Kim Jong-un e Maduro fisgaram o “peixão” Donald Trump

O sonho de todo tirano ou líder populista é ser notado pelos governantes das grandes potências

Lourival Sant’Anna

O sonho de todo tirano ou líder populista — que nada mais é que um aprendiz de tirano — é ser notado pelos governantes das grandes potências. Alguns, como os sucessivos reis da Arábia Saudita e o falecido xá Reza Pahlev do Irã, conseguiram isso como aliados dos Estados Unidos. Outros o tentaram desafiando presidentes americanos, como Fidel Castro em Cuba e Mahmud Ahmadinejad no Irã (com certo êxito), e Hugo Chávez na Venezuela (sem sucesso). Saddam Hussein no Iraque viveu as duas experiências.

Kim Jong-un, o jovem herdeiro da dinastia comunista norte-coreana, de 34 anos, vinha tentando isso em vão desde sua chegada ao poder, em dezembro de 2011. Na última semana, Jong-un finalmente conseguiu arrastar um presidente americano para um bate-boca.

O tema da disputa: quem tem mais coragem de disparar armas nucleares. E o mundo, antes preocupado apenas com a personalidade instável de Jong-un, agora divide suas atenções com a impulsividade de Donald Trump.

É preciso reconhecer que Jong-un trabalhou duro para isso. No dia 4 de julho, quando os EUA comemoram sua independência, a Coreia do Norte testou seu novo míssil intercontinental, o Hwasong-14. Festejou o fato de que ele poderia atingir “o coração dos Estados Unidos” transportando ogivas nucleares.

Jong-un tripudiou: “É um presente de dia da independência”. Era, também, um blefe: segundo os especialistas, o programa estava avançando muito depressa, mas os norte-coreanos ainda não tinham chegado ao continente americano.

No dia 28, novo teste. O míssil propositalmente subiu muito antes de descer, para mostrar seu alcance sem ameaçar de fato o território americano. E aí, sim: pelos cálculos dos técnicos, ele poderia ter atingido grandes cidades da Costa Oeste americana, distantes de 9 a 10 mil km da Península da Coreia.

Ainda faltam duas coisas: miniaturizar as ogivas para encaixá-las nesses mísseis e melhorar sua estrutura, para não serem incinerados ao voltar para a atmosfera. Mas foi mais um avanço notável. A Agência de Inteligência de Defesa americana estima que eles consigam dentro de um ano.

Trump respondeu com o fígado. Em um evento na terça-feira 8, dedicado ao problema do abuso de opioides, o presidente abandonou o discurso sobre o tema de saúde pública, preparado pelos seus assessores, e falou de improviso sobre os norte-coreanos: “Eles enfrentarão fogo e fúria como o mundo nunca viu”.

O mundo também nunca tinha visto um presidente americano falar dessa forma, nem abordar esse tema sem antes ouvir seus secretários de Defesa e de Estado, seu conselheiro de Segurança Nacional e seus assessores de comunicação.

O presidente foi no dia seguinte ao Twitter, explicar suas afirmações. Em resumo, ele repetiu que prefere o mundo desnuclearizado, e que a maior ameaça não é o aquecimento global, como afirmara seu antecessor, Barack Obama, mas as armas nucleares. Entretanto, enquanto isso não acontecer, “ninguém, incluindo a Coreia do Norte, vai nos ameaçar com o que quer que seja”.

Mas o estrago estava feito. Enquanto os americanos criticavam o “destempero” de Trump, os norte-coreanos se regozijavam, como um pescador ao fisgar um peixe grande. Na quinta-feira, o general Kim Rak-gyom, comandante da Força Estratégica do Exército Popular Coreano, declarou, sobre Trump: “Um diálogo efetivo não é possível com alguém privado de razão, e só a força absoluta pode funcionar com ele”. O general chamou a frase de Trump de “uma carga de non-sense” e observou que o presidente, que está em férias, passa todo o seu tempo em campos de golfe, e não consegue “entender a gravidade da situação”.

O comandante anunciou planos de lançar em meados deste mês quatro mísseis contra a costa de Guam, território americano situado no Pacífico Ocidental, a 4 mil km da Coreia. Segundo o general, esse “ataque envolvente” empregará quatro mísseis de alcance intermediário Hwasong-12, que sobrevoarão os municípios de Shimane, Hiroshima e Koichi antes de cair no oceano, a uma distância de 30 a 40 km da costa de Guam.

