Segunda Guerra abre dimensão inédita na história da humanidade

Nunca civis sofreram e morreram da forma e em tamanha escala como aconteceu há 60 anos

A Segunda Guerra Mundial abriu uma dimensão trágica, até então inédita. Civis sempre sofreram e morreram em conflitos militares, mas nunca na escala e da forma como aconteceu há 60 anos. A Alemanha adotou o genocídio e o trabalho escravo como políticas de Estado. Mas não foi o único país a ordenar massacres que ultrapassam os limites da compreensão.

Os soviéticos assassinaram milhares de oficiais poloneses na floresta de Katyn, em 1940. Na cidade de Nanking, os japoneses mataram pelo menos 260 mil civis chineses, no final de 1937. Ingleses e americanos devastaram a cidade alemã de Dresden em fevereiro de 1945, num episódio que eles querem até hoje esquecer e que ainda gera revolta. Dresden não tinha instalações militares importantes. Era apenas um depósito de pessoas que fugiam do avanço soviético. Cerca de 50 mil morreram, sob milhares de toneladas de bombas incendiárias. Elas geraram um calor tão grande que até o asfalto das ruas de Dresden pegou fogo.

Um mundo novo

O mundo que emergiu desses anos de destruição procurou tomar medidas para que uma tragédia semelhante não voltasse a acontecer. Na Conferência de São Francisco, criou-se a Organização das Nações Unidas (ONU) como um fórum em que os países pudessem resolver suas questões sem o recurso às armas.

Pouco antes, na Conferência de Bretton Woods, surgiram o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (Bird). Funcionariam como instituições de socorro a países com dificuldades econômicas. Olhava-se para trás. Organismos como ONU, FMI e Bird eram tentativas de não repetir os erros cometidos após a guerra de 1914-1918. Foi uma política vingativa dos vencedores que levou a Alemanha à miséria, ao desespero e a Adolf Hitler.

Em 1946, os principais líderes do nazismo foram julgados pelo Tribunal Militar Internacional de Nuremberg, sob a acusação de conspirar contra a paz, iniciar guerras de agressão e cometer crimes contra a humanidade. Nenhum desses crimes estava catalogado antes por qualquer lei internacional. Nuremberg, portanto, foi um avanço. Em guerras anteriores, militares podiam até ser fuzilados, mas não eram considerados criminosos. Os que organizaram o julgamento também olhavam para trás. Na Primeira Guerra Mundial, não houve julgamentos. Mesmo entre os franceses, que mais sofreram com o conflito (a luta se deu basicamente em território francês), preponderava a opinião de que os alemães lutaram com valentia e não mereciam ser punidos por isso. O kaiser Guilerme II exilou-se na Holanda e viveu tranqüilo até sua morte, em 1941. Quando a Holanda foi invadida, em 1940, o kaiser recebeu saudações militares das tropas nazistas, da janela de seu palácio.

Mesmo em 1946, não foi fácil montar um tribunal para crimes de guerra. Havia outras propostas na mesa. Ingleses e russos pensaram em cobrar dos alemães dois anos de trabalhos forçados, como indenização pelos prejuízos causados. Entre os americanos havia a idéia de executar todos os oficiais alemães com patente superior à de capitão. Outra idéia foi a de proibir a Alemanha de ter qualquer indústria. Ela seria transformada numa grande fazenda. Fez-se o contrário. O governo militar aliado restabeleceu rapidamente os serviços básicos, iniciou a reconstrução de prédios e recolocou as indústrias em funcionamento. Não hesitou em contratar antigos membros do partido nazista. Em vez de fome e escravidão, os alemães passaram a receber salários não muito menores do que o dos trabalhadores ingleses.

O mesmo ocorreu com o Japão. No final da guerra, o país estava em estado ainda pior do que o da Alemanha. A opinião prevalecente nos Estados Unidos era a de que se devia deixar “esses bastardos morrerem de fome”. O governador militar do Japão, o general Douglas MacArthur, ao contrário, iniciou reformas profundas na estrutura econômica e social do país. Cortou todos os privilégios da antiga nobreza, que era uma das fontes do militarismo japonês. Fez uma das mais bem-sucedidas reformas agrárias de que se tem notícia. E também fortaleceu as indústrias japonesas. Com as encomendas geradas pela Guerra da Coréia, no inicío dos anos 1950, a economia do Japão decolou para o patamar de prosperidade que dura até hoje.

Pós-guerra

No tribunal de Nuremberg e na recuperação econômica dos países vencidos criaram-se fundamentos que inexistiam no passado. E que de várias formas moldam nossas concepções modernas de vida. Pode-se discutir o grau de respeito aos direitos humanos neste ou naquele lugar, mas este é um princípio legal e ético que se tornou sólido. A antiqüíssima idéia de que o vencedor tem direito de espoliar o inimigo e de escravizá-lo também desapareceu. São coisas que parecem óbvias, hoje. Mas há 60 anos não eram tão evidentes.

