Trump ganha, Le Pen vibra

Mariana Prado Zanon, de Montpellier

A vitória de Donald Trump nos Estados Unidos na manhã desta quarta-feira é mais uma lembrança, como fora o Brexit, de que o impossível não existe na política dos dias de hoje. Com o republicano — defensor de um controle severo de imigração e de barreiras comerciais — na Casa Branca, há motivos para acreditar que veremos a candidata de extrema-direita Marine Le Pen, da Frente Nacional, também no Palácio do Eliseu em maio de 2017? A depender das reações da classe política francesa, a chance é cada vez maior.

Marine Le Pen está mais confiante do que nunca para conquistar a presidência francesa em 2017. Os analistas políticos franceses acreditam que se as primeiras medidas de Trump forem bem aceitas pela comunidade internacional e pelo povo americano, então a Frente Nacional estará com a faca e o queijo camembert na mão contra seus adversários pela presidência. Segundo a pesquisa mais recente, realizada em setembro, Le Pen aparece com 28% das intenções de voto, o que a colocaria no segundo-turno contra o ex-primeiro ministro Alain Juppé, pré-candidato do partido de centro-direita Democratas.

Enquanto a maioria dos principais políticos franceses criticou Trump durante a campanha eleitoral americana, a Frente Nacional apoiou publicamente o candidato republicano. O partido de extrema-direita também apoiou a decisão do Reino Unido em votar por sua saída da União Europeia e defende um plebiscito similar na França.

A vice-presidente do partido Frente Nacional recebeu abertamente a vitória de Donald Trump e foi a primeira a se manifestar publicamente sobre o pleito – antes mesmo de a parada estar oficialmente resolvida. Logo cedo, Marine publicou em sua conta no Twitter: “Parabéns ao novo presidente dos Estados Unidos Donald Trump e ao povo americano, livre”. Jean-Marie Le Pen, pai de Marine e presidente do partido, publicou em seguida: “Os americanos querem Donald Trump o ‘Presidente do Povo’. Hoje, os Estados Unidos! França, amanhã! Parabéns!”.

Em uma lógica própria, a candidata afirmou, em entrevista para a rádio RTL nesta quarta-feira, que a França deve seguir o mesmo caminho político dos Estados Unidos e da Inglaterra para não ficar sozinha. Votar diferentemente desses países seria, segundo ela, “isolar a França e fechar as portas para o resto do mundo” — embora tudo o que defenda seja o isolacionismo francês.

Marine Le Pen também encarregou seu assessor para assuntos europeus, Ludovic de Danne, a transmitir as suas felicitações ao vencedor da eleição presidencial dos EUA. Para ela, Trump se torna uma espécie de amuleto e de modelo a ser seguido nas eleições presidenciais francesas do ano que vem. Estariam ataques sexuais e elogios a Vladmir Putin no pacote?

Do outro lado, com medo que a extrema-direita ganhe força, Alain Juppé, dos Democratas, fez questão de se manifestar nesta quarta-feira. “Eu não quero que a França siga o caminho do extremismo e da demagogia. Por isso que agora, mais do que nunca, é preciso criar uma movimento capaz de bloquear a Frente Nacional”, afirmou em entrevista. A boa notícia, para ele, é que Hillary Clinton virou um modelo a não ser seguido.

Ideia parecida tem Jean-Christophe Cambadélis, líder do Partido Socialista, passou a conclamar uma união partidária de esquerda para barrar as chances de Le Pen. “A esquerda está avisada! Continuemos nossas brincadeirinhas infantis e será Marine Le Pen”, escreveu no Twitter.

O presidente da França, François Hollande — que é pré-candidato à reeleição, apesar das poucas chances de vencer —, garantiu que Paris trabalhará com Washington, mas chamou a atenção para as “incertezas provocadas pela desordem do mundo”.

Hollande mencionou a luta contra o terrorismo, a economia e a preservação ambiental como temas prioritários a serem tratados com Donald Trump. Para o francês, que se manifestou a favor de Hillary Clinton, “o novo contexto provocado pela eleição americana exige mais do que nunca que a França seja forte”.

Um pouco menos alarmista, a ex-ministra da Justiça Elisabeth Guigou conclamou a população francesa, em vez dos líderes dos outros partidos. “Nós deveríamos parar de pensar que ‘isso nunca vai acontecer conosco’ e aprender com o que aconteceu nos Estados Unidos. O que parecia impossível e impensável pode acontecer com a gente”. É esperar para ver se a história se repetirá.