Seaman, da Eurasia: ameaça à economia coreana

Flávia Furlan

A Coreia do Sul vive um drama à brasileira. A presidente do país, Park Geun-hye, se envolveu em um escândalo que está para lhe custar o governo: denúncias mostram que ela teria enviado documentos e discursos oficiais para Choi Soon-sil, uma herdeira shamânica e amiga pessoal de Park há 40 anos, que teria atuado como consultora.

De maneira intrigante, os pais das duas já eram amigos em posições de poder e influência semelhantes. O pai da atual presidente, Park Chung-hee, governou o país por 18 anos, mas foi assassinado em 1979 por um chefe da espionagem coreana. A alegação era de que o xamã Choi Tae-min, pai de Choi Soon-sil, exercia uma influência negativa sobre ele.

Os coreanos querem a cabeça de Park, por acreditar que a presidente não é confiável e pode ter sido influenciada pela amiga, que a usou para benefício próprio. Nesta quinta-feira, o congresso coreano deu entrada num processo de impeachment contra Park. Diante de um cenário tão incerto e obscuro, EXAME Hoje conversou com Scott Seaman, especialista em economia e relações internacionais do Japão e da Coreia do Sul e analista do Grupo Eurasia, consultoria de risco político. Ele falou sobre como o escândalo pode afetar o país, 4ª maior economia da Ásia e 11ª do mundo.

Agora que o congresso aceitou o pedido de impeachment, quais os próximos passos no processo? Quanto tempo pode levar? Quem assumirá o executivo?
O primeiro ministro Hwang Kyo-ahn assume os deveres da presidência até que a Corte Constitucional decida aprovar ou não a moção, ou até que sejam realizadas novas eleições. Se ela renunciar livremente, o primeiro-ministro assume o posto até que um novo presidente seja eleito em um pleito que tem de acontecer em até 60 dias.

Quais são as chances dE o impeachment realmente acontecer?
No Grupo Eurasia, nós damos a probabilidade em 70% de Park sair do governo antes do final do mandato, diante do escândalo Choi Gate, seja por renúncia ou pelo impeachment. No cenário atual, o impeachment é mais provável. A oposição não controla assentos suficientes na Assembleia Nacional para articular o impeachment sem que sejam necessários votos do próprio partido Saenuri, mas há membros anti-Park dentro do partido em número suficiente para passar a moção de impeachment. No entanto, há sempre a chance de que eles percam a confiança e mudem de voto diante da instabilidade. Mesmo que o legislativo vote pelo impeachment, a Corte Constitucional tem até 180 dias para rever o caso, podendo rejeitar o processo e anular o impeachment.

Este é o primeiro processo de impeachment na Coreia do Sul? Qual é o sentimento da população?
Não é o primeiro impeachment do país. A Assembleia Nacional já votou o impeachment do ex-presidente Roh Moo-hyun, em 2004, mas o pedido foi negado pela Corte Constitucional e Roh foi readmitido como presidente. À época, a maioria da população era contrária ao impeachment realizado pelo corpo legislativo. No caso de Park, no entanto, a vasta maioria da Coreia do Sul quer que a presidente saia do poder imediatamente ou sofra o impeachment.

A Coreia do Sul tem eleições marcadas para 2017. Quais são os principais candidatos? Quem é o mais popular?
A eleição está programada para dezembro do ano que vem. Se Park for retirada do cargo, no entanto, essa eleição pode acontecer antes. Há vários candidatos em potencial, embora nenhum deles tenha demonstrado intenção oficial de concorrer. De acordo com as pesquisas mais recentes, o mais popular dos nomes é Moon Jae-in, ex-líder do Partido Democrático da Coreia. Outros potenciais candidatos são o ex-secretário geral da ONU, Ban Ki-moon, o prefeito de Seongman, Lee Jae-myung, e o ex-líder do Partido Popular da Coreia, Ahn Cheol-soo.

Como essa questão política pode impactar a economia da Coreia do Sul?
O escândalo Choi Gate e os problemas políticos do governo de Park são uma ameaça tripla à economia coreana. Esses problemas enfraquecem a habilidade do governo de administrar a economia; minam a confiança de consumidores, empresários e investidores; e expõem a risco legal várias companhias coreanas por terem envolvimento com o escândalo.