Separatistas conseguem maioria nas eleições da Catalunha

O comparecimento nessa quinta-feira foi de 82%, o mais alto na Catalunha desde a restituição da democracia, há 40 anos

Barcelona — Mesmo com um comparecimento histórico, que em princípio deveria favorecer os “constitucionalistas”, aqueles que querem continuar cidadãos espanhóis, a maioria dos catalães votou nesta quinta-feira nos três partidos que defendem a independência da Catalunha em relação à Espanha. A soma das bancadas dos três partidos lhes confere maioria absoluta no Parlamento catalão.

O partido de direita Juntos pela Catalunha, do presidente destituído Carles Puigdemont, refugiado em Bruxelas para evitar a prisão, obteve 22% dos votos, ou 34 cadeiras no Parlamento de 135. Sua principal aliada na luta pela independência, a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), do vice-presidente destituído Oriol Junqueras, que está preso em Madri, junto com sete ex-secretários regionais, teve 21%, conquistando 32 cadeiras.

Por último, a Candidatura da Unidade Popular (CUP), um partido anti-sistema, anarquista e de extrema esquerda, elegeu três deputados, com 4% dos votos. Juntos, os três somam 70 cadeiras, o que lhes dá mais uma vez o domínio do Parlamento catalão.

Nas eleições passadas, em 2015, a legenda de Puidgemont, que se chamava Partido Democrata Europeu da Catalunha (PDeCAT), apresentou-se com a ERC na coalizão Juntos pelo Sim, numa referência ao plebiscito que seria realizado no dia 1.º de outubro, e ambos, somados, elegeram 62 deputados. A CUP elegera 10.

Com essa maioria de 72, eles conduziram o chamado “Procés”, que resultou no plebiscito, no qual apenas 43% dos eleitores compareceram, dos quais 90% votaram “sim”. No dia 27 de outubro, o Parlamento catalão aprovou a declaração de independência, que Puidgemont referendou, de forma ambígua, suspendendo-a para negociar com o governo central espanhol.

Já o primeiro-ministro Mariano Rajoy, do Partido Popular, da direita nacionalista espanhola, não foi nada ambivalente, não quis saber de negociação e no mesmo dia declarou a intervenção na Catalunha, nomeando sua vice, Soraya Saenz de Santamaría, presidente do governo da região. Os ministros assumiram as pastas respectivas no governo regional.

Normalmente as eleições se realizam aos domingos. Rajoy convocou-as para uma quinta-feira, para incentivar o comparecimento. Isso porque, aos domingos, muitos eleitores preferem sair de suas cidades para passear em vez de ir votar. E o comparecimento alto deveria favorecer os “constitucionalistas”, que antes tendiam a ignorar as eleições regionais, culminando no dramático resultado do plebiscito de outubro.

Em seguida à declaração de independência, os correntistas sacaram 6 bilhões de euros de suas contas nos bancos, e 3 mil empresas transferiram suas sedes da Catalunha para outros lugares.

Diante do trauma, o comparecimento nessa quinta-feira foi de 82%, o mais alto na Catalunha desde a restituição da democracia, há 40 anos. O comparecimento mais alto até então, 81%, tinha sido nas eleições gerais de 1982. Em 2015, foi de 75%.

Mesmo assim, não foi suficiente para conter a onda separatista na Catalunha. Assim como em 2015, o partido Cidadãos, que surgiu na Catalunha em 2006 como um movimento contra a independência e os partidos tradicionais, foi o mais votado. Com 25%, ele elegeu 37 deputados. O Cidadãos participa da coalizão de governo nacional encabeçada pelo PP.

O Partido Socialista, que também defende a manutenção da região na Espanha, e é o principal de oposição no nível nacional, ficou em quarto lugar, com 14%, conquistando 17 cadeiras. Ainda nesse grupo dos “unionistas”, o PP, que tem pouca força na Catalunha, ficou em último lugar entre os partidos que conquistaram cadeiras no Parlamento, com 4%, ou três deputados.

Em quinto lugar, com 7% e oito deputados, veio o Podemos, um movimento de centro-esquerda surgido em 2014 também como alternativa aos partidos tradicionais. O Podemos não defende a independência, mas não se alinha totalmente com os unionistas.

Esses resultados significam que as tensões vão continuar na Espanha. Rajoy já deixou claro que não admitirá nova declaração de independência, e voltará, se necessário, a acionar o artigo 155 da Constituição, que prevê a intervenção em caso de ameaça à integridade territorial da Espanha.

Por outro lado, os líderes nacionalistas prometem a independência, e os ânimos estão acirrados na Catalunha. Muitos catalães ouvidos por EXAME nos últimos dias disseram que antes aspiravam apenas a mais autonomia e agora passaram a defender a independência, por causa da repressão da polícia contra os eleitores no dia do plebiscito, e da intervenção do governo central na região.

Sobre Puigdemont, Junqueras e os outros participantes da Generalitat, como é chamado o governo regional, que organizaram o plebiscito, pairam processos que prevêem até 30 anos de prisão.

Em 2006, um acordo entre a região e o governo central levou à aprovação do chamado “Estatut”, que garantia autonomia na gestão das receitas tributárias da Catalunha, como acontece no País Basco. A Generalitat afirma que a Catalunha representa 20% do PIB da Espanha e 16% da população, arrecada 23% dos impostos do país e recebe apenas 9% em receitas. O governo central e os constitucionalistas contestam esses números.

O Estatut também assegurava ampla autonomia na educação — que as escolas catalãs têm exercido intensamente, com todas as matérias ensinadas em catalão e o espanhol como língua estrangeira. Entretanto, numa ação movida pelo PP em 2010, o Tribunal Constitucional “recortou” o Estatut, como dizem os catalães, restringindo as autonomias. A partir de então, o separatismo catalão vem num crescendo. É hora de espanhóis e catalães voltarem a conversar. Do contrário, todos sairão perdendo.