Duas novidades nesse anúncio: seria a primeira vez que mísseis norte-coreanos invadiriam o espaço aéreo japonês, embora já tenham caído várias vezes no mar territorial do arquipélago; além disso, Pyongyang nunca havia antecipado uma ação militar com tamanha precisão de detalhes.

Incidentalmente, é bom observar que a Coreia do Norte não apresenta suas ameaças da forma gratuita como às vezes pode parecer. O país se declara ameaçado por manobras conjuntas realizadas periodicamente pelos Estados Unidos com a Coreia do Sul e/ou com o Japão, com os quais mantêm pactos de defesa mútua, e pela presença de baterias de mísseis e de 28 mil soldados americanos no território sul-coreano.

Trump considerou a ameaça contra Guam “uma mudança no jogo”, e se defendeu das acusações de falta de temperança: “Francamente, as pessoas que estavam questionando aquela declaração… foi dura demais? Talvez não tenha sido dura o bastante. Eles vêm fazendo isso ao nosso país há muito tempo, e chegou a hora de alguém fazer algo pelo povo deste e de outros países”.

Trump assegurou que não deixará que Kim Jong-un ameace os EUA, o Japão ou a Coreia do Norte. Ele disse que o governo americano está avaliando sua situação militar na Ásia, e completou: “Estamos nos preparando para muitos eventos alternativos diferentes”. Isso inclui aumentar em “muitos bilhões de dólares” o orçamento de baterias de interceptação de mísseis.

As declarações foram dadas à imprensa em Bedminster, Nova Jersey, onde o presidente descansa em um de seus campos de golfe. Ele estava reunido com o vice-presidente Mike Pence, o diretor da CIA, Mike Pompeo, o conselheiro de Segurança Nacional, general Herbert Raymond McMaster, e o assessor de Segurança Interna Tom Bossert, entre outros.

Na sexta-feira, no mesmo local, Trump acrescentou mais um alvo a sua beligerância. “Temos muitas opções para a Venezuela, incluindo uma possível opção militar, se necessário”, disse ele aos repórteres. À pergunta sobre se essa eventual ação seria liderada pelos EUA, ele respondeu: “Não falamos disso. Mas uma operação militar é certamente algo que poderíamos levar adiante”. Nicolás Maduro também adorou: ele acabava de superar seu tutor, Hugo Chávez. Nem quando disse que a tribuna da Assembleia Geral da ONU cheirava a enxofre, e chamou de “diabo” o então presidente americano George Bush, que havia acabado de discursar, Chávez conseguiu arrancar uma resposta.

O código Trump

Os políticos americanos têm uma expressão, que costumam adotar como regra de conduta: “Não vou dignificar isso com uma resposta”. Trump não é um político.

A natureza militar de suas reações à Coreia do Norte — e agora à Venezuela — na última semana contrasta fortemente com a linha adotada até o fim de semana passado, quando o governo americano estava festejando sua mais recente vitória diplomática: a aprovação, no Conselho de Segurança da ONU, das mais duras sanções contra um país nas últimas décadas.

Depois de negociar exaustivamente com a China e a Rússia, para evitar que exercessem seu poder de veto, os americanos obtiveram a aprovação da proibição da compra de carvão, ferro, chumbo e frutos do mar da Coreia do Norte. Juntos, esses produtos representam um terço das exportações do país, ou 1 bilhão de dólares.

As sanções impedem também a contratação, por outros países, de trabalhadores norte-coreanos — outra importante fonte de receita do regime. E impõem limites a joint ventures com empresas de outros países, e ao seu financiamento.

O gesto da China de não vetar essa resolução foi uma demonstração de boa vontade, que o próprio Trump acolheu, dizendo-se encorajado a buscar uma saída negociada para a crise. Sem a ajuda econômica e a proteção política da China, o regime norte-coreano provavelmente já teria desmoronado.

Na sexta-feira, depois de uma semana de bate-boca entre Trump e os representantes de Jong-un, Pequim pediu cautela: “A China espera que todas as partes relevantes sejam cuidadosas em suas palavras e ações, e façam coisas que ajudem a aliviar as tensões e a elevar a confiança mútua, em vez de trilhar o velho caminho de fazer curvas para mostrar força, e de aumentar as tensões”, disse o porta-voz da chancelaria, Geng Shuang.

