Saúde de enfermeira com Ebola piora e mundo pede ações

Autoridades de saúde e a opinião pública mundial pedem medidas para evitar que a epidemia desta febre transforme-se em uma nova Aids

Madri – A saúde da auxiliar de enfermagem infectada com Ebola na Espanha piorou nesta quinta-feira, causando inquietação na opinião pública mundial e em autoridades de saúde, que pediram medidas para evitar que a epidemia desta febre hemorrágica letal avance, transformando-se em uma nova Aids.

A morte de um liberiano que estava internado no Texas (centro-sul dos EUA) na quarta-feira e a contaminação de uma auxiliar de enfermagem em Madri, devido a aparentes falhas nos protocolos sanitários, elevaram o alerta em nível mundial.

Os EUA e a Europa reforçaram as medidas de controle para evitar a propagação da doença e o diretor-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu que a ajuda atual no combate ao Ebola seja multiplicada “por 20”.

“Este será um longo combate (…) Nos meus trinta anos de trabalho com saúde pública, a única situação comparável foi a da Aids”, avaliou Tom Frieden, diretor dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos.

Segundo os CDC, o número de infectados pode chegar a 1,4 milhão em janeiro se não forem tomadas medidas mais firmes no combate à doença, que é transmitida por contato com fluidos corporais de uma pessoa infectada e causa febre, diarreia, vômitos e intensas dores musculares e nas articulações.

“Temos que trabalhar para que isso não seja uma próxima Aids”, disse Frieden aos diretores da ONU, do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI), reunidos em Washington.

Um britânico morreu em um hospital da Macedônia com sintomas similares aos do Ebola e as autoridades de saúde desse país aguardavam os resultados de exames feitos na Alemanha para confirmar ou não o diagnóstico.

Na Austrália, os exames em uma voluntária da Cruz Vermelha que voltou recentemente de Serra Leoa – onde trabalhou durante um mês cuidando de pessoas com o vírus -, deram negativo, segundo fontes oficiais.

O Canadá informou que espera o sinal verde da Organização Mundial da Saúde para enviar entre 800 e 1.000 doses de uma vacina experimental aos países afetados.

Enquanto isso, a vida da auxiliar de enfermagem Teresa Romero, de 44 anos, corria “um grave risco”, segundo o presidente da região de Madri, Ignacio González.

A técnica de enfermagem, internada no Hospital La Paz-Carlos III, é a primeira pessoa a se contagiar fora do oeste da África, onde essa febre hemorrágica matou mais de 3.900 pessoas neste ano, segundo o último registro da Organização Mundial da Saúde (OMS).

– Preocupação na Espanha –

Os espanhóis não escondem a angústia diante da possibilidade de novas infecções, por causa de denúncias de falhas na gestão da doença.

A inquietação afeta até o futebol espanhol. Devido aos temores do Rayo Vallecano com a situação na África, o atacante da Guiné Lass Bangoura, que atua no clube, deixou o Marrocos, onde sua seleção está concentrada, e voltou para Madri. A Guiné é um dos países mais afetados pela doença.

Em um relatório, Juan Manuel Parra, médico de emergência de 41 anos, descreveu as 16 horas em que cuidou de Teresa Romero, em 6 de outubro, e disse ter usado uma proteção insuficiente antes de a paciente ser diagnosticada com Ebola.

Considerado de “alto risco” devido a esse contato, o médico se internou na quarta-feira, apesar de não apresentar sintoma algum.

Na mesma noite, também foi internada uma médica de primeiros socorros que havia atendido Romero antes de saber que ela tinha contraído o vírus. Nesta quinta-feira, foi a vez de outro médico e do funcionário de uma ambulância. Nenhum deles apresenta os sintomas da doença.

O período de incubação do vírus varia entre dez e 21 dias e, segundo os especialistas, torna-se transmissível a partir da manifestação dos sintomas.

Um outro enfermeiro também está sendo mantido em isolamento. Assim como Teresa Romero, ele atendeu os dois missionários espanhóis, repatriados da África e que morreram em Madri em 12 de agosto e em 25 de setembro.

Ainda são aguardados os resultados do exame de Ebola feitos nesse enfermeiro e em outra enfermeira da mesma equipe.

Teresa e seu marido – que está em observação, apesar de não ter sintomas – completam o balanço de oito hospitalizados nesta quinta-feira.

A oposição socialista espanhola pediu ao governo nesta quinta a criação de um “comitê de crise” para “melhorar a comunicação e a organização”.

– Controles reforçados –

Durante uma videoconferência entre os responsáveis pela segurança sanitária dos 28 países da UE, um representante do governo espanhol admitiu, nesta quarta-feira, um “possível relaxamento de alguns procedimentos” no momento em que o segundo missionário repatriado era tratado.

Diante disso, autoridades e especialistas advertiram em Bruxelas para a necessidade de fechar todas as brechas para impedir a propagação do vírus.

Com o nível de regulação sanitária e médica existente na Europa, “a situação não é comparável com o que acontece na África”, afirmou nesta quarta-feira o porta-voz de saúde da Comissão Europeia, Frédéric Vincent.

Por enquanto, decidiu-se reforçar a informação fornecida aos viajantes e às equipes médicas, com o objetivo de detectar rapidamente qualquer entrada de doentes na UE.

No entanto, o controle dos viajantes em sua chegada à Europa “não é uma solução milagrosa”, considerou a ministra francesa da Saúde, Marisol Touraine, que pediu um reforço no “controle de saída” nos países africanos afetados.

A Grã-Bretanha anunciou que começará a adotar controles anti-Ebola nos aeroportos londrinos de Heathrow e Gatwick, e nos terminais ferroviários do Eurostar.

Canadá e Estados Unidos anunciaram que vão aplicar um forte esquema de controle nos passageiros que chegarem aos seus aeroportos procedentes dos países da África Ocidental, principalmente de Libéria, Serra Leoa e Guiné.

O estado mexicano de Tamaulipas, na fronteira com os Estados Unidos, decidiu aplicar uma vigilância epidemiológica em abrigos e pontos de passagem de emigrantes, assim como na ponte internacional que liga essa região ao Texas, onde foi registrada a primeira morte de um paciente diagnosticado com Ebola nos Estados Unidos.