de um para honrar os que se arriscam por nós”.

Para o brigadeiro, o custo de 20 milhões de dólares “é uma parte minúscula do que o Departamento de Defesa já gasta em publicidade”. Ele lembra que, em 2016, o governo de Barack Obama requisitou 575 milhões de dólares para gastar em propaganda para conscientizar o público sobre o serviço militar e assim facilitar o recrutamento.

Tradição milenar 

Paradas militares se tornaram um costume na antiguidade, quando os exércitos passaram a se organizar em formações compactas, para infligir o máximo dano no campo de batalha. Romanos, macedônios, persas… todos os grandes exércitos adotaram essas formações nas batalhas, e as reproduziram nas paradas, como forma de treinamento e de demonstração de força para dissuadir eventuais inimigos.

Essas formações perderam a eficácia com o advento da metralhadora, no fim do século 19, e depois com a introdução dos bombardeios aéreos, na 1.ª Guerra Mundial. Estar juntos passou a ser uma desvantagem, porque multiplicava as baixas causadas por esses novos armamentos. Os batalhões se dispersaram em pequenos pelotões. Mas as paradas militares continuaram exibindo as antigas formações, simplesmente porque elas são mais vistosas e impressionam mais.

Esses detalhes técnicos talvez não interessem muito ao presidente Trump. Para ele, vale mais o simbólico. Resta aos militares americanos tomar cuidado para não enviar a mensagem errada e ficar parecidos com exércitos com os quais ele não gostariam de ser identificados.