Discute-se também o interesse dos americanos em ajudar o Japão e a Europa. Esta, com o impulso dado pelo Plano Marshall, terminou se integrando num mercado comum e está se transformando, aos poucos, num país só. Os Estados Unidos, diziam seus críticos, apenas compraram aliados na nova guerra que se iniciava, a Guerra Fria. Têm razão, em parte. Mas o resultado é que o Japão deixou de ser uma eterna ameaça militar para os seus vizinhos e a Europa vive o mais longo período de paz de sua história.

Muitos historiadores afirmam que a Segunda Guerra Mundial é a continuação da Primeira Guerra Mundial, ou a última batalha da luta iniciada em agosto de 1914. A conexão pode não ser assim tão forte, mas é verdade que sem entender a guerra de 1914-1918 não se entende completamente a guerra de 1939-1945. Entre o final do século 19 e o começo do século 20 a humanidade vivia uma fase de otimismo. Havia novidades recém-saídas dos laboratórios e das oficinas, como o cinema, o telefone, o automóvel e o avião. A anestesia havia controlado a dor nos hospitais.

Essas eram as boas coisas propiciadas por uma fase de riqueza e de paz relativa. Existiam, no entanto, outras invenções entrando em linha de produção. Os arsenais competiam para construir canhões cada vez maiores e metralhadoras cada vez mais rápidas. Ingleses e alemães estudavam o uso de gases venenosos para uso militar. Os coronéis e generais faziam cálculos complicados para montar seus planos. Até o fim do século 19, guerras eram eventos decididos mais por atos de bravura do que por cálculos e equipamentos. No começo do século 20, construía-se na Europa a primeira guerra científica.

Construíra-se também, na Europa, uma espécie de equilíbrio armado entre as cinco potências dominantes. Apenas uma, a França, era uma república. As outras Inglaterra, Alemanha, Áustria e Rússia eram impérios. Era um equilíbrio ameaçado pelo excepcional crescimento econômico da Alemanha e, pior, pelo caráter de seu imperador, o kaiser Guilherme II, que tinha o apelido de “comedor de ferro”. Era um homem obcecado pela guerra. Tanto que o poeta oficial de sua corte era um coronel.

Guerra deflagrada

O que deflagrou a guerra de 1914 foi um incidente não muito importante: o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do império Austro-Húngaro, por um extremista sérvio. Começou aí um desentendimento diplomático que os estudiosos até hoje tentam explicar. A Áustria deu um ultimato à Sérvia, a Sérvia pediu socorro à Rússia, a Alemanha apoiou a Áustria, França e Inglaterra apoiaram a Rússia, e a Itália apoiou a França e a Inglaterra.

Todos imaginavam um confronto rápido e heróico, ao modo das guerras antigas. Soldados franceses, ingleses e alemães embarcaram nos trens militares sob uma chuva de aplausos. Ninguém, nem mesmo os generais, fazia uma idéia exata do que produziriam novas armas e novas táticas. O produto foram quase cinco anos de uma luta difícil, em trincheiras encharcadas, no meio de ratos e piolhos, sob bombardeios que duravam semanas. Um outro produto foram 10 milhões de mortos.

A Primeira Guerra acabou sem a derrota militar da Alemanha. O kaiser foi derrubado por um motim e os alemães assinaram um armistício. Todos sabiam que os ingleses e franceses também estavam exaustos e que também temiam uma rebelião de soldados. Isto gerou na Alemanha o mito de que o país foi derrotado por uma punhalada nas costas. Segundo esse mito, um punhal manejado por financistas judeus.

Adolf Hitler

Hitler lutou durante quase cinco anos. Era cabo do 16º Regimento da Reserva Bávara. Foi ferido e condecorado por bravura. Levou para casa o sentimento comum a muitos soldados alemães. O de que a Alemannha rendera-se cedo demais. Mais tarde, já um líder político conhecido, ele diria que, na Primeira Guerra, a Alemanha parou 10 minutos antes do meio-dia. E avisou: na próxima, vamos parar só aos dez minutos depois do meio-dia.

É nesse momento que começam as conexões com a Segunda Guerra Mundial. Os soldados alemães voltaram para casa a pé ou em vagões de carga, sem receber rações. Em casa, não havia trabalho e nem o que comer. Multidões de soldados vagavam nas áreas rurais, com as fardas em farrapos, pedindo comida. Ficaram conhecidos como “ratos de granja”. Foi só o início de uma era em que a Alemanha rodopiou pelos sete círculos do inferno.

Em 1919, pelo Tratado de Versalhes, parte da Alemanha foi entregue à Polônia. Suas colônias no exterior foram distribuídas entre ingleses, franceses e japoneses. Regiões alemãs foram cedidas para exploração econômica pelos franceses. A Alemanha foi autorizada a manter apenas um pequeno exército e uns poucos navios de guerra. Em 1921, foi fixado o valor das indenizações que os alemães teriam de pagar. Foram 132 bilhões de marcos-ouro, quantia que representava uma vez e meia o PIB alemão.

