Um azarão de esquerda na França

Mariana Prado Zanon, de Montpellier

E se o azarão Jean-Luc Mélenchon for o novo presidente da França? Há algumas semanas considerado uma carta fora do baralho, o candidato do Partido de Esquerda registra uma surpreendente performance nas pesquisas de intenção de voto há menos de 15 dias do primeiro turno da eleição, marcada para dia 23. Com 18% ou 19% das intenções de voto, segundo as últimas pesquisas, ele ultrapassou o candidato socialista Benoît Hamon e agora disputa o terceiro lugar direitista François Fillon. Está a quatro pontos de ir para o segundo turno, junto com a ultradireitista Marina Le Pen ou com o centrista Emannuel Macron.

Sua ascensão começou pra valer no dia 18 de março, quando reuniu cerca de 100.000 pessoas em um comício em Paris, na Praça da República. Duas semanas depois, foi o destaque no grande debate televisivo entre os 11 candidatos à presidência assistido por mais de 6 milhões de pessoas.

Com sinal verde para seguir em frente, Mélenchon sobe rapidamente nas pesquisas enquanto os outros candidatos estão estagnados ou caem pouco a pouco. Ainda segundo a empresa de pesquisas POP, Mélenchon liderou as redes sociais no último final de semana com mais de 143.000 citações (sendo 31% positivas, 46% neutras e 23% negativas).
Figura carismática, aguerrido e, ao mesmo tempo, bem humorado, ele conseguiu chamar a atenção do eleitorado em busca de um candidato antissistema, fora dos padrões da política tradicional. Durante o último debate, Mélenchon, ironizou as propostas da líder da extrema-direita Marine Le Pen e alfinetou o rival François Fillon – o que fez rir a plateia –, roubou a cena do popular centrista Emmanuel Macron e teve a irreverência de aplaudir as ideias ultra revolucionarias do candidato anticapitalista Philippe Poutou.

Nascido em 1951 na cidade de Tanger, no Marrocos, Jean-Luc Mélenchon mudou-se para a França com 11 anos de idade. Formado em filosofia, ele foi uma das lideranças do movimento estudantil durante os eventos de maio de 1968. Professor de profissão. Trotskista, foi Ministro da Educação no governo de Lionel Jospin, decidiu sair do Partido Socialista Francês em 2008, para fundar a Partido de Esquerda, do qual é um dos presidentes. Eleito deputado europeu em 2009, Mélenchon foi candidato às eleições presidenciais francesas de 2012, tendo sido o quarto candidato mais votado no primeiro turno com 11% de voz.

Ao 65 anos, ex-parlamentar socialista e crítico ferrenho do presidente François Hollande, ele foi um dos primeiros candidatos a lançar a campanha presidencial. Ao vivo no canal francês TF1, no dia 10 de fevereiro do ano passado, anunciou: “Esta é uma tremenda oportunidade de desfazer os nós que nos paralisam. O interesse geral humano deve prevalecer. A mudança climática já começou, agora é a hora de mudar o modo de produzir e de consumir”. No início da campanha, teve o apoio de seu tradicional eleitorado esquerdista e ganhou espaço na mídia ao utilizar em seu primeiro comício um holograma para estar em Paris e em Lyon ao mesmo tempo.

Alguns meses mais tarde, Mélenchon lançou seu próprio jogo online, o Fiscal Kombat. O game faz apologia ao clássico Mortal Kombat e o único objetivo é recolher 279 bilhões de euros (976 bilhões de reais), o orçamento previsto pelo candidato uma vez no poder. Nas redes sociais, Mélenchon tem 266.000 seguidores no seu canal Youtube e faz vídeos ao vivo frequentes no Facebook.

O programa proposto pelo candidato para a França Insubmissa apresenta dez medidas reformistas e ambiciosas para o país. Em primeiro lugar Mélenchon prevê a revogação da lei El Khomri, apelidada de “lei dos patrões”, que flexibiliza as regras da Lei do Trabalho para encorajar as empresas a contratar. Em seguida, o candidato prevê o aumento do salário mínimo francês de 1.100 euros para 1.300 euros (4.450 reais), a separação dos bancos de investimento e de varejo visando evitar abusos de especulação financeira, o uso de referendos e o direito cidadão de revogar um político eleito reforçando a democracia participativa.

No plano internacional, o candidato recusa participação no TAFTA, acordo de livre comércio entre os Estados Unidos e a União Europeia, e apoia a “refundação democrática” dos tratados europeus propondo dar mais peso às vozes dos cidadãos. Sobre o meio ambiente, ponto forte de sua campanha, prevê a criação de um plano de transição energética, o fim da energia nuclear no país, a introdução da “regra verde” visando diminuir o uso de recursos não renováveis em 38,5 % e a proteção de bens comuns como a água, a terra e o ar.

No plano econômico, “choque de investimento”, “revolução fiscal”, “multiplicador keynesiano” e “estímulo fiscal”, são as palavras de ordem do candidato. Para Michel Rousseau, presidente da Fondation Concorde, um think-tank econômico de cunho liberal, o programa proposto por Mélenchon “baseia-se principalmente em dois pilares: a nacionalização da economia através de gastos públicos e o isolamento econômico”. Segundo Rousseau, Mélenchon quer “impulsionar a economia e o crescimento francês através do efeito multiplicador keynesiano, isso quer dizer que em teoria se o estado investe 1 milhão de euros, ele vai ganhar 2 ou 3 milhões e retorno em receitas fiscais”. Uma teria revolucionaria perigosa que nunca foi testada em uma economia aberta e pode, “além de elevar o déficit do país, isolar a França economicamente e causa desconfiança das instituições internacionais, investidores e países parceiros da UE”.

Se o isolamento econômico aproxima Mélenchon da ultradireitista Marine Le Pen, o discurso social é o oposto. Na reta final da campanha presidencial, no último domingo 9, Mélenchon reuniu cerca 70.000 pessoas no porto central de Marselha, porta de entrada para o país. Mélenchon começou seu discurso pedindo um minuto de silêncio para os 30.000 imigrantes desaparecidos no mar Mediterrâneo e reforçou repudiar qualquer ato de xenofobia relembrando ao povo francês o sofrimento do exílio vivido por aqueles que conseguem chegar vivos à Europa. Ele é inimigo declarado das políticas contra imigração e contra freios ao aquecimento global do presidente americano Donald Trump. Também é um grande crítico das intervenções militares. Mais um tema para colocá-lo do lado oposto de Trump. Se vai ser suficiente para que ele vá ao segundo turno saberemos no dia 23.