Três anos após surto de fome, crise alimentar ameaça Somália

ONU afirmou que mais de um milhão de pessoas no país arrasado pela guerra penam para obter suas necessidades nutricionais diárias

Mogadíscio – Quando as forças de paz africanas e os soldados somalis lançaram uma ofensiva contra militantes islâmicos na cidade litorânea de Marka, Rukia Nur e seus dez filhos se juntaram às milhares de pessoas que fugiram para a capital da Somália nos últimos meses.

Agora eles têm como lar um vasto campo nos arredores de Mogadício, local que está no cerne de uma crise alimentar crescente três anos depois do surto de fome devastador de 2011.

A Organização das Nações Unidas (ONU) afirmou este mês que mais de um milhão de pessoas no país arrasado pela guerra penam para obter suas necessidades nutricionais diárias. As cerca de 130 mil pessoas deslocadas só neste ano estão sofrendo o pior da crise.

“A vida está terrível. Estamos famintos”, disse Nur em meio às ruas poeirentas e aos abrigos estropiados onde sua família vive sem qualquer conforto. “Não há banheiros aqui. Temos que enterrar as fezes das crianças na areia, como gatos”.

O êxodo humano e as poucas chuvas ameaçam uma nova crise na Somália e abalam o compromisso do governo de estabelecer a ordem depois de duas décadas de caos e conflito.

O momento também sublinha os desafios da força pacificadora de 22 mil soldados da União Africana e do Exército somali, que expulsaram os rebeldes do grupo Al Shabaab de mais cidades, mas sofrem para proteger as rotas de suprimento dos ataques da guerrilha.

Os mercados estão vazios, e moradores como Nur têm poucas opções além de fugir.

Rudi Van Aaken, chefe do escritório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) na Somália, afirmou que muitas das cidades reconquistadas ficaram isoladas, de forma que os preços dos alimentos muitas vezes duplicam. Em Baidoa, um grande centro urbano, eles quadruplicaram.

“O tráfego comercial simplesmente não está acontecendo”, disse.

Cidades-fantasma

Em Shabelle, região ao sul de Mogadíscio fortemente afetada, o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (PMA) tem enviado rações de emergência por helicóptero, mas só cobre necessidades básicas.

As tropas africanas, ainda a espinha dorsal da segurança para o governo, declararam estar trabalhando para que a ofensiva não deixe “cidades-fantasma”, mas que as estradas ruins são alvos fáceis para os guerrilheiros experientes e habilidosos do Al Shabaab.

Em agosto, o coordenador humanitário da ONU para a Somália disse que a desnutrição, que aumenta em ritmo acelerado, e a escassez de alimentos em todo o país lembram os alertas que antecederam a grande fome de 2011, durante a qual cerca de 260 mil pessoas morreram.

Os centros de refeições quentes da PMA em Mogadíscio agora recebem 10 mil visitantes a mais a cada mês em comparação a junho, e estão tratando de desnutrição aguda mais 12 mil crianças, grávidas e mães amamentando.

A estimativa é que uma de cada sete crianças com menos de cinco anos sofre de desnutrição aguda, e mais de 2,1 milhão de outras pessoas estão vulneráveis.