Nos primeiros anos da década de 1930, com a recessão mundial iniciada com o crash da bolsa de Nova York, a situação alemã piorou. Depois que uma hiperinflação liquidou o marco, no início dos anos 1920, a grande depressão levou a taxa de desemprego na Alemanha a 44%. O país não tinha mais comando. Tornara-se uma república com a fuga do Kaiser. Uma república de que todos zombavam.

Não é difícil imaginar por que o pequeno Partido Nacional Socialista do Trabalhador Alemão, ou Partido Nazista, começou a fazer sucesso nos comícios de periferia ou nas cervejarias baratas. Para platéias sem emprego, que cultivavam o mito de que a Alemanha fora apunhalada pelas costas, o discurso nazista fazia sentido. Prometia um governo forte, emprego pleno e salários bons. Esbordoava os capitalistas que enriqueciam às custas da miséria. Acenava com a volta de uma Alemanha poderosa ao cenário mundial. O nazismo mexia também com outros tipos de emoção, com seus uniformes, runas, caveiras e desfiles com tochas e tambores. A última batalha da Primeira Guerra Mundial estava madura para começar.

Guerra em três fases

Pode-se desdobrar a cronologia da Segunda Guerra Mundial em três fases. A primeira vai de 1935, quando Hitler rearma a Alemanha, ignorando as restrições do Tratado de Versalhes, a setembro de 1939, quando a Wehrmacht (forças armadas alemãs), invade a Polônia, encerrando uma fase de anexações de territórios estrangeiros consentidas pelos líderes europeus.

A segunda fase vai de 1939 a 1943. É a fase dos brilhantes movimentos militares e da ofensiva permanente. A Polônia, cujo exército não era fraco, rende-se em cinco semanas. Entre maio e junho de 1940, a Wehrmacht torna-se dona de praticamente todo o território continental europeu. Em 20 de junho de 1940, os franceses assinam um armistício no mesmo vagão de trem em que, em 1918, os alemães entregaram os pontos. O vagão, mantido pelos franceses como um monumento no bosque de Compiègne, é levado para Berlim. Em junho de 1941, três exércitos alemães invadem a União Soviética. Uma patrulha alemã chega a avistar as cúpulas do Kremlin.

Nenhuma força, nessa fase, parecia capaz de deter um exército tão rápido e eficiente quanto o alemão. Na realidade, pela própria dinâmica dos avanços militares, a Alemanha começava a cavar sua derrota. Primeiro por uma questão de espaço. O soldado alemão lutava da Lapônia, na borda do pólo Ártico, à Tunísia, no deserto africano. Ocupava das praias do Canal da Mancha aos rios da Criméia. O perímetro do império nazista era simplesmente extenso demais para que se pudesse controlá-lo com eficiência. Uma outra questão era a administração civil. Berlim não era mais somente a capital da Alemanha. Mas da Alemanha, da Holanda, da França, da Dinamarca, da Grécia. Era preciso manter uma burocracia enorme, custosa, numa época em que já se racionava balas de fuzil.

Erro com os subhomens

O fator mais importante era o próprio inimigo. O nazismo o subestimou. Hitler, em relação aos russos, nem lhes conferia a condição humana. Eram “subhomens”. Os ingleses eram “um povo de lojistas”. Os americanos, ricos e mimados demais para lutar. Entre 1939 e 1943, no entanto, o inimigo armou-se, organizou-se, melhorou suas táticas, decifrou os códigos secretos alemães, dividiu tarefas entre si.

O terceiro capítulo da Segunda Guerra Mundial começa em fevereiro de 1943. Depois de sete meses de combate entre buracos e ruínas, o 6º Exército Alemão, comandado pelo marechal Friedrich Paulus, rende-se aos russos em Estalingrado.

É possível que tenha sido a pior batalha de toda a guerra. Mais de 200 mil alemães morreram. Não há estatística confiável a respeito das perdas russas. Dos milhares de alemães aprisionados, poucos voltaram vivos à Alemanha. Três meses depois, as famosas tropas do Afrika Korps, um destacamento de elite organizado pelo marechal Erwin Rommel, renderam-se a ingleses e americanos no norte da África. Eram bons soldados mas, no fim, Berlim era incapaz de lhes enviar os suprimentos mais básicos, como gasolina para os tanques.

A partir de 1943, a Wehrmacht começa a sua história de recuos e derrotas. Nunca mais foi capaz de uma ofensiva importante. Os últimos dias do Terceiro Reich guardam uma ironia. O bunker em que Hitler se abrigou foi defendido dos ataques russos por duas divisões das SS formadas por soldados estrangeiros. Uma era a Divisão Nordland, formada por voluntários da Dinamarca e Noruega. A outra era a Divisão Carlos Magno, formada por soldados franceses. Em seu bunker, Hitler mudou de idéia a respeito dos russos. Disse a seus auxiliares que a Alemanha não merecia existir como nação. A verdadeira raça superior era aquela que jogava granadas em seu bunker.