Silivri, a prisão turca de alta segurança para jornalistas

Local era um atrativo turístico antes de se tornar cárcere com mais repórteres presos

Silivri – Silivri, a 67 quilômetros ao oeste de Istambul, era conhecida até pouco tempo atrás como um atrativo destino turístico por suas belas praias. Agora a localidade dá nome à prisão turca de alta segurança com mais jornalistas presos.

Uma breve conversa com qualquer garçom dos restaurantes do centro de Silivri deixa claro que os moradores da cidade não gostaram da ideia de chamar pelo mesmo nome da cidade uma penitenciária com 15 jornalistas presos por suposta conspiração contra o Governo.

A prisão campus de Silivri, como define o Ministério da Justiça turco, foi aberta há dois anos e se transformou na maior prisão da Turquia, com capacidade para receber quase 11 mil presos, a maioria deles muito perigosos.

O campus tem até um tribunal. Nessa instância quase duas centenas de altos oficiais do Exército são julgados por supostos envolvimentos em uma trama da rede Ergenekon, uma conspiração para derrubar o Governo islamita moderado de Recep Tayyip Erdogan. Outros militares, acadêmicos e jornalistas aguardam julgamento.

Atualmente, há 67 profissionais de comunicação detidos na Turquia – a maioria em prisão preventiva -, todos vinculados à trama de Ergenekon, e alguns deles esperam há anos na prisão por uma sentença dos tribunais.

A Turquia se transformou no país do mundo com mais jornalistas presos, acima, inclusive, da China e do Irã.

Para entrar na penitenciária é preciso deixar quase tudo: canetas, documentos, moedas, dinheiro, relógio, cinto, metal (de qualquer espécie), incluindo anéis e jaquetas. As famílias não podem levar roupas íntimas aos internos, devem de comprá-las em uma loja da própria prisão.

As mulheres devem de ter especial cuidado com os sutiãs, porque são fáceis esconderijos para metais. E o acesso a certas salas só é possível após passar por um detector de metais.

“Minha filha veio me visitar. Ela vive na França. Quando as mulheres da guarda disseram que precisa tirar o sutiã, ela levantou a camisa para mostrar que não trazia nada. As policiais tomaram um susto quando minha filha, educada na França, mostrou os peitos. Rimos muito do episódio”, disse à agência Efe Dogan Yurdakul, um jornalista preso há dois meses e que já esteve na prisão nas décadas de 70 e 80.

Os jornalistas presos assinalam que as condições carcerárias não são ruins, mas criticam o que consideram uma injustiça, não sabem por que são mantidos ali. São acusados de envolvimento nos planos do golpe de Estado da rede Ergenekon, mas desconhecem as provas contra si.

A imensa maioria dos jornalistas presos, laicos e críticos com o Governo, disse à Efe que sua detenção ocorreu por opor-se ao Executivo islamita moderado.

Mustafa Balbay, um dos colunistas mais respeitados do jornal “Cumhuriyet”, há dois anos no cárcere, critica o exagero do castigo recebido dentro da prisão “por ter compartilhado com um colega de cela um tomate e um pepino”.

“A cela é vigiada 24h com câmeras. Só um canto da minha cama não aparece na tela. Viram-me entregando um tomate e um pepino a meu companheiro de cela. Fui acusado de cozinhar e, inclusive, fui interrogado por um promotor a esse respeito”, explica.

“Não é permitido cozinhar em uma prisão de alta segurança? Tudo o que fiz foi aquecer as hortaliças no vapor de uma chaleira”, conta.


“Três corvos costumam vir ao pátio da minha cela pela manhã. Quando grasnam, entendo como um aviso de que está na hora levantar. São meus únicos amigos”, confessa Balbay.

Outro renomado jornalista, Tuncay Ozkan, ressalta sua solidão na prisão: “uma manhã vi meu rosto no espelho e levei um susto. Não estava acostumado a ver alguém mais por aqui”.

Entre os detidos estão ainda Ahmet Sik e Sener Nedim, dois conhecidos jornalistas detidos após escreverem livros sobre o islamismo na Turquia, nos quais evidenciaram as relações do movimento islamita de Fethullah Gülen com o Governo turco.

Agora eles são acusados de pertencerem a Ergenekon, ignorando o fato de que em suas vidas profissionais foram contrários às tramas da guerra suja na Turquia e aos golpes de Estado.

“Qualquer referência ao movimento Gülen é suficiente para ser incriminado”, repete Sik, preso após escrever “Imamin Ordusu” (O Exército do Imame, que relata a infiltração desse movimento islamita na Polícia turca).