Uma convenção nada convencional

Sérgio Teixeira Jr., de Nova York 

Os 400 dias mais improváveis da história política americana chegam ao fim nesta segunda-feira. Os próximos 114, até a eleição de 8 de novembro, serão cheios de emoções, é claro. Mas hoje começa a convenção que confirmará o empresário Donald Trump como candidato à Presidência dos Estados Unidos pelo Partido Republicano. Trump anunciou sua candidatura em 15 de junho do ano passado. O discurso foi encarado como mais um golpe de mídia do empresário e apresentador do reality show que ficou famoso no país inteiro demitindo candidatos a aprendizes.

Ele já falava em se candidatar a presidente desde os anos 1980, e ameaçou concorrer na última eleição, em 2012. Mas nem o mais otimista de seus apoiadores – e talvez nem sequer o próprio Trump – tinha ideia do furacão político que começava a se formar naquela manhã de junho, num salão de piso de mármore e espelhos folheados a ouro no coração de Manhattan. Nos próximos dias, o mundo verá a apoteose do espetáculo da candidatura de Donald J. Trump – e da potencial destruição do atual Partido Republicano.

Com raras exceções, as convenções dos partidos americanos costumam ser eventos mais teatrais que propriamente políticos. O resultado da votação dos delegados – escolhidos no processo das primárias – já é conhecido de antemão, e republicanos e democratas aproveitam a oportunidade para dar destaque aos temas que serão debatidos na eleição geral, além de colocar sob os holofotes nomes promissores para o futuro – foi na convenção democrata de 2004 que os muitos americanos ouviram pela primeira vez um discurso do então senador Barack Hussein Obama.

Mas o que vai acontecer entre segunda e quinta-feira na Quicken Loans Arena, em Cleveland, Meio-Oeste do país, promete ser um pouco diferente. A ameaça de tapetão foi afastada. A facção republicana que tentou alterar as regras da convenção para liberar os delegados para mudar seus votos foi derrotada, e a indicação de Trump já não corre mais riscos. Mas o espetáculo que vai se desenrolar na arena, ginásio esportivo mais conhecido por ser a casa de LeBron James e dos Cleveland Cavaliers, recém-coroados campeões da NBA, promete outro tipo de surpresa. Celebridades, artistas e esportistas vão dividir o palco com políticos. A Convenção Nacional Republicana deve ser tudo, menos convencional.

O tema geral do evento será Make America Great Again (algo como: fazer dos Estados Unidos de novo um país excelente, ou magnífico, grande, importante), e os assuntos principais serão os mesmos abordados por Trump até aqui: segurança nacional, imigração, comércio internacional e empregos. Mas entre os “oradores não-convencionais”, segundo o próprio partido, estarão personalidade que têm experiência “no mundo real”.

Entre elas estão a ex-astronauta Eileen Collins, primeira mulher a comandar uma missão de ônibus espacial; Antonio Sabato Jr., ex-modelo de roupas íntimas da Calvin Klein e estrela de reality shows; e Mark Geist e John Tiegen, sobreviventes do ataque contra uma representação diplomática americana em Benghazi (Líbia) — um dos calcanhares de aquiles da democrata Hillary Clinton. Também estão previstos discursos de Dana White, presidente do Ultimate Fighting Championship (o UFC), e a golfista Natalie Gulbis. Até mesmo o nome de Tim Tebow, jogador de futebol americano que ficou famoso por ajoelhar e agradecer a Deus depois de bons lances, foi aventado, mas o próprio negou via Facebook que vá falar aos republicanos.

A lista dos ausentes também chama a atenção, especialmente por contar com nomes de peso do establishment republicano. Mitt Romney, derrotado por Obama em 2012, não vai dar as caras. John McCain, que perdeu a eleição anterior para Obama, é outro que vai passar longe da festa organizada para Trump – se bem que o senador tem um bom motivo: no ano passado, Trump criticou o histórico de guerra de McCain, que passou cinco anos e meio como refém dos vietcongs. Estrelas ascendentes que poderiam reforçar a diversidade do partido, como a governadora Susana Martinez, do Novo México, também não subirão ao palco. Afastar a imagem de um clube elitista de homens brancos não parece a prioridade dos responsáveis pela agenda.

Não poderia ser diferente: o show é de Donald Trump. No sábado, na apresentação oficial do vice de sua chapa, Mike Pence, Trump tomou a palavra e falou durante quase meia hora – de improviso, basicamente sobre si mesmo e suas propostas. Quando finalmente chamou Pence para o microfone, Trump deixou seu candidato a vice sozinho no palco.

A convenção termina na quinta-feira, quando Trump sobe ao palco para fazer o tradicional discurso aceitando a indicação como candidato republicano à Presidência. Os canhões vão lançar confete no ar e os balões vermelhos, azuis e brancos vão cair do teto. Começa a segunda parte do show de Donald Trump.