Soldados russos, subhomens segundo Hitler, vencem a Alemanha

Stalin demorou para reagir à Wehrmacht, mas acabou vencendo o inimigo que o subestimava

Em 1941, o espião soviético Richard Sorge, que tinha contatos na embaixada alemã em Tóquio, enviou uma mensagem urgente para Moscou. Avisava que a Alemanha estava prestes a invadir a União Soviética. Não se sabe por que a mensagem foi ignorada. Talvez Stalin estivesse tranqüilo pelo fato de ter assinado, em agosto de 1939, um pacto de não-agressão com a Alemanha Nazista. Quando o país foi invadido por um número colossal de soldados alemães, Stalin demorou a entender que a guerra tinha começado. Ainda cultivou a esperança de que tudo se tratasse de exercícios militares na fronteira. Não fez jus, neste episódio, à sua fama de astuto.

O exército vermelho, em 1941, era poderoso em número de soldados, mas mal equipado, mal treinado e mal comandado. Muitos dos melhores oficiais estavam trancados em algum campo de trabalhos forçados. Derrotar os russos, nas primeiras semanas, foi fácil para a Wehrmacht. Uma parte dos alemães se dirigiu para o Norte, em direção a Leningrado. Outra parte foi para o sul, com a missão de capturar as regiões produtoras de cereais e de petróleo. O exército principal deslocou-se pelo centro, para tomar Moscou. Suas patrulhas chegaram aos subúrbios da cidade. Em Berlim já se preparava a festa da vitória e prometeu aos soldados que estariam em casa antes do Natal.

Nesse momento ocorreram dois fatos que mudaram a história da Frente Russa. O primeiro: Hitler interveio na ação de seus generais. Embaralhou os planos, emitiu ordens contraditórias, alterou os objetivos de seus exércitos. Como consequência, perdeu a oportunidade de tomar a capital inimiga num avanço fulminante.

O segundo: com o inimigo batendo na porta da frente, o juízo de Stalin voltou a funcionar. Em pouco tempo as indústrias importantes foram desmontadas e levadas para a retaguarda. Divisões siberianas, acostumadas ao frio, foram trazidas para a vanguarda.

Stalin montou ainda um espetáculo destinado a mostrar ao inimigo que a moral estava alta em Moscou. Foi um desfile de tropas e de bandas de música que pôde ser visto pelos binóculos alemães. Talvez uma de suas decisões mais acertadas tenha sido uma ordem lacônica. Dizia o seguinte: render-se ou recuar diante do inimigo sem autorização é crime. Durante toda a guerra, tropas da NKVD seguiam atrás dos batalhões comuns. Quem desse marcha à ré corria o risco de cair no colo da polícia e terminar no paredão. Para o soldado russo, a esperança de voltar para casa resumia-se em tomar Berlim.

Os soldados alemães não voltaram para casa no Natal. No final de 1941, chegou o inverno. O comando alemão, com sua arrogância e otimismo, não havia fornecido uniformes de frio para os soldados, que começaram a perder dedos e orelhas por congelamento. As tropas alemãs eram transportadas basicamente em caminhões. No frio intenso da Rússia, os motores pararam. Os alemães usavam um número excepcional de armas automáticas. Com o óleo congelado, as armas não funcionavam. As vantagens passaram para o lado dos russos, com seus uniformes quentes e fuzis simples.

A Wehrmacht ainda lutou em território soviético por cerca de quatro anos e causou muito estrago. Empenhou contra os russos o grosso de suas divisões e os seus melhores comandantes. Mas cometeu um número excessivo de erros. Talvez o principal tenha sido o de subestimar o inimigo. Os japoneses cometeram o mesmo e decisivo erro em relação aos americanos, a quem chamavam de “pobres diabos”. Não achavam que eles tivessem coragem ou resistência para combater em selvas úmidas, com temperatura média de quarenta graus. Esqueceram-se de que os americanos haviam construído o Canal do Panamá em condições ainda piores. Começaram a mudar de idéia em 1942, em Guadalcanal, no Pacífico Sul, quando enfrentaram soldados resistentes e agressivos, que usavam chaves de fenda com a ponta afiada em vez de baionetas. A coragem e a brutalidade não eram atributos apenas do guerreiro japonês.