Tempo frio, bastidores fervendo: as eleições italianas

Mesmo inelegíveis, o ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi e o comediante Beppe Grillo devem ser decisivos no pleito de domingo

Roma — Craque em gerar impacto no eleitorado italiano, o ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi prometeu, a uma semana das eleições gerais na Itália, promover imediatamente três referendos, se sua aliança de três partidos, que vai da centro-direita à extrema-direita, sair vitoriosa no domingo.

Um deles seria pela eleição direta do presidente da República, atualmente escolhido pelo Parlamento. No regime parlamentarista italiano, o presidente não governa, mas convoca eleições e escolhe, com base no seu resultado, quem deve tentar formar governo.

Em geral nenhum partido obtém maioria absoluta no fragmentado sistema político italiano, e daí a importância do papel do presidente. E mais de uma vez Berlusconi foi frustrado nas escolhas dos presidentes.

Os outros dois referendos seriam para impedir duas coisas: que os parlamentares mudem de partido e que sejam apresentados recursos na segunda instância depois de absolvição na primeira.

Berlusconi está inelegível, por ter sido condenado em última instância por fraude fiscal na gestão de seu grupo de empresas de mídia. Na entrevista dada ao Canal 5, no domingo, Il Cavaliere, como é conhecido, chamou de “golpe de estado” a sua condenação.

Entretanto, de acordo com as pesquisas, a aliança formada por seu partido, Forza Italia, pela autonomista Liga do Norte e pelo pequeno grupo nacionalista Irmãos da Itália, teria o maior número de cadeiras no Parlamento.

A situação abre caminho para que Matteo Salvini, líder da Liga do Norte, que já teve posturas mais radicais em relação à autonomia do Vêneto e à retirada da Itália da zona do euro, seja o primeiro-ministro.

Quatro vezes primeiro-ministro, Berlusconi também prometeu introduzir na Itália um imposto único: “Conversei com alguns economistas e dali saiu a ‘equação do crescimento e do bem-estar’, que diz que menos impostos sobre as famílias, a mão-de-obra e as empresas produzem mais consumo das famílias, mais investimentos das empresas, mais postos de trabalho e até mais dinheiro nos cofres do Estado para ajudar os cidadãos”.

Na entrevista, Berlusconi demonstrou preocupação em atacar o Movimento 5 Estrelas (M5S), do comediante Beppe Grillo, que nas pesquisas aparece como o partido com maior intenção de votos. Grillo também está inelegível por ter sido condenado por homicídio culposo, pela morte de três pessoas num carro que capotou com ele ao volante, em 1981. Ao mesmo tempo, procurou poupar o Partido Democrático (PD), do ex-primeiro-ministro Matteo Renzi, que poderia figurar como um parceiro na coalizão de centro-direita.

No primeiro ano do governo de Renzi, Berlusconi apoiou as reformas por ele conduzidas. Eles romperam justamente depois de um desacordo sobre quem deveria ser o próximo presidente: Berlusconi queria o ex-primeiro-ministro comunista Massimo D’Alema; Renzi, o atual presidente, Sergio Mattarella.

“Entrei em campo para evitar que vá para o governo, não o PD, mas uma seita perigosa na qual está aquele senhor multi-condenado de Gênova, que dá ordens a pessoas sem nunca ter feito sequer uma declaração de imposto de renda, e portanto ou evadiu ou nunca trabalhou”, disparou Il Cavaliere, referindo-se a Grillo.

O M5S escolheu o jovem deputado Luigi di Maio, de 31 anos, ex-vice-presidente da Câmara dos Deputados, e considerado um moderado, para ser seu candidato a primeiro-ministro. O partido não incluiu no programa de governo a realização de um referendo para decidir sobre a saída do euro, uma de suas tradicionais posições. Tudo isso o tornou mais palatável ao mercado, mais competitivo e capaz de tirar votos da centro-direita.

Ao mesmo tempo, Berlusconi elogiou o PD de Renzi: “Deve ser reconhecido um grande mérito dele, por ter queimado as pontes com os comunistas”, disse Il Cavaliere, referindo-se à guinada da esquerda para a centro-esquerda dos integrantes do partido. “Sugeri que ele mudasse o nome para Partido Social-Democrata.”

Renzi, no entanto, descartou o apoio a uma coalizão na qual esteja presente o líder da Liga do Norte, Matteo Salvini: “Nós não faremos o governo com os extremistas, porque seria algo que ninguém na Europa entenderia”. Em entrevista ao canal SkyTg24, o ex-primeiro-ministro se recusou a responder a uma pergunta sobre se renunciaria ao cargo de secretário-geral do PD se o partido sair derrotado das eleições de domingo.

Renzi renunciou ao cargo de primeiro-ministro, como havia prometido, depois da derrota do referendo de dezembro de 2016 sobre uma reforma constitucional que concentraria na Câmara os poderes de votação das leis, tornando o Senado uma casa de deliberação sobre temas regionais.

Como em geral acontece na política italiana, o pós-eleição parece profundamente incerto. As pesquisas indicam que o M5S não elegerá cadeiras suficientes para formar sozinho um governo de maioria. Principalmente porque para o Senado só podem votar maiores de 25 anos, e a base do M5S está no eleitorado mais jovem. Seus líderes insistem que, como vencedor, o partido deve ser convocado pelo presidente Mattarella a formar um governo, ainda que de minoria.

Entretanto, de acordo com o cientista político Roberto D’Alimonte, diretor do Centro Italiano de Estudos Eleitorais (Cise), de Florença, o presidente não teria a intenção de formar um governo de minoria, que teria um caráter interino. Seria preferível manter o atual primeiro-ministro Paolo Gentiloni, que ao menos não criaria instabilidade e não alarmaria os mercados.

É possível ainda que o M5S aceite formar alianças, abandonando sua posição anterior, de rejeitar qualquer aproximação com os partidos tradicionais. Nesse cenário, observa D’Alimonte, a coalizão poderia ser tanto com a centro-esquerda do PD e do partido Livres e Iguais quanto com a direita da Liga do Norte e dos Irmãos da Itália. A única aliança descartada de antemão pelo M5S seria o Forza Itália, não por razões ideológicas, como se vê pelo espectro de opções, mas para excluir Berlusconi e assegurar que o movimento ficaria na liderança, e não Il Cavaliere, analisa o cientista político.

A verdade é que ninguém sabe o que vai acontecer depois desse domingo. A única certeza, neste momento, é a onda de frio que derrubou as temperatura no país: em Roma, a previsão para a noite desta terça-feira é de até 8 graus negativos. E muita neve. Bem-vindo à Itália.