Segundo dia de greve no Chile termina com confrontos e incêndios

Manifestantes afirmam que 600 mil pessoas se mobilizaram no país. Governo chileno reduziu o número para 175 mil

Santiago – O segundo e último dia de greve geral no Chile convocada pela Central Unitária de Trabalhadores (CUT) terminou nesta quita-feira à noite com barricadas, incêndios e intensos confrontos entre a Polícia e manifestantes encapuzados, que deixaram dezenas de feridos.

Assim como no primeiro dia de greve, após os panelaços em apoio às reivindicações sindicais e estudantis ocorridas em Santiago e em outras cidades, grupos de manifestantes encapuzados começaram a levantar barricadas para impedir a circulação de veículos e pessoas.

Além disso, a rádio “Bíobio” informou nesta noite que, em várias zonas periféricas da capital, foram ouvidos tiros, enquanto centenas de trabalhadores tiveram de voltar para casa a pé devido à paralisação do transporte público.

Horas antes desses incidentes, o governo indicou que os protestos desta quinta-feira congregaram 175 mil pessoas em todo o país, mas a CUT cifrou em 600 mil o número de manifestantes que se mobilizaram em nível nacional.

O balanço oficial foi divulgado pelo subsecretário do Interior, Rodrigo Ubilla, no Palácio de La Moneda (sede do Governo). Ele destacou que os incidentes deixaram 25 policiais e um civil ferido, mas não detalhou se todas essas vítimas correspondem aos enfrentamentos registrados na capital chilena.

Em relação ao número de presos, Ubilla afirmou que a Polícia prendeu 210 pessoas em todo Chile, 140 delas na região metropolitana de Santiago.

A greve de 48 horas foi convocada pela CUT sob uma plataforma de reivindicações que vão desde reformas constitucionais até um aumento de impostos para as empresas, além de um fundo de previdência estatal e mais recursos para saúde e educação.

De manhã, os estudantes chilenos, mobilizados desde maio passado para reivindicar melhoras na educação, apoiaram as passeatas organizadas pela CUT.


A presença juvenil predominou de forma notória nas marchas, que em Santiago confluíram desde quatro pontos rumo a uma intersecção central da alameda Bernardo O’Higgins, principal artéria viária da cidade, de forma pacífica e em um ambiente festivo.

As passeatas foram marcadas por situações anedóticas, como a presença de um grupo de prostitutas que carregavam um letreiro com os dizeres “Piñera não é filho nosso”.

A violência em Santiago eclodiu após as passeatas. Dezenas de pessoas encapuzadas tentaram levantar barricadas na alameda, o que suscitou a ação da tropa de choque da polícia. A cerca de oito quadras do palácio de governo, um grupo de vândalos incendiou a entrada de uma igreja, o que levou as forças de segurança a usarem jatos d’água para apagar as chamas.

Os mesmos encapuzados se deslocaram para duas quadras dali, onde saquearam estabelecimentos comerciais, destruíram um banco e alguns semáforos e tentaram invadir um edifício.

Mais tarde, os distúrbios continuaram em frente à casa central da Universidade de Santiago do Chile (Usach), onde jovens com o rosto coberto atacaram a Polícia e se escondiam em seguida.

O ministro do Interior, Rodrigo Hinzpeter, afirmou nesta quinta-feira à imprensa: “esta greve não significou nenhum benefício para nosso país, mas muito pelo contrário, causou muito dor e sofrimento para muitos compatriotas, um retrocesso interno na imagem externa de nosso país.”

Já o presidente da CUT, Arturo Martínez, afirmou em entrevista coletiva que, como entidade sindical, os trabalhadores têm “a esperança de que o Governo, depois deste golpe que recebeu, consiga refletir e se abra ao diálogo para buscar uma saída à atual situação”.

Por sua vez, a presidente da Federação de Estudantes do Chile (FECH), Camila Vallejo, que também participou da passeata junto aos estudantes, disse: “se o Governo quer diálogo, tem de nos reconhecer como contraparte válida”.