Tragédia sul-coreana 

Se a política brasileira está caótica, a Coreia do Sul, 4ª maior economia da Ásia, não fica atrás. Ontem, a Assembleia Nacional, equivalente à Câmara de Deputados, deu entrada a um processo de impeachment da presidente Park Geun-hye. Hoje, os parlamentares aprovaram o plano, e o primeiro-ministro Hwang Kyo-ahn governará o país interinamente por 180 dias.

A história começou no final de outubro, diante de denúncias de que Park havia apresentado documentos oficiais e até submetido discursos para aprovação de Choi Soon-sil, uma antiga amiga, herdeira de uma seita shamânica. As duas se conheceram ainda crianças quando seus pais eram amigos. Desde então, Park sofreu um bocado: sua mãe morreu num atentado contra o pai, que governou o país em um regime de 18 anos. Seu pai também foi assassinado, cinco anos depois, por um oficial de seu próprio governo, que dizia que o pai de Choi exercia uma espécie de influência sobre ele.

O escândalo também envolve algumas das maiores companhias da Coreia do Sul, como as fabricantes de eletrônicos Samsung e LG e a fabricante de automóveis Hyundai. Segundo as investigações, Choi usou a influência sobre a presidente para arrecadar 69 milhões de dólares para suas fundações de lobistas ligados a essas e outras companhias. O risco é que a instabilidade política abale a economia de um país que já não cresce como nas décadas passadas.

Park, que não tem filhos e nunca foi casada, demitiu seus aliados mais próximos e viu os amigos, incluindo Choi, irem para a cadeia. Seus irmãos se afastaram dela há anos. Ela chegou a pedir desculpas publicamente três vezes em rede nacional de televisão. O povo a abandonou: 1,7 milhões foram às ruas de Seul no sábado pedindo sua saída. A popularidade gira em torno de 4%, a menor do mundo. Segundo relatos de quem sobrou no governo, ela passa os dias sozinha na Casa Azul, residência oficial do governo sul-coreano, onde morava quando seus pais foram assassinados. Depois de hoje, seu drama ficou ainda maior.