Um milhão de imigrantes ilegais abandonam a Arábia Saudita

Imigrantes ilegais estão abandonando a Arábia antes de domingo, quando acaba o prazo da anistia real que permitiu a regularização de trabalhadores irregulares

Milhares de imigrantes ilegais estão abandonando a Arábia Saudita, rico Eldorado do petróleo, antes de domingo, quando acaba o prazo da anistia real que permitiu a regularização de mais de 4 milhões de trabalhadores irregulares.

A anistia, decretada inicialmente em abril por um período de três meses e depois prolongada por mais quatro, permitiu que 4,045 milhões de estrangeiros ilegais se regularizassem com ajuda de um padrinho empregador, informou à imprensa Ahmed al Humaidan, uma autoridade do Ministério do Trabalho.

O Ministério alertou que a anistia não será prolongada, apesar dos pedidos oficiais de alguns países asiáticos, entre eles Paquistão e Filipinas, para que fosse prolongada até, pelo menos, 31 de janeiro.

“Não temos intenção de prolongar a anistia que acaba domingo”, disse o porta-voz do Ministério saudita do Trabalho, Hattab al-Anzi, citado na quinta-feira pela agência oficial Spa.

Um estrangeiro só pode permanecer no país se tiver um padrinho. Para mudar de emprego ou abandonar o país, é necessário um acordo por escrito com o empregador.

A anistia permitiu aos estrangeiros ilegais que se apresentem às autoridades para serem apadrinhados por um empregador e para obter uma permissão de residência. Caso contrário, são obrigados a abandonar o país e evitar figurar em uma lista negra ou correr o risco de ser condenado a uma pena que pode chegar a dois anos de prisão e multa de 100.000 riales (27.000 dólares).

Cerca de “900.000 estrangeiros abandonaram o reino após obter um visto de saída”, informou o porta-voz do departamento de passaportes, Ahmed Al Lahyadan.


Após a anistia, a repressão

As autoridades sauditas anunciaram que atuarão “com firmeza” contra os milhares de imigrantes que não puderam se beneficiar desta anistia.

Equipes de inspetores, acompanhadas por patrulhas policiais, começarão, a partir de segunda-feira, uma campanha de repressão contra os ilegais, que inclui revistas sem aviso prévio nos locais de trabalho em busca de estrangeiros em situação irregular, segundo os Ministérios de Trabalho e de Interior.

Estas ameaças deixaram praticamente vazios, nas últimas semanas, os locais públicos de Riad onde costumavam se reunir os trabalhadores diaristas à espera de um empregador.

“Aqui, costumávamos esperar centenas de pessoas. Hoje só somos cerca de vinte”, disse Hafez Eddin Shah, que espera na praça Al Salmaniyá, em um bairro do oeste de Riad.

Este motorista paquistanês disse que conseguiu mudar de padrinho, uma operação que custou, segundo ele, 10.000 riales (2.700 dólares).

Contudo, para o etíope Suleiman Ahmed, o sonho está a aponto de acabar. “Paguei 20.000 riales (5.400 dólares) a um padrinho que sumiu. Me arruinou. Tenho que ir (embora)”, lamenta este homem que tentou por duas vezes se instalar no reino petroleiro.

Em julho, a Human Rights Watch pediu a Riad que abolisse o sistema de apadrinhamento dos trabalhadores estrangeiros, fonte de “múltiplos abusos e exploração, em condições, frequentemente similares à escravidão”.

As autoridades esperam que a anistia reduza o número de imigrantes, estimado em cerca de 9 milhões de pessoas, dos 27 milhões de habitantes, para favorecer o trabalho dos sauditas no reino onde a taxa de desemprego se eleva a 12,5%.

Os economistas sauditas minimizaram o impacto na economia local da saída dos trabalhadores ilegais, frequentemente diaristas ou temporários, empregados em trabalhos sem nenhuma qualificação. “É uma mão de obra excedente”, disse à AFP, Abdelwahab Abu Dahesh.

“A saída de um milhão de imigrantes ilegais, que será seguida por outros 500.000 depois da anistia não terá (a longo prazo) consequências na economia saudita”, argumentou.

Já o também economista Ihsan Bu Hulaiga pediu às autoridades que priorizem “a competência e a experiência” para reestruturar o mercado de trabalho.