O regime chinês usa o jornal Global Times para dar seus recados mais duros. Em editorial, o jornal aconselhou o governo chinês a “responder com mão firme” se as ações dos EUA e da Coreia do Norte “prejudicarem os interesses da China”.

O jornal continua: “A China deveria deixar claro que se a Coreia do Norte lançar mísseis que ameacem o solo americano e os EUA retaliarem, a China permanecerá neutra. Se os EUA e a Coreia do Sul lançarem ataques e tentarem derrubar o regime norte-coreano, a China os impedirá”.

As provocações da Coreia do Norte não agradam a China, porque oferecem aos EUA justificativas para reforçar sua presença militar na região. Entretanto, a China, assim como a Rússia, que também tem uma pequena fronteira com a Coreia do Norte, consideram que a queda do regime comunista levaria à unificação da península sob o governo da Coreia do Sul — criando assim uma vizinhança incômoda com um aliado dos EUA.

Diante desse dilema, analistas consideram que o governo americano deveria oferecer garantias convincentes à China de que retirariam suas tropas, baterias de mísseis, navios e outros equipamentos militares da península e arredores. Entretanto, há uma clara resistência de parte do establishment de defesa americano de abrir mão de sua projeção sobre essa região.

Agora, o presidente Trump, que enfrenta sérios problemas políticos internos, parece estar assumindo essa briga para si, até como forma de desviar a atenção e de angariar apoio.

Também com relação à Venezuela, o governo americano seguia até aqui uma linha relativamente cautelosa. Adotou apenas sanções individuais contra o presidente Nicolás Maduro e outros 13 funcionários do governo. Nem mesmo a discussão de um embargo do petróleo venezuelano — do qual os EUA são os maiores importadores, com 700.000 barris diários — avançou.

O que assusta uma parte dos americanos — em geral aqueles que não votaram no presidente — é que eles parecem estar reencontrando uma faceta de Trump que conheceram durante a campanha do ano passado, e que foi revelada por anúncios de sua rival democrata, Hillary Clinton.

Em um desses anúncios, um oficial da reserva chamado Bruce Blair, que durante muito tempo operou o arsenal nuclear, dizia-se preocupado com a falta de auto-controle do candidato.

Na sequência, eram mostradas gravações de Trump em seus comícios, dizendo frases do tipo: “Eu os bombardearia até arrancar as tripas deles. Eu quero ser imprevisível. Eu amo guerra”. Em outras ocasiões, Trump questionou por que não se podia usar as armas nucleares: “Para que fazemos, se não podemos usar?”

Ao final, o oficial dizia: “A ideia de Donald Trump com armas nucleares me mata de medo. Deveria matar todo mundo”. Uma pesquisa encomendada pela Fox News em outubro revelou que 57% dos eleitores confiavam mais em Hillary, ante 31% em Trump. Mas outras razões levaram esses mesmos eleitores a escolher o candidato republicano. E, mesmo nesse caso, sua forma de falar lhes inspira sinceridade e firmeza.

Fred Doucette, vice-líder da maioria republicana na Assembleia Legislativa de New Hampshire, e veterano da Marinha, disse ao jornal The Washington Post: “O presidente falou na linguagem que Kim Jong-un entende, e pessoalmente acho que eles deviam seguir em frente com isso e mostrar para eles que estamos falando sério”.

Trump não está sozinho. E precisa mais que nunca do apoio de americanos como esse.

Comentários

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  1. Alessandro Carvajal

    Costumo ler esse site, pois considero uma boa fonte de economia, e costuma ser imparcial com notícias políticas. Porém afirmar que “todo lider populista é um aprendiz de tirano” é além de informação inverdadeira, de mal tom. Perde-se a imparcialidade que a matéria deveria ter.

  2. Trump adora aparecer n televisão, fazendo caras e bocas. Um verdadeiro palhaço. Devia se preocupar mais com a previdência social norte-americana, que tem um passivo absurdo e que aumenta a cada ano… Dentro em breve, os aposentados não receberão seus beneficios, por falta de recursos do governo, que os utilizou indevidamente em guerras de expansão… Este passivo total está calculado em 61 TRILHÕES DE DÓLARES… a não ser que Rothschild continue a imprimir “papel pintado”… mas parece que o mesmo já está se bandeando para a China e para moeda eletronica via blockchaim…inclusive já criou uma empresa para isso-na China… povo norte-americano deve se preparar para uma grande quebra na moeda “nacional-privada”…