Ultra-direita tenta desviar de polêmicas para vencer na Europa

Mesmo com escândalos na Áustria e na França, políticos liderados pelo italiano Matteo Salvini esperam ampliar sua participação no Parlamento europeu

A união faz a força? Para tentar ampliar sua participação no Parlamento europeu, um grupo de políticos nacionalistas de ultra-direita se uniu sob a liderança de Matteo Salvini, primeiro-ministro italiano. Antes das eleições, que começam nesta quinta-feira, 23, e vão até o próximo domingo, 26, escândalos envolvendo aliados da Áustria e França, com suspeita de envolvimento de personalidades estrangeiras dos Estados Unidos e Rússia, abalaram a credibilidade do grupo e deram munição para a oposição atacar.

O principal objetivo dos aliados de Salvini é quebrar a hegemonia do Partido Popular Europeu no Parlamento e se tornar uma das forças dominantes. Em ato no último sábado, em Milão, o primeiro-ministro italiano reuniu diversos políticos do continente para defender sua proposta. Marine Le Pen, deputada do Parlamento e líder da Frente Nacional francesa; Geert Wilders, do Partido da Liberdade Holandês; Anders Vistisen, do Partido Popular dinamarquês e Jörg Meuthen, do alemão Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla original) compareceram e discursaram.

O Partido da Liberdade (FPÖ) austríaco, que era um dos principais aliados do grupo, preferiu não enviar representante depois de um escândalo ter afetado seu político mais importante. O vice-chanceler austríaco, Heinz-Christian Strache, do FPÖ, deixou seu cargo no sábado após divulgação de um vídeo seu oferecendo contratos públicos em troca de apoio financeiro para sua campanha política a uma suposta sobrinha de um milionário russo. O primeiro-ministro da Áustria rompeu sua aliança com o FPÖ, demitiu ministros do partido e adiantou as eleições para setembro. Os efeitos da polêmica afetaram também as eleições europeias, e as intenções de voto para os nacionalistas já diminuíram no país.

Líderes europeus de centro aproveitaram o escândalo nas vésperas do pleito para se beneficiar. A chanceler alemã Angela Merkel, por exemplo, afirmou que os movimentos populistas na Europa “querem destruir os valores do continente. Por isso, o povo precisa se impor de forma enfática”. Merkel, junto com Emmanuel Macron, presidente francês, e Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, são os maiores opositores da ultra-direita hoje.

Macron é um grande defensor da ideia de Europa unida e, desde sua eleição, tenta se impor como um líder continental. As dificuldades internas na França, com os protestos semanais dos Coletes Amarelos, contudo, afetam sua popularidade. O partido de Le Pen, sua adversária na eleição presidencial, tem mais intenções de voto para o Parlamento que o seu, o que mostra o desgaste de sua imagem internamente. Pesa contra ela a suspeita de interferência em sua campanha de Steve Bannon, ex-conselheiro de Trump e uma espécie de guru da extrema direita global.

A aproximação de Salvini e Le Pen com a Rússia e seu presidente, Vladimir Putin, também preocupa alguns eleitores dos países do leste europeu, que, apesar do viés ultra-direitista, não veem com bons olhos o vínculo com os russos.

Mesmo com as divergências internas, analistas esperam que a aliança da direita leve cerca de 180 assentos dos 751 do Parlamento na eleição, o que dificultará a vida de Macron, Merkel e seus aliados no bloco europeu. A menos que as recentes polêmicas tenham um efeito maior do que o esperado nas urnas. No atual cenário europeu, tudo é possível.