Três anos depois da queda de Kadafi, Líbia afunda no caos

Três anos depois da queda do regime do ditador Muammar Kadafi, a primavera árabe nunca chegou à Líbia, que afunda cada vez mais no caos

Trípoli – A Líbia viveu um ano de violência, desintegração institucional e ruptura do país em várias sentidos, mas o petróleo, única fonte de renda, voltou a ser extraído a níveis aceitáveis e a ser exportado.

Três anos depois da queda do regime do ditador Muammar Kadafi, a primavera árabe nunca chegou à Líbia, que afunda cada vez mais no caos.

A já frágil situação do país, com várias milícias disputando o controle de diferentes províncias ou cidades nos últimos dois anos, degenerou em fevereiro, quando o Parlamento provisório se negou a se dissolver, o que obrigou a antecipação das eleições para julho.

Essas eleições, apoiadas pela comunidade internacional, coincidiram com um aumento da violência que obrigou a evacuação de quase todas as embaixadas de Trípoli, ao mesmo tempo que entrava em cena um general reformado, Khalifa Hafter.

Hafter, que liderou ataques armados em Benghazi contra o Governo de Trípoli, começou uma sangrenta luta contra as milícias islâmicas, na qual foi apoiado veladamente por Egito e Emirados Árabes Unidos, segundo acusações do Governo.

A entrada de Hafter em cena não mudou muito as coisas, apenas resultou em uma parcial ruptura territorial entre Benghazi e Trípoli.

Após vários meses de combates, Benghazi continua sendo disputada bairro a bairro entre os fiéis a Hafter e as milícias islâmicas, que só em novembro deixaram 350 mortos.

As eleições de julho poderiam ter trazido estabilidade se os resultados fossem aceitos por todas as partes.

No entanto, à parte de uma “comunidade internacional” cada vez mais impotente, o Parlamento e o Executivo de Trípoli se negaram a se dissolver após o pleito e o país passou a viver uma situação de dupla governança.

Como sinal da deterioração da Líbia, o novo Parlamento, chamado Congresso dos Deputados, teve que escolher uma sede alternativa a Trípoli, sem ser Benghazi devido à insegurança.

O destino foi o extremo leste do país, na cidade de Tobruk, onde as sessões começaram a ser realizadas em um hotel desde que foi nomeado um novo primeiro-ministro, Abdullah al Thani.

Uma nova mudança dramática ocorreu em 6 de novembro, quando a Suprema Corte considerou inconstitucional o novo Parlamento de Tobruk, especificamente por se reunir em um local inapto, e deslegitimou todas as decisões tomadas por essa Casa.

Três dias depois, quando o enviado especial da ONU Bernardino León se reuniu com Thani para estudar uma saída para a situação, dois carros-bomba explodiram no local, teoricamente secreto, onde ambos estavam.

León e Thani não sofreram ferimentos e nunca se soube quem foi o responsável pelo ataque, mas o incidente evidenciou a capacidade de infiltração de algumas milícias.

León sempre ressaltou que nem ele nem a comunidade internacional podem trazer soluções para todos os problemas da Líbia e que cabe aos líbios encontrar a saída para seus problemas mediante o diálogo.

O enviado da ONU alertou sobre uma eventual tomada da Líbia por grupos terroristas internacionais.

Embora os combates na Líbia aparentem ser obra de grupos com objetivos principalmente “locais”, em outubro circularam imagens de milicianos que tomaram o controle da cidade de Darna em nome do Estado Islâmico, carregando as mesmas bandeiras negras que espalham o terror pelo Iraque e pela Síria.

A produção do petróleo, única riqueza do país, caiu para 200 mil barris diários, muito longe do número recorde de 1,6 milhão conseguido na época de Kadafi. No entanto, a quantidade subiu ao longo do ano, chegando aos 800 mil diários.

Os contínuos ataques aos poços, como os de Al Sharara (o maior do país, operado por um consórcio com a participação da Repsol) e Al Fil, assim como de Sirte, principal plataforma de exportação do petróleo, fizeram a produção e a saída do petróleo do país serem interrompidas em várias ocasiões.

A Instituição Nacional de Petróleo controla a venda e exportação da commodity e tem sede em Trípoli.

A renda vai para o Banco Central, cujo presidente Saddik Lakbir – que passa a maior parte do tempo fora do país, em Malta – tenta manter a imparcialidade da instituição.

O Parlamento líbio tentou obstruir o trabalho de Lakbir, mas o banco reagiu lembrando que se trata de uma instituição independente de qualquer mudança de agendas políticas.

Por isso, o ministro do Petróleo (do Governo de Trípoli) Machaalah Zaui afirmou que será criada outra instituição paralela. O novo órgão se encarregará de vender e exportar o petróleo cru líbio, o que deverá trazer ainda mais confusão para o caos.