Um discurso para a história?

Carol Oliveira 

O cenário era o capitólio em Washington, mas poderia muito bem ser algum palanque das primárias republicanas meses atrás. Donald Trump foi oficialmente empossado como 45º presidente da história dos Estados Unidos nesta sexta-feira 20, e em seu primeiro discurso após jurar sobre a bíblia de Abraham Lincoln, repetiu muito do que disse ao longo da campanha: para “colocar a América em primeiro lugar”, quer fechar as fronteiras a pessoas e produtos e proteger os trabalhadores americanos.

Apelando aos eleitores que o elegeram, a classe média branca insatisfeita com a perda de seus empregos, o republicano tentou se mostrar como representante do povo que irá transferir o poder do establishment político de Washington de volta para as pessoas (não à toa, “people” foi uma das palavras mais usadas por ele).  “A riqueza de nossa classe média foi tirada de suas casas e redistribuída ao redor do mundo”, disse.

O presidente citou “fábricas enferrujadas”, “mães e crianças aprisionados na pobreza” nas cidades do centro, um sistema educacional que deixa os jovens “privados de todo o conhecimento” e “os crimes, as gangs e as drogas” que “roubaram do país seu potencial não-realizado”. “Os americanos querem boas escolas para suas crianças, vizinhanças seguras para suas famílias e bons empregos. Essas são demandas razoáveis de um povo justo”, afirmou.

Em cerca de 20 minutos de fala, Trump reforçou que quer trazer de volta empresas americanas produzindo no exterior. “Por décadas, enriquecemos a indústria estrangeira às custas da indústria americana”, disse. “Uma a uma, as fábricas fecharam e deixaram nosso país sem pensar nos milhões e milhões de trabalhadores americanos que foram deixados para trás”. Lembrou também de seus planos de investir em infraestrutura, o que pode ser um gerador de empregos e ser mais um fator que incentive empresas americanas a produzirem em casa.

O republicano também falou sobre os gastos americanos com defesa em outros países, indicando que não deve desistir de seu plano de bater de frente com a Otan, organização militar dos países ocidentais, que chegou a chamar de “obsoleta” em outras declarações. “Defendemos as fronteiras de outras nações enquanto nos recusamos a defender as nossas”.

Mas para o magnata, toda essa lista de erros que, em sua opinião, prejudicaram os americanos, ficará para trás. “Qualquer decisão em comércio, em impostos, em imigração, em relações internacionais, será feita para beneficiar trabalhadores e famílias americanas”, disse. “Precisamos proteger nossas fronteiras da devastação de outros países fazendo nossos produtos, roubando nossas empresas e destruindo nossos empregos”.

Ressentimentos à parte, Trump também agradeceu a Obama e a Michele pela “ajuda” durante a transição. “Vocês foram magníficos”, disse. As autoridades estimam que cerca de 900.000 pessoas compareceram à posse de Trump, ante 1,8 milhão de presentes na primeira posse de Obama, em 2009, e 1 milhão da segunda, em 2013.

As interlinhas
Os discursos de posse, no geral, não são feitos para a apresentação de propostas concretas. Mas podem dizer algumas coisas sobre alguns projetos de governo, mostrar a personalidade e os planos do novo presidente e também representar o momento histórico e os desafios que se apresentam em cada época.

George Washington foi o primeiro presidente americano e também o primeiro a fazer um discurso de posse, em 1789 — a cerimônia aconteceu em Nova York. Após liderar os Estados Unidos nas guerras pela independência, Washington ressaltou na fala os pontos da recém-criada Constituição.

A segunda posse de Abraham Lincoln, em 1865, teve o discurso mais curto de todos: somente 700 palavras. A fala é uma das mais importantes da história americana, pois acontecia às vésperas do fim da Guerra Civil entre o norte e o sul dos Estados Unidos. Lincoln pediu um país “sem maldade, com caridade para todos, e firmeza no direito que Deus nos deu de ver o certo”. O presidente seria assassinado menos de um mês depois.

Em 1933, Franklin Roosevelt assumiu com uma missão dificílima: reviver a economia americana após a crise de 1929. Para esta tarefa nada fácil, invocou uma das frases mais lembradas do século 20. “A única coisa que temos a temer é o próprio medo”.

Outra frase memorável dos discursos inaugurais foi proferida por John Kennedy em 1961: “não pergunte o que seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer por seu país”. Após uma vitória apertada sobre o republicano Richard Nixon, Kennedy pediu a sua equipe um discurso curto. Sendo o presidente mais jovem a assumir o país, com 43 anos, Kennedy representava parte das mudanças pelas quais passava a juventude americana, e seria o presidente a promulgar a lei dos direitos civis — e, mais tarde, seria assassinado por um opositor radical.

Na segunda posse de George W. Bush, em 2005, após os atentados de 11 de setembro em 2001 e um mandato marcado pela invasão no Iraque e a “Guerra ao Terror”, Bush passou todo o discurso lembrando a importância de “proteger” os Estados Unidos e de espalhar os valores americanos pelo mundo. “A sobrevivência da liberdade em nossa terra depende cada vez mais do sucesso da liberdade em outras terras”, disse. Uma mostra dos novos anos de intervencionismo que estavam por vir.

Em 2009, Obama usou seu discurso inaugural para falar sobre Wall Street, após a explosão da crise econômica no ano anterior. “Não há dúvida de que o mercado é uma força para o bem ou para o mal”, disse. “Essa crise nos lembrou de que, sem um olhar atento, o mercado pode sair de controle e que uma nação não pode prosperar quando favorece apenas os mais ricos”. Num cenário econômico desfavorável, Obama também lembrou do “trabalho a ser feito”, e, claro, ressaltou o fato de ser o primeiro presidente negro da história.

No discurso de Trump, nada novo com relação ao que ele já havia apresentado ao longo da campanha. Mas a fala, certamente, reforça o olhar avesso do novo presidente a tudo que vem de fora e reitera seus projetos protecionistas. Resta ver se, de fato, esses planos conseguirão alavancar a economia, agradar a seus eleitores e tornar a América “forte”, “rica” e “orgulhosa”. Se é que um dia de fato deixou de ser.