Shekhovtsov, do IWM: o jogo de interesses russo

Carol Oliveira

A Primavera Árabe e a guerra civil na Síria transformaram o mundo profundamente, ao fazer nascer o grupo terrorista Estado Islâmico e gerar a maior migração de refugiados da história. Para o cientista político russo Anton Shekhovtsov, diante dessa crise de proporções globais, quem saiu ganhando foram a Rússia e seu presidente, Vladimir Putin. O especialista em radicalismos de direira é pesquisador visitante do Institute for Human Sciences, na Áustria.

Nesta segunda-feira, o ditador sírio Bashar al-Assad anunciou, na TV estatal, que está pronto para trocar prisioneiros com os rebeldes. Com o cessar-fogo em vigor desde dezembro e as negociações de paz em andamento, muito já se fala sobre o fim da guerra, após seis anos de duração, 500.000 mortos e quase 5 milhões de refugiados. Em entrevista a EXAME Hoje, Shekhovtsov explica o papel de Moscou na crise síria e a importância da relação entre Putin e o presidente americano Donald Trump para a luta contra o terrorismo.

Qual foi a importância do apoio da Rússia e do presidente russo Vladimir Putin na vitória do presidente Bashar al-Assad na Síria, ao conseguir retomar a cidade de Alepo?

Eu acho que Assad ganhou a guerra principalmente por causa do apoio de Putin. Sem isso, a guerra continuaria por muito tempo.

Se o poderio militar da Rússia foi tão importante para a vitória de Assad, por que Putin não interviu antes?

Já havia apoio ao Assad desde o começo, mas o apoio militar mesmo começou em 2015. Eu acho que há várias razões, domésticas e externas, pelas quais a Rússia começou a intervir mais fortemente na Síria. Primeiro, a Rússia precisava trocar o foco da guerra na Ucrânia, depois de falhar em ocupar parte do país em 2014. Precisavam desviar atenção disso, e foi aí que a intervenção na Síria aconteceu. Outra razão era mostrar para o Ocidente que a Rússia estava disposta a lutar contra o terrorismo internacional, e, sobretudo, colocar mais pressão nos Estados Unidos para suspender as sanções econômicas a Moscou.

Com o fim da guerra e a vitória de Assad contra os rebeldes, que papel a Rússia terá na reconstrução da Síria?

Eu acho que é muito difícil dizer nesse momento o que vai acontecer na Síria. Moscou está sugerindo, por exemplo, uma reforma constitucional, com um sistema mais federalizado que faria a oposição moderada ter controle em algumas áreas. Não sabemos se isso vai seguir em frente. E a Rússia não tem tanto dinheiro para ajudar a Síria a se reconstruir. Eles só estão interessados em construir bases militares e se fortalecer militarmente lá, mas não acho que vão contribuir para além disso.

Se Putin ajudou Assad militarmente, também vai ajudar com a crise de refugiados?

Moscou não vai compartilhar o fardo, não vai receber refugiados. Eles inclusive acreditam que a crise dos refugiados é boa para Putin. Porque isso aumenta a popularidade dos movimentos de direita na Europa [que são a favor do fechamento de fronteiras], e a maioria deles é pró-Putin. Se a Marine Le Pen [do partido de extrema-direita Frente Nacional] ganhasse na França, por exemplo, seria bom para Putin, porque ela prometeu votar contra o fim das sanções à Rússia e reconhecer a Crimeia como território russo.

Qual vai ser o papel da Rússia na luta contra o Estado Islâmico? É possível uma aliança com os Estados Unidos para combater o terrorismo?

Putin só vai ajudar na luta contra o ISIS se ele conseguir fazer uma parceria com os Estados Unidos. O que Putin realmente quer é ser reconhecido como um poder global no mundo. Alguns especialistas costumam dizer que Putin quer reviver o Acordo de Yalta de 1945, quando as potências que venceram a Segunda Guerra dividiram o mundo. Putin quer algo desse tipo, quer que Washington reconheça a Rússia como um poder geopolítico dentro de sua área de influência. Se os Estados Unidos concordarem com isso, fazendo vista grossa para investidas russas em territórios como a Ucrânia e a Geórgia, pode se formar essa parceria, com a Rússia ajudando na luta contra o ISIS. Ela vai usar isso para convencer o Ocidente a concordar com esses termos. Sem isso, eu duvido que a Rússia esteja interessada.

Foram oito anos difíceis para a relação Estados Unidos-Rússia no governo do presidente Barack Obama. A partir de agora, o que será da relação com o governo de Donald Trump?

Eu acho que é muito difícil dizer. É verdade que o Trump quer ter boas relações com a Rússia, mas os republicanos, principalmente, podem se opor a isso. Então, acredito que vai haver essa competição interna nos Estados Unidos. A primeira metade deste ano vai mostrar se o Trump será mesmo mais amigável. E a Rússia também quer ter boas relações — mas nas condições dela. Veremos.

Mas a queda no preço do petróleo nos últimos anos afetou a economia russa — o PIB caiu mais de 50% entre 2014 e 2015. Uma economia indo mal seria capaz de alterar o cenário político da Rússia e enfraquecer Putin?

O cenário não parece muito bom, mas eu não acho que uma economia indo mal vai afetar a popularidade do Putin de forma significante. Se nada mudar no próximo ano, a Rússia vai ter de começar a pegar dinheiro das reservas. Em 2013, antes da Ucrânia e das sanções, a economia russa já estava muito ruim. Mas parece que Putin arranjou um jeito de manter a população mobilizada, com esse sentimento patriótico. Os russos estão prontos para sofrer economicamente por causa das guerras em que Putin está envolvido. Na época da União Soviética, havia uma narrativa de que os russos tinham que se sacrificar por seu país, e o governo está promovendo com sucesso essa narrativa agora, convencendo grande parte da população russa de que o Ocidente está tentando afetar a Rússia com as sanções e que é preciso resistir para manter a Rússia livre.