Síria critica intenção de Paris e Londres em armar rebeldes

A intenção "uma violação flagrante do direito internacional", afirmou a agência oficial síria Sana

Paris – A intenção da França e do Reino Unido de armar os rebeldes na Síria para derrubar o regime do presidente Bashar al-Assad é “uma violação flagrante do direito internacional”, afirmou nesta quinta-feira a agência oficial síria Sana.

Essa foi a reação síria ao fato de Paris expressar sua vontade de unir-se a Londres em sua decisão de entregar armas aos rebeldes sírios, sendo necessário pedir, para isso, a suspensão do embargo imposto pela União Europeia.

Essas declarações acontecem na véspera do segundo aniversário do início da rebelião síria, que, segundo a ONU, já deixou mais de 70.000 mortos.

“Em uma violação flagrante do direito internacional, o ministro francês das Relações Exteriores Laurent Fabius anunciou a vontade de seu país e da Grã-Bretanha de fornecer armas aos grupos terroristas”, escreve a agência.

O regime usa o termo grupos terroristas para referir-se aos rebeldes.

Já o porta-voz da oposição síria afirmou que a vontade expressa pela França e Reino Unido de armar os rebeldes sírios é “um passo na boa direção para derrubar o regime”.

“Bashar al-Assad não aceitará a solução política para o conflito até que saiba que diante dele tem uma força armada que vai derrubá-lo”, afirmou o porta-voz Walid al Buni.

“E, enquanto os iranianos e os russos continuarem oferecendo seu apoio, Bashar al-Assad continuará convencido de que vai vencer a guerra”, acrescentou.


Paris e Londres anunciaram que solicitarão a antecipação da próxima reunião da União Europeia (UE) sobre o embargo de armas à Síria e, sem uma posição unânime, decidirão fornecer armas unilateralmente aos rebeldes.

França e Grã-Bretanha pedem aos europeus “a suspensão do embargo para que a resistência tenha a possibilidade de defesa”, declarou o chanceler francês, Laurent Fabius, à rádio France Info.

O objetivo, segundo altos funcionários franceses que não quiseram ser identificados, é entregar à oposição síria mísseis terra-ar para contra-atacar a ação dos aviões e helicópteros do exército sírio.

Até o momento, um embargo decidido pela União Europeia proíbe tais fornecimentos de armas e alguns dos países europeus, entre eles França e Grã-Bretanha, só fornecem aos rebeldes sírios material não letal, como meios de proteção ou de comunicação.

Vários membros da UE, em particular a Alemanha, são muito reticentes à ideia de uma suspensão do embargo sobre as armas, por considerar que tal medida só poderá agravar o conflito na Síria.

Sem a unanimidade necessária na UE para a suspensão da medida, Paris e Londres tomarão a decisão de entregar armas, já que a França “é uma nação soberana”, completou o ministro.

Na terça-feira, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, indicou que o país poderia tomar distância do embargo praticado pela UE e entregar armas à oposição síria que luta contra o presidente Bashar al-Assad.


A UE, por sua vez, afirmou nesta quinta que está aberta a discutir a ideia da suspensão do embargo sobre as armas se um dos 27 países membros assim pedir.

“Se um Estado quiser abrir uma discussão rapidamente, é possível. Cada qual pode pedir que se inclua qualquer tema na agenda de uma reunião”, declarou Michael Mann, porta-voz de Catherine Ashton, chefe da diplomacia do bloco.

A próxima reunião da UE para analisar o embargo está prevista para o fim de maio, mas, de acordo com o chanceler francês, Paris e Londres querem uma análise antes deste prazo.

Relação de forças a favor dos rebeldes

No mesmo dia em que Paris e Londres expressaram sua intenção de ajudar os rebeldes sírios, um relatório do o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS) alerta que a relação de forças na Síria pode inclinar-se no final a favor dos insurgentes e que uma guerra civil prolongada neste país pode desestabilizar a região.

“É provável que, pouco a pouco, o equilíbrio de forças se incline a favor dos rebeldes na Síria dado o crescimento de sua capacidade e do apoio exterior”, afirma o informe.


“A não ser que utilize armas químicas contra os rebeldes, com o risco de intervenção internacional que isto implica, é difícil ver como Bashar al-Assad pode reverter a tendência”.

Mas o IISS advertiu que o regime pode derrotar os rebeldes se estes “abandonarem as táticas de guerrilha e tentarem tomar as zonas urbanas”.

“Se o presidente Bashar al-Assad não pode ganhar, os rebeldes ainda podem perder”, afirma o instituto, que também aponta a possibilidade de confrontos entre facções da oposição com a ausência de uma direção política e militar forte.

“Isto pode afundar o país em uma guerra civil na qual o governo seria a facção mais importante entre outras, o que aumenta os riscos de desestabilização”, completou o IISS, que compara o conflito com a situação no Afeganistão.