Última clínica que faz abortos no Missouri pode ser fechada no sábado

O Missouri pode se tornar a partir de sábado o primeiro estado dos Estados Unidos sem acesso ao aborto legalizado

St. Louis — O médico David Eisenberg teve uma reunião esta semana com 50 pacientes que querem interromper a gravidez em St. Louis, mas, pela primeira vez desde que os Estados Unidos legalizaram a prática, em 1973, não pôde dizer que garantirá acesso a um procedimento legal e seguro no Missouri, na região central do país, já que a clínica que dirige pode não funcionar mais a partir deste sábado.

Eisenberg é diretor da única clínica que ainda faz o procedimento no estado, uma casa de tijolos brancos, com janelas de madeira e um detector de metais e que recebe mensalmente dezenas de mulheres que viajam até lá.

Caso uma ordem judicial não se sobreponha, o Missouri se tornará a partir de sábado o primeiro estado dos EUA sem acesso ao aborto legalizado, por conta da recusa das autoridades em renovar uma licença que vence nesta sexta-feira.

“Tenho que explicar que não sabemos se vamos poder realizar o aborto delas na semana que vem”, lamentou Eisenberg em entrevista à Agência Efe na clínica de serviços de saúde reprodutiva da Planned Parenthood, na cidade de St. Louis.

Para ele, o aborto é um “serviço de saúde básica”, mas seu posicionamento é algo quase incendiário em um estado que há anos vem minando o acesso a esse procedimento e cujo governador, o republicano Mike Parson, acaba de assinar uma lei para proibi-lo em praticamente todos os casos, incluindo estupro e incesto.

“O estado do Missouri está liderando a ofensiva para que as mulheres deixem de ser membros igualitários da sociedade e ele possa controlar os seus corpos e a sua reprodução”, afirmou o médico.

Fazer um aborto no Missouri é uma odisseia repleta de rígidos requisitos legais tanto para as pacientes quanto para as clínicas, que foram fechando as portas uma a uma nas últimas duas décadas diante da impossibilidade de demonstrar, por exemplo, que seus médicos tinham vínculos com os hospitais locais, inexistentes nas áreas rurais.

Agora, o estado investiga supostas “práticas deficitárias” na clínica, que desde 2015 é o último reduto do aborto legalizado do estado, e se nega a renovar a licença enquanto não entrevistar todos os médicos que trabalham ali, o que alguns rejeitam porque poderiam ser expostos a acusações criminais.

“O estado não está interessado em verificar se os cuidados que proporcionamos são legais e seguros. A lei que o governador acaba de assinar prova isso. O que eles querem é regular os corpos das mulheres”, ressaltou Eisenberg, que participou da entrevista oficial, mas que não quis dar detalhes sobre o que foi abordado.

No portão de entrada da clínica, uma jovem de olhos azuis e colete laranja faz com precisão seu trabalho de todo dia. Ela se aproxima e sinaliza com um gesto amável, mas firme, para os carros que vão entrar no estacionamento para que parem e, se consegue, tentar convencer a ocupante a não interromper a gravidez.

“Muita gente, quando chega, acha que esses voluntários trabalham com a Planned Parenthood, mas não têm nada a ver. Eles intimidam, na verdade”, explicou Carl Gudiswitz à Efe.

Aos 79 anos, Gudiswitz vive toda quarta-feira uma queda de braço pacífica com os ativistas contrários ao aborto. Vestido com um colete colorido, no qual se lê “segurança da clínica”, ele também fica na entrada do centro movimentando os braços para indicar às pacientes que é ele, e não os do colete laranja, que ajudará a pessoa a entrar.

“Ninguém deveria gritar ou julgar as mulheres que solicitam serviços básicos de saúde. Também sou julgado e isso me afeta. Ouço gritarem coisas horríveis para mim e sabia que ia viver isso neste trabalho, porque fui segurança voluntário de uma clínica quando estudava na Universidade do Alabama. Mas os pacientes que chegam não esperam essa ‘recepção’ e é exatamente isso que me deixa indignado”, disse Gudiswitz sobre os ativistas pró-vida.

Os manifestantes de coletes laranja inicialmente não queriam falar com a reportagem. Mas, na esquina da clínica, Reagan Barklage grita, com força: “O aborto tem que acabar!”.

Aos 27 anos, ela é diretora regional da organização Estudantes pela Vida, que está programando para semana que vem um protesto na porta da clínica para comemorar a provável perda da licença de funcionamento.

“Todas as vidas são valiosas, não importa como foram concebidas”, argumentou Barklage, que é contrária ao aborto, inclusive em casos de estupro ou incesto, mas que se atrapalha ao tentar justificar a ideia.

Enquanto sonha com o dia em que a onda de leis aprovadas em vários estados levem o Supremo americano a revisar a legalização do aborto no país, Eisenberg só consegue pensar no quão vil será, a partir de sábado, a vida das mulheres do Missouri que, se quiserem fazer o procedimento, terão que ir para outro estado para interromper a gestação.

“As que mais vão sofrer com isso são as que não têm meios, as mais vulneráveis”, alertou o médico.