Um plano anti-fuga de cérebros

A estudante paulista Letícia de Souza mora em Fortaleza há três anos. Ela saiu de Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, aos 15 anos para fazer ensino médio em uma escola capaz de prepará-la para fazer a graduação no exterior. Encontrou uma na capital cearense, onde conseguiu uma bolsa de estudos integral. Após ser aprovada em meia dúzia de universidades, entre elas as prestigiadas Universidades de Cornell e da Pensilvânia, nos Estados Unidos, e até uma instituição de Abu Dhabi, Letícia acabou escolhendo Stanford, na costa oeste americana.

Durante suas buscas sobre como se inscrever em universidades estrangeiras, Letícia se deparou com um grupo de brasileiros no Facebook que estudam ou desejam estudar nos Estados Unidos. Esse grupo tem 11 000 membros e é administrado pela Brasa – a Brazilian American Student Association. Trata-se da maior associação de estudantes brasileiros no exterior. A Brasa ajudou Letícia a se inscrever no complexo processo de pedido de bolsa de estudo para Stanford.

Deu certo. A menina de Pindamonhangaba recebeu uma bolsa que cobre toda a anuidade do curso de graduação em Stanford e parte dos custos de vida. E de quebra ainda fez vários amigos brasileiros que estudam lá e que ajudarão na sua adaptação no país estrangeiro a partir de agosto deste ano, quando ela se muda de mala e cuia. “A rede de contatos da Brasa é fantástica porque essas pessoas que já estão lá nos inspiram a tentar fazer coisas grandiosas”, diz Letícia, que quer estudar biologia e ciência da computação.

Letícia foi beneficiada por um dos programas desenvolvidos pela Brasa: o de mentores. Um total de 120 estudantes brasileiros em universidades de ponta nos Estados Unidos se dispõem a aconselhar outros compatriotas interessados em fazer faculdade em uma instituição parecida com a deles. Quem ajudou Letícia foi Sarah Ornellas, da Universidade de Yale. Outra parte importante do trabalho que a Brasa faz é ligar quem está se formando a empresas no Brasil.

A Brasa tem uma plataforma onde brasileiros que fazem graduação nos Estados Unidos podem colocar seus currículos e assim se conectar com empresas brasileiras ou que atuam no Brasil, entre elas a própria Mckinsey, a consultoria Falconi, a cervejaria Ambev, os bancos de investimento BTG Pactual e Itaú BBA e a rede de faculdades Kroton. Mais de 50 estudantes já foram alocados assim. Esses jovens também são conectados a profissionais de renome em suas áreas de interesse, como o ex-banqueiro Claudio Haddad para alunos interessados em finanças e a educadora Beatriz Cardoso para aqueles que querem trabalhar no terceiro setor.

“Nós acreditamos na independência que o aluno tem de decidir se vale a pena para ele voltar a morar no Brasil ou não, mas queremos garantir que pelo menos eles mantenham contato com o país de origem e contribuam de alguma forma para o seu desenvolvimento”, diz Matheus Farias, de 23 anos, presidente e fundador da Brasa. Ele acabou de se formar em engenharia química e economia na Worcester Polytechnic Institute, no estado de Massachussets, e conseguiu uma vaga no escritório da consultoria Mckinsey & Company em Salvador, na Bahia.

Moro, Levy e Duvivier

A Brasa surgiu de uma ideia que o paraibano Matheus Farias teve em março de 2014, quando estava organizando os estudantes brasileiros em sua própria universidade. Em abril, durante a primeira conferência de alunos brasileiros no exterior, que aconteceu na Universidade de Harvard, ele notou que não havia uma associação que congregasse aqueles jovens. Durante o verão americano naquele ano, ele trabalhou com outros seis colegas para colocar a Brasa de pé.

Conseguiu patrocínio da Ambev, do BTG Pactual e da Kraft Heinz e no ano letivo 2014-2015 organizou quatro conferências: uma sobre tecnologia, outra sobre liderança, uma sobre política e a segunda edição da conferência de estudantes que havia acontecido em Harvard e que dessa vez foi em Columbia, em Nova York. Entre os convidados, estiveram o presidente da AB Inbev Carlos Brito, o cientista Miguel Nicolelis e o ator Gregório Duvivier.

No segundo ano da Brasa, o maior evento de todos, com cerca de 2.000 estudantes brasileiros concentrados na Universidade de Chicago para ouvir o juiz Sérgio Moro, a ex-ministra de meio-ambiente e ex-senadora Marina Silva, o ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy e o presidente do conselho de administração do BTG Pactual Pérsio Arida. Cerca de 80% dos recursos da Brasa são usados para custear esses eventos, que ajudam a promover o Brasil em suas universidades e aproximar estudantes brasileiros no exterior de assuntos em voga no seu país de origem. “Os eventos e a comunidade que formamos ajudam a disseminar a sensação de compromisso com o seu país entre esses jovens que podem ser os nossos futuros líderes”, diz Farias.

No fim de 2015, havia 4.500 estudantes brasileiros fazendo a graduação completa nos Estados Unidos. Além disso, havia outros 9.500 bolsistas do programa Ciência sem Fronteiras, iniciativa do governo federal para promover o intercâmbio de estudantes brasileiros que foi paralisada na esteira da crise econômica. O presidente da Brasa, Matheus Farias, e sua sucessora Ana Garcia, da Universidade da Virginia, não acreditam que a pausa ou eventual fim do programa têm o poder de atrapalhar os planos de Brasa.

Afinal, os que mais se beneficiam das iniciativas desse grupo de jovens são justamente aqueles brasileiros que fazem o curso inteiro no exterior: esses perigam de fazer carreira fora e se desvincular do Brasil. No fim das contas, a Brasa pode evitar a fuga de cérebros. Agora, eles estão expandindo para a Europa. No dia 14 de maio, realizaram o primeiro evento fora dos Estados Unidos: uma conferência em Paris, na França. No continente, há mais de 7.000 brasileiros fazendo graduação (excluindo os que estão em Portugal). O potencial para crescer é enorme.

(Daniel Barros, de Nova York)