Trump vs. Hillary, o primeiro round

Sérgio Teixeira Jr,. de Nova York

Depois de meses de espera, acontece na segunda-feira o primeiro debate entre Hillary Clinton e Donald Trump. Os candidatos à Presidência dos Estados Unidos se enfrentam cara a cara na Universidade Hofstra, no estado de Nova York, e a expectativa é que cerca de 100 milhões de americanos acompanhem o confronto pela TV, uma audiência comparável à das fases finais do campeonato de basquete da NBA e potencialmente o maior evento político televisionado da história do país.

Não se ganha uma eleição num debate, mas certamente dá para perdê-la, como diz a máxima dos políticos – e o desempenho dos adversários pode determinar os rumos da campanha até 6 de novembro, quando os americanos vão às urnas. Depois de uma queda significativa durante as férias de verão, no mês de agosto, Trump vem ganhando terreno contra Hillary nas pesquisas mais recentes. Segundo uma média computada pelo site Real Clear Politics, a democrata tem 46,2% das intenções de voto, contra 43,2% do republicano. Embora as projeções indiquem favoritismo de Hillary no Colégio Eleitoral, muita coisa pode mudar nas próximas seis semanas – e o primeiro debate pode ser um evento decisivo na reta final.

Com a experiência de dezenas de debates, a democrata Hillary Clinton começou sua preparação intensiva nesta sexta-feira, participando de simulações e treinando perguntas e respostas com seus assessores num cenário parecido com o de segunda-feira. Donald Trump, do Partido Republicano, prefere improvisar. Segundo relatos de pessoas próximas ao empresário, ele tem dado pouca atenção ao material preparatório e se recusa a ensaiar num púlpito e a treinar respostas com tempo contado, mesmo que esta seja a primeira vez que ele participa de um debate um a um. Ele é Donald Trump, afinal de contas: o candidato que venceu as primárias contra nomes tradicionais da política falando o que bem entendesse, quando bem entendesse, escolhendo as palavras que bem entendesse.

A expectativa é que Hillary Clinton provoque Trump, com o objetivo de que ele responda de forma estabanada ou mostre ser, como gostam de dizer os americanos, “pouco presidencial”. É muito provável que ela mencione os comentários anti-imigrantes feitos pelo empresário nova-iorquino durante a campanha (ele chamou os mexicanos de criminosos e estupradores) e também as declarações ofensivas que ele fez contra os pais de Humayun Khan, um soldado americano e muçulmano que morreu num ataque suicida quando servia no Iraque. Outro ponto que deve ser levantado pela democrata é o fato de que Donald Trump até agora se recusa a divulgar sua declaração de renda detalhada. Para a campanha de Hillary, o contraste entre uma candidata contida e sob controle e um político inexperiente e dado a declarações espalhafatosas e irrefletidas será uma vitória.

Não faltam opções de ataque para Hillary Clinton, mas ela também terá de estar preparada para jogar na defesa. Trump vai inevitavelmente mencionar o uso de um servidor privado de emails quando Hillary era secretária de Estado – depois de uma longa investigação, a candidata não foi indiciada, mas o FBI disse que a candidata foi “extremamente negligente” ao não utilizar o sistema de emails oficial do governo. O estado de saúde de Hillary Clinton também vai ser assunto obrigatório para Trump. Um vídeo gravado em 11 de setembro mostrou a candidata sendo carregada para dentro de uma van, e sua médica particular afirmou que Hillary estava sendo tratada de pneumonia e desidratação. O argumento implícito de Trump, mesmo que ele não use essas palavras, é que a ex-primeira-dama, a um mês de completar 69 anos, não teria condições físicas de exercer a Presidência.

Donald Trump participou somente dos debates das primárias do Partido Republicano, muitas vezes com diversos adversário no palco e menos oportunidades para falar. Com sua insistência em evitar a preparação tradicional – que envolve uma simulação de um debate completo, com uma pessoa fazendo o papel de Hillary–, alguns de seus assessores temem que ele esteja subestimando o desafio de manter-se atento e focado durante 90 minutos, segundo uma reportagem do The New York Times.

Outra dúvida essencial, e que só será respondida quando o debate começar, será a postura de Trump. Em seus comícios ele tem menosprezado Hillary e recentemente fez piada com a recuperação da pneumonia de que sofria a adversária. Somem-se a isso seus comentários misóginos do passado recente, e é real o risco de que Trump deixe passar uma ótima oportunidade para projetar uma imagem de autocontrole e confiança. “Se ela me tratar com respeito, vou tratá-la com respeito. Depende. As pessoas me perguntam: ‘Ah, você vai fazer isso e aquilo’. Realmente não sei. Você tem de sentir no momento”, disse Trump numa entrevista esta semana.

A terceira pessoa a receber atenção desmedida na noite de segunda é o moderador do debate, o jornalista Lester Holt. Holt, âncora do telejornal noturno da rede NBC, moderou somente um dos debates entre os candidatos democratas. Mas ele é considerado um jornalista experiente e seu nome foi escolhido pela Comissão de Debates Presidenciais, o órgão que realiza os embates diretos entre os candidatos (além do debate de segunda, haverá dois outros, nos dias 9 e 19 de outubro, além de um confronto entre os candidatos a vice, em 4 de outubro).

O debate terá duração total de uma hora e meia, dividida em seis partes de 15 minutos. Holt abre cada segmento com uma pergunta, que será respondida pelos dois candidatos. Depois, Trump e Hillary terão a oportunidade de fazer perguntas entre si. A escolha dos temas das questões cabe a Holt, e ele anunciou que os tópicos serão: “A direção dos Estados Unidos”, “Alcançar a prosperidade” e “Garantindo a segurança dos Estados Unidos”, segundo a comissão organizadora. O debate começa às 22h (horário de Brasília) e será transmitido pelo canal por assinatura